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Instituto Terra: Carolina Sampaio Machado fala sobre sua carreira e o legado de Sebastião Salgado
28 de Agosto de 2025

Instituto Terra: Carolina Sampaio Machado fala sobre sua carreira e o legado de Sebastião Salgado

A carreira de Carolina Sampaio Machado transita entre ciência, terceiro setor e relações institucionais

Por Prof Jonny 28 de Agosto de 2025 | Atualizado 28 de Agosto de 2025

Fundado em 1998 por Lélia Wanick e Sebastião Salgado, o Instituto Terra transformou uma fazenda degradada em floresta. Mais de 7 milhões de árvores já foram plantadas, além de projetos de educação e desenvolvimento sustentável. À frente do desenvolvimento institucional está Carolina Sampaio Machado, bióloga com sólida formação acadêmica, doutora pela USP. Ela traz experiência internacional em captação de recursos e atuação no terceiro setor. Sua missão é fortalecer parcerias e ampliar o impacto da restauração ecológica no Brasil. Nesta entrevista, Carolina compartilha sua carreira e reflexões sobre o legado de Sebastião Salgado.

 

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Muito grato por contribuir com nossa coluna de carreira. Ao longo de sua formação em Biologia e nos anos de pesquisa acadêmica na USP, você deve ter tomado decisões que moldaram sua carreira para além da universidade. Qual foi a escolha estratégica no início da trajetória que você acredita ter mais influenciado o rumo que seguiu depois?

Obrigada pela oportunidade e pela sua pergunta. Entendo que a escolha mais acertada que tive durante minha trajetória, para chegar onde estou hoje, foi me especializar, buscar acrescentar conhecimento à minha formação básica em Biologia. Ao optar por cursar o mestrado e o doutorado na área científica, consegui amadurecer muito em termos de mercado, sobre qual seria a melhor escolha para um profissional da Biologia. Isso refletiu também em meus interesses de atuar na área ambiental.

Ao optar por seguir inicialmente a carreira acadêmica, de pesquisa e aprofundamento dos conhecimentos, consegui ampliar bastante minha visão. Durante o doutorado, na USP em Ribeirão Preto, escolhi o tema baseado na vida prática: aplicar a Biologia não apenas para a ciência, mas também para a vida cotidiana das pessoas. Estudei os impactos na saúde humana do consumo da água ou do contato recreativo no Rio Pardo, como nadar ou pescar, e também os efeitos do consumo dos peixes. Em 2013, discutia-se o uso da água desse rio para abastecimento público em Ribeirão Preto, cidade onde realizei o doutorado e onde nasci.

Esse estudo me permitiu compreender os efeitos das empresas instaladas no entorno do rio, os impactos da urbanização, das cidades e do uso agrícola, especialmente das plantações de cana-de-açúcar, sobre o recurso hídrico e, ao final, sobre a saúde das pessoas. Concluímos com uma avaliação de risco à saúde humana, validada também em minha experiência de pesquisa na Espanha.

Essa escolha foi acertada porque se desdobrou em meus trabalhos posteriores e ampliou a possibilidade de internacionalizar minha carreira durante o doutorado. Isso só foi possível graças ao apoio de bolsas da FAPESP e a recursos captados com minha orientadora, professora Dra. Suzana Segura Muñoz, por meio do Fundo Estadual de Recursos Hídricos, que financia pesquisas e ações relacionadas a esse tema.

Sem perceber, eu já aprendia como articular com atores públicos e universidades para captar recursos destinados a fins ambientais. Essa experiência abriu a porta internacional e consolidou o entendimento de como realizar a captação de recursos, que hoje aplico no Instituto Terra, articulando com empresas, doadores e parceiros para alavancar o desenvolvimento institucional da organização.

Você construiu uma carreira que transita entre ciência, terceiro setor e relações institucionais. Como foi a transição de pesquisadora acadêmica para gestora de equipes e projetos de grande impacto socioambiental?

