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De repente, em questão de meses, a IA se tornou uma das coisas mais admiradas e, ao mesmo tempo, uma das mais temidas que o homem já criou.
O mundo só fala nisso: empregos em risco, arte em risco, educação em risco, os limites da inteligência generativa, modelos produzidas por IA, pornografia por IA (surreal!), publicidade gerada por IA.
Ao mesmo tempo, fala-se das maravilhas para a ciência, a capacidade infinita de processamento de dados e informações em busca de novas vacinas, novos medicamentos, novos formatos de comunicação etc. As possibilidades são simplesmente infinitas.
A IA escreve nossos e-mails, anota compromissos, redige até mesmo sentenças judiciais, produz material publicitário, cria imagens com gente que já morreu ou que nem existe. Até o que se deve falar numa troca de mensagens com um ‘crush’ a IA é capaz de fazer!
Recentemente assisti um curso. Era sobre produção publicitária para Instagram. Num dos módulos, chamado de “uso do ChatGPT para criação de reels”, o professor ficou exatos 15 minutos configurando a IA para que ela produzisse um roteiro de reels para o Instagram com duração de incríveis 30 segundos. Primeiro convenceu a IA a se tornar publicitária, depois começou a elaborar os parâmetros (o prompt) que ela deveria considerar para pensar no conteúdo do reels. Foram 15 minutos que me senti um verdadeiro idiota, pois, convenhamos, em 15 minutos é possível pensar e elaborar uma ideia de 30 segundos.
Noutra experiência no mínimo curiosa pedi a uma das trocentas IAs que redigisse um texto. Sim, um texto, um artigo sobre tal assunto. Comecei pedindo o básico e fomos, eu e a IA, “trocando ideias” e adicionando e colocando coisas, mudando falas, colocações, aumentando o tal “juridiquês”, reduzindo parágrafos etc. Ao final de uma extenuante jornada, lá estava um bom artigo para publicar. Só que resolvi fazer algumas alterações. Sabe como é: dar o meu toque pessoal no artigo. Então refiz alguns parágrafos, mudei umas coisas de lugar e, voilá, estava pronto o artigo após dezenas de mensagens e linhas e mais de linhas elaborando o prompt.
Inevitavelmente pensei: se eu tivesse gasto toda esta energia escrevendo o artigo ao invés de criar o prompt, talvez o artigo tivesse ficado pronto na mesma velocidade e qualidade. E mais: eu teria usado os meus próprios neurônios e me tornaria, ao final da redação, uma pessoa melhor do que eu era quando me deparei com a tela em branco!
Há duas grandes razões para termos esta admiração tão grande pela IA.
A primeira está relacionada à divindade. Muito de nossa crença em Deus tem a ver com o fato de não O conhecermos. A falibilidade dos homens é o que nos separa do divino e o que nos faz admirar algo que jamais vimos, mas que acreditamos ser eterno. A IA é uma quase divindade; não a vemos, mas ela fala com você e, para melhorar ainda mais, ela responde aos seus pedidos. Neste aspecto, ela tem feito as vezes de Deus para muitos usuários, que conversam sobre problemas pessoais e pedem ajuda espiritual para a IA.
A segunda razão está numa característica bastante peculiar da nossa atual sociedade: a velocidade. O tempo se tornou exíguo demais para que o percamos com leitura, estudo e reflexão. O famoso “penso logo existo” deu lugar a “penso logo digito”. A velocidade das coisas impõe que pensemos rápido. E a IA encurta este tempo, pelo menos na aparência. Imagens criadas em frações de segundo, textos, mesmo que ruins ou incompletos, criados como mágica, são atraentes demais do que estantes empoeiradas cheias de livros.
Cada vez as IAs ficam mais inteligentes, ao passo em que cada vez mais as pessoas se tornam escravas desta tecnologia. Os padrões culturais dão lugar a comandos limitados, estabelecidos pelas próprias inteligências e pelo que as redes nos servem. É o homem sendo lenta e tristemente substituído por sua própria desinteligência.
O que veremos nos próximos anos será determinante para um redesenho cultural da própria comunicação.
Se sou contra? Claro que não. Impedir a IA é como querer que o sol se apague quando se está com calor. É uma realidade irrefreável. Porém, minha experiência como professor e advogado mostra que o futuro dos jovens que preferem perguntar à IA do que procurar as próprias respostas será difícil, pois se tornarão cada vez mais dependentes deste “Deus pagão” para que estejam na “hype”, na moda.
D.J. Castro, em artigo sobre o “erro da inovação sem propósito”, dá exatamente a nota desta sociedade que procura o tempo todo se reinventar para apenas parecer atual!
Se a função da tecnologia é realmente diminuir atritos, como é que alguém pode considerar melhor pensar horas e horas num prompt, ao invés de dedicar um mísero tempo à leitura, à educação e ao aprendizado? A transferência da energia, da criatividade e da cultura tradicionalmente adquiridas por meio de leitura e reflexão é como uma transfusão. Não há volta. Há um resultado, mas este resultado faz apenas o outro viver. E, no caso, uma máquina. Mas diferentemente de uma transfusão, o doador não recupera o sangue doado. Ao contrário. É ele quem morre ao final, e o Deus IA não terá piedade.
