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Na última semana, estive ausente neste espaço por um fato do qual eu gostaria com todas as forças de fugir: a passagem do meu irmão, Camilo. Tempo de sentir, de receber carinho e também de refletir. E a reflexão que quero propor hoje não é sobre a perda de alguém que amamos, mas sobre o que realmente permanece quando alguém parte.
Este texto, por isso, é antes de tudo uma forma de dar luz, — não apenas a quem dividiu a vida comigo —, mas à ideia de que cuidar da própria reputação é uma forma legítima de se perpetuar no tempo. Uma maneira de continuar, mesmo quando já não estamos mais aqui.
Reputação, muitas vezes, é definida como o que os outros dizem quando não estamos presentes. E, de fato, é na ausência que ela se torna definitiva, se transforma no nosso último discurso. Nos valores que deixamos. Nas memórias que despertamos. Reputação, neste sentido, não é apenas lembrança, é uma herança simbólica muito poderosa.
Há nomes que atravessam o tempo não pelo cargo que ocuparam, mas pela forma como foram percebidos pelas pessoas e pela sociedade. O eterno Ulysses Guimarães, por exemplo, jamais foi presidente da República, mas segue sendo um dos mais respeitados líderes da história política brasileira. Porque sua reputação – construída com coerência, coragem e civilidade – o precede e o sucede.
Outro exemplo é Ruth Cardoso, cuja presença discreta e sensível no Palácio do Planalto contrasta com a força do legado que deixou: uma reputação de inteligência, humanidade e compromisso com as causas sociais. Uma lembrança que segue inspirando e que remodelou todo o conceito de primeira-dama.
O mesmo vale para marcas. Provavelmente os mais “mocinhos” não irão lembrar, mas o caso da Mesbla é emblemático. Mesmo encerrando suas atividades em 1999, ainda é citada com carinho e respeito por quem viveu sua era de ouro nas lojas de departamento. Era um símbolo de confiança e inovação no varejo brasileiro. A reputação, nesse caso, sobreviveu à operação.
Para diversos autores, como David Waller e Rupert Younger, a reputação é um capital intangível, o mais valioso que uma pessoa ou instituição pode ter. Não se compra, não se herda. Constrói-se. Tijolo por tijolo, gesto por gesto. E quando bem construída, ela resiste ao tempo – e à morte.
Se há um aprendizado que reforcei nos últimos dias, é que reputação não é vaidade. É continuidade. Não se trata de como queremos ser vistos agora, mas de como seremos lembrados depois.
Camilo partiu, mas levou com ele uma reputação de gentileza, dedicação à família e retidão. E é isso que fica entre nós, não os bens que deixou. Mas a forma como foi, como tratou os outros, como viveu.
Cuidar da reputação, portanto, é também uma forma de cuidar do nosso legado. É deixar rastro. É marcar presença mesmo na ausência.
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