Sim, foi muito curioso, Jonny, porque assim que concluí o doutorado fui para a área acadêmica, que era a lógica da minha carreira. Lecionei na universidade em Barretos por três anos, mas aquilo ainda não era suficiente. Sempre tive o anseio de gerar impacto positivo na questão ambiental, que foi meu foco desde o início da carreira como bióloga. Venho de uma região com produção extensiva de cana-de-açúcar, um cenário de monocultura. Minha intenção sempre foi buscar equilíbrio entre meio ambiente e esse contexto.

Ainda não estava totalmente realizada como docente no ensino superior, então comecei a buscar outros caminhos que me aproximassem do meu anseio inicial. Passei a trabalhar em uma organização do terceiro setor voltada à proteção animal. Embora não fosse totalmente ambiental, mantinha relação com a Biologia. Nessa organização, fui convidada a atuar com relacionamento corporativo, gerenciando o diálogo com empresas, especialmente do setor de produtos de origem animal. Meu papel era estabelecer esse diálogo e explicar a relevância do trabalho voltado ao bem-estar animal. Essa atuação me mostrou a abertura das empresas para dialogar e se adequar às melhores práticas orientadas pela ciência. Além do relacionamento corporativo, comecei também a captar recursos para a organização, especialmente no âmbito internacional, já que havia demanda por alguém com habilidade de comunicação em outros idiomas e negociação. Com isso, ampliei minha experiência em captação de recursos para o terceiro setor.

Tive a oportunidade de realizar uma especialização na Europa em captação de recursos e participei de congressos, principalmente na Holanda, como o congresso internacional IFP, voltado a fundraising. Essa vivência me trouxe contatos internacionais e mostrou a diferença cultural: no Brasil, a filantropia ainda é incipiente e pouco consolidada, enquanto no exterior, especialmente nos Estados Unidos, a cultura de doação é muito forte. Esse olhar externo me deu nova visão sobre o alcance possível no Brasil. Após essa experiência, estabeleci pontes com organizações internacionais, como Greenpeace, museus (por exemplo, o Van Gogh) e instituições como Think Foundation, em visitas técnicas. Isso me permitiu compreender melhor as regras desse campo. Foi um passo importante antes de chegar ao Instituto Terra.
Muitas vezes me coloco em situações desafiadoras que trazem grande aprendizado, como palestrar. Durante o doutorado, palestrei nos Estados Unidos e na Grécia, o que me ajudou a lidar com situações adversas, falar em público e responder a perguntas complexas. Isso me trouxe bagagem e segurança para dialogar com todos. Hoje, minha rotina envolve contato diário com pessoas de diversas localidades do mundo.

Desde 2022, você atua como Head de Captação de Recursos do Instituto Terra, um dos legados mais reconhecidos de Sebastião Salgado, no qual está à frente de parcerias para restaurar a Mata Atlântica. O que tem aprendido nesse papel sobre o poder da cooperação entre empresas, governos e sociedade civil para transformar ecossistemas inteiros?

O Instituto Terra hoje não realiza apenas a restauração, que foi o início do sonho de Lélia e Sebastião em 1998. Passados 27 anos de existência, o instituto faz muito mais. Além da restauração da Mata Atlântica, há uma área muito desenvolvida de educação ambiental, formando anualmente cerca de 400 pessoas entre crianças, jovens e adultos.

Sobre o poder da cooperação entre empresas, governos e sociedade civil, o aprendizado vem desde a fundação. Quando decidiram transformar a fazenda de gado em floresta, Lélia e Sebastião perceberam que não seria suficiente apenas o esforço do casal. Seriam necessárias muitas mãos para plantar milhões de árvores. Até hoje, já foram plantadas mais de 7 milhões, considerando também áreas externas.

