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É claro que vou falar do DAZARANHA
09 de Dezembro de 2025

É claro que vou falar do DAZARANHA

No total, são 9 álbuns lançados, além do comemorativo de 30 anos e da coletânea Ilha de Todos os Sons.

Por Murillo Valente 09 de Dezembro de 2025 | Atualizado 09 de Dezembro de 2025

 

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“É Dazaranha quem, quem é que é Dazaranha, Dazaranha quem; come feijão com detergente; dorme na chuva e dorme contente; não confunde coca com coca; e moca com coca; e faz de cócoras…
Música Padre, Álbum Seja Bem-Vindo”

Certo dia, há mais ou menos trinta anos, eu caminhava tranquilamente pela rua Felipe Schmidt, no centro de Florianópolis, absorto em meus pensamentos, quando percebi uma movimentação estranha ao meu redor. Sabe quando você sente que está sendo seguido ou monitorado? Assim mesmo. De repente, dois rapazes cabeludos me interpelam e perguntam:

“Ei! Tu não és o cara do estúdio?”

O susto inicial passou. Nenhum risco aparente. Os dois rapazes eram Gerry e Gazú, dois dos três irmãos integrantes do Dazaranha, uma banda recém-nascida no Saco Grande e com um visível apetite artístico e criativo. Gerry e Gazú eram barbeiros numa barbearia ali pelos arredores, e o nosso esbarrão no meio da rua era um sinal providencial de que eles estavam dispostos a mudar radicalmente seus projetos de vida e habitat profissional.

“Sim, eu sou o cara do estúdio.”

O diálogo seguiu. Eles me falaram com aquele sotaque carregado do Saco Grande que tinham uma banda e que estavam querendo gravar. Eu acreditei desconfiando, mas alguma coisa me dizia que “tinha caroço naquele angu” ou “naquele