Publicidade
Artigo Tônia Andrea Horbatiuk Dutra: Nossa desnatureza
05 de Outubro de 2015

Artigo Tônia Andrea Horbatiuk Dutra: Nossa desnatureza

Tudo o que somos provém de algum lugar ou de outro alguém. Vivemos num sistema dinâmico de trocas com o ambiente que integramos. O ar que penetra nos pulmões e oxigena nosso sangue e órgãos recebe os poluentes que geramos com nossas atividades habituais de transporte, produção, descarte. A água que hidrata nossas células e equilibra as funções do organismo provém dos cursos d’água nos quais lançamos sem atenção uma gama de substâncias impuras e tóxicas. Os alimentos que ingerimos para nos dar energia e vida, vêm daquela mesma flora e fauna para cuja produção e criação engendramos uma série de tecnologias e processos assépticos, e que agora nos ameaçam lenta e silenciosamente.

Somos e vivemos natureza. Intervimos na natureza e esperamos que magicamente as substâncias essenciais à manutenção da espécie humana retornem puras, próprias e salutares, aptas a serem infinitamente utilizadas a nosso bel prazer. 

Publicidade

Não é muito diferente com as pessoas. Recebemos e retribuímos, sejam gestos e palavras afetuosas, seja rispidez, desrespeito, indiferença. Nem sempre devolvemos ao mundo as doçuras que recebemos, nem sempre filtramos as impurezas daquilo que nos chega e simplesmente reproduzimos o gesto, aprofundando os vazios.

E apesar de tudo, desejamos todos ser bons e sábios. Cada um com sua razão. É o que nos permite caminhar, até sobranceiros, donos de nossos mundinhos, soberbamente satisfeitos com o que pensamos dominar – a natureza, o conhecimento, o sentido da vida. Até que sobrevenha uma grande onda e traga a verdade adormecida na areia, na figura de um menino. 

Não, não somos justos em nossas trocas. Não somos sábios de nada, nem bons. Somos seres errantes, interdependentes, muitas vezes egoístas e injustos. Cegos, limitados à nossa vida circunvizinha, sem alcance e sem reflexo. Presos das nossas ignorâncias, das nossas mesmices e conceitos pré-estabelecidos. Incapazes de ver a dor da guerra nos olhos dos “diferentes”, daqueles que precisam fugir das suas casas, do ambiente de sua cultura, que fazem eco às suas crenças. Igualmente insensíveis às gentes de nossa pátria que choram sua terra e raízes, todos lançados à migração para que a Terra verta seu ouro natural. 

Precisamos sim, dominar. Mas não a Terra, os ventos, os mares, os outros animais, como vimos fazendo até aqui. Ao contrário, precisamos dominar a nossa prepotência, a nossa ignorância, os nossos preconceitos, o desejo de sobrepujar o outro sob a nossa vontade, o orgulho e a insolência. Precisamos conter – se ainda aspiramos algum futuro, como espécie, neste planeta – os impulsos da nossa desnatureza, que andam na contramão da Vida e da Paz.

 

WhatsApp
Junte-se a nós no WhatsApp para ficar por dentro das últimas novidades! Entre no grupo

Ao entrar neste grupo do WhatsApp, você concorda com os termos e política de privacidade aplicáveis.

    Newsletter