Desde o início, as parcerias foram fundamentais, seja com pequenos doadores, grandes doadores, corporações ou governos. Atualmente, minha equipe, composta por seis pessoas, trabalha na estratégia de engajar parceiros para apoiar e dar continuidade a esse trabalho.

Vejo como essencial o engajamento crescente de empresas, principalmente brasileiras. Pelo alcance internacional de Sebastião Salgado, há um histórico de grandes apoiadores de fora. Hoje, os dois principais parceiros institucionais são do exterior: a Cooperação Brasil-Alemanha, facilitada pelo Banco de Desenvolvimento Alemão (KfW), que permite o desenvolvimento rural sustentável em 28 municípios da bacia do Rio Doce; e a seguradora Zurich, inicialmente com a unidade suíça e, atualmente, com grande parte das unidades do grupo no mundo.

Ainda assim, há certa frustração, pois, estando no Brasil, em Minas Gerais na divisa com Espírito Santo, reforçamos constantemente o convite às empresas locais para fortalecerem o Instituto Terra, uma instituição brasileira voltada a beneficiar nosso próprio território. Esse é nosso grande esforço: trazer cada vez mais parceiros, governos e doadores nacionais para apoiar e consolidar o trabalho do Instituto.

O Instituto Terra tornou-se uma referência em restauração ecossistêmica da Mata Atlântica. Quais são hoje as principais frentes de atuação da instituição? E de que formas empresas, órgãos públicos e cidadãos podem contribuir, seja com recursos humanos, financeiros ou materiais, para ampliar esse impacto? Além disto, existem incentivos fiscais para pessoa física e jurídica?

As três áreas principais de atuação do Instituto Terra são: restauração, educação ambiental e desenvolvimento rural sustentável. A restauração vai muito além do simples plantio de árvores. É como restaurar a Capela Sistina: exige especialistas, materiais adequados e tempo. No caso da Mata Atlântica, é necessário coletar sementes nativas em um raio de 200 km ao redor do Instituto, respeitando a genética e a adaptabilidade das espécies. Essa coleta é feita por escalada, com funcionários treinados, e demanda recursos. As sementes são levadas ao viveiro, onde se tornam mudas, depois plantadas em campo. Graças a parcerias, entende-se que o método mais eficiente é o plantio de mudas, não a semeadura direta, especialmente em uma região de pasto, solo compactado e pouca chuva. A equipe prepara o solo, abre os “berços” (cova de plantio) e realiza o trabalho no período de chuvas, de domingo a domingo. A fazenda original tinha 700 hectares e, graças a doadores, a área foi triplicada, ampliando os espaços para restauração.
A segunda frente é a educação ambiental, iniciada em 2005 com o Núcleo de Estudos em Restauração Ecossistêmica. Nele, 26 jovens egressos do ensino médio técnico passam 11 meses no Instituto, recebendo alojamento, alimentação, equipamentos de proteção, bolsa, curso de inglês e formação completa sobre reconstrução florestal. Esse projeto garante continuidade, formando profissionais que seguirão no mercado ou no próprio Instituto. Outro programa é o “Terrinhas”, voltado a crianças de 10 a 12 anos, que frequentam o Instituto no contraturno escolar. Em 2024, beneficiou 700 estudantes, tornando-os agentes de transformação ecossistêmica.
Outra frente forte é o desenvolvimento rural sustentável, no qual o Instituto atua além dos limites da fazenda, junto à comunidade local e a fazendeiros da região. O objetivo é ampliar a sustentabilidade em suas produções, como café, cacau e outros cultivos agrícolas, sempre com viés florestal, seja pela agrofloresta ou pelo consórcio. Assim, o impacto vai além da restauração e alcança diferentes dimensões do território. Esta linha foi consolidada em 2023 com a Cooperação Brasil-Alemanha. O contrato de cinco anos abrange o Vale do Rio Doce e prevê atendimento individualizado a fazendas. A equipe realiza diagnóstico das necessidades de cada propriedade — adequação ambiental, regularização, manejo — e oferece assessoria técnica. Também promove a adoção da agrofloresta, aumentando produtividade e agregando valor. Almejamos ainda criar um selo de sustentabilidade do Instituto Terra para certificar produtos.
Quanto à contribuição de empresas, órgãos públicos e cidadãos, o Instituto dispõe de uma área de desenvolvimento institucional, da qual sou líder atualmente. Pessoas físicas podem doar pelo site institutoterra.org, onde há link específico para doações. Cada valor contribui para diversos projetos, como a produção e plantio de árvores, por exemplo. Empresas e governos podem entrar em contato via formulário do site, pelo e-mail institucional ou diretamente comigo ([email protected]). As parcerias são desenhadas de forma personalizada e podem incluir voluntariado ou apoio financeiro.
Há também o Programa Empresa Amiga, voltado a pequenas e médias empresas. O acesso é feito pelo site, em um fluxo intuitivo, e ao aderir, a empresa recebe um selo que pode divulgar para comunicar sua parceria com o Instituto Terra. No Brasil, ainda não existem incentivos fiscais específicos para a área ambiental. O que temos hoje é a Lei da Reciclagem, que exige adequação das organizações. Um incentivo fiscal para restauração ecológica seria muito desejável. Atualmente, o Instituto Terra tem dois projetos aprovados na Lei de Incentivo à Cultura. Um deles busca criar oficinas sustentáveis para crianças, e nesse caso é possível receber doações vinculadas ao benefício fiscal previsto na legislação.

