Imagem produzida pelo colunista com apoio do Chat GPT
Recente pesquisa divulgada pela Atlas/Estadão mostrou que 60% dos brasileiros não confiam no STF e nos seus ministros. Trata-se de um recorde histórico de impopularidade. O dado é relevante por si só, mas talvez mais importante seja o que ele revela sobre um fenômeno maior, que ultrapassa o Brasil e ajuda a explicar a deterioração da confiança nas instituições: a insularidade.
Todos os anos a Edelman, uma das principais consultorias de PR do mundo, publica o “Edelamn Trust Barometer”, estudo que mede a força da confiança das pessoas e onde está alocada. Os números mundiais do levantamento são claros: 7 em cada 10 pessoas não confiam em quem tenha ideias e valores diferentes dos seus.
A confiança, por tanto, deixa de ser uma ativo institucional e passa a se concentrar em pequenos núcleos que compartilham a mesma cosmovisão: família, amigos, empresa, grupos políticos e religiosos. Ilhas que refletem e que validam a forma como vemos o mundo. Uma confiança insular.
As tensões geopolíticas, o avanço do nacionalismo, os impactos da pandemia, os escândalos recorrentes, a inflação, tudo colabora neste movimento de isolamento emocional e social. Independente das causas específicas, o fato é que cada vez mais estamos optando por um ecossistema que ignora pensamentos diferentes, que busca retroalimentar crenças, que estimula o conflito e que se afasta do diálogo.
O ambiente digital potencializa tudo isso. Com algoritmos programados para nos agradar, somos impactados somente por aquilo que valida nossos sentimentos e convicções. Cerca de 60% dos entrevistados afirmam não acessar fontes de informações que tenham visões diferentes das suas.
O resumo é que optamos pela ilha e não estamos dispostos a abandoná-la.
Essa busca por segurança também se conecta a um pessimismo crescente e a um certo medo em relação ao futuro. O Barômetro de Edelman mostra que somente 32% das pessoas acreditam que a próxima geração estará melhor do que esta. Além disso, 54% das pessoas de baixa renda e 44% das de renda média acreditam que ficarão para trás com o avanço da Inteligência Artificial.
Mas afinal, em quem as pessoas confiam?
Em meio a esse cenário, a figura do empregador e da liderança empresarial surge com muita força e relevância. Longe das manchas atribuídas às instituições, 78% acreditam que eles farão as coisas certas.
A insularidade não é apenas um conceito. É uma realidade que redefine a forma como a confiança se organiza. Para quem trabalha com comunicação, isso impõe um desafio adicional: dialogar com públicos cada vez mais fechados em suas próprias referências e menos dispostos ao encontro com o diferente.