Ao longo da sua trajetória — que inclui atuação como pesquisadora na USP, docência em universidades e, mais recentemente, liderança em organizações o Instituto Terra —, quais decisões e convicções pessoais têm servido como fio condutor para sustentar sua missão profissional de transformar a relação do ser humano com o meio ambiente?

Penso que a decisão de trabalhar de maneira ética significa beneficiar as ações locais e o território, em vez de priorizar grandes corporações. Meu olhar tem sido voltado para identificar as necessidades daquela população e daquele ambiente, considerando não apenas as pessoas, mas também aqueles que não têm voz, como as árvores e os animais que habitam o local.

Busco usar minha força de trabalho e minha bagagem acadêmica para favorecer ações locais que gerem impacto significativo para o ecossistema, a natureza e a população da região, especialmente a mais necessitada. Minhas decisões são pautadas por esse princípio: ampliar o alcance do meu conhecimento em prol daqueles que muitas vezes são esquecidos ou deixados de lado.

 

Diante de sua experiência na área de gestão ambiental, qual seria sua mensagem final para esta entrevista, visando contribuir com alguém em início ou fase de transição de carreira considerando esta área como atuação?

Minha mensagem é: não desista. Existem muitos desafios e interesses ao longo do caminho. É fundamental manter o foco no benefício que se deseja gerar — para o meio ambiente, para o território e para as pessoas. Muitas vezes surgem outros interesses relacionados à lucratividade, imagem ou más condutas. Por isso, é preciso ter clareza, consistência e perseverança nos objetivos.

Há muito espaço de atuação e uma grande necessidade de bons profissionais para promover as mudanças necessárias nas práticas de consumo, de modo a garantir um futuro mais promissor para a vida humana.

Lições de carreira

A jornada de Carolina Sampaio Machado inspira pela clareza de propósito e pela resiliência diante dos desafios. O Instituto Terra mostra que restaurar a Mata Atlântica é possível quando ciência, comunidade e doadores se unem. Cada contribuição torna-se parte dessa história de reconstrução. Carolina destaca que o futuro depende de escolhas éticas e consistentes no presente. O legado de Sebastião Salgado se renova em cada iniciativa que conecta pessoas e natureza. E o convite é claro: somar forças para que esse impacto continue crescendo.

Grato pela leitura. Nos encontramos no próximo artigo!

Abraço, Jonny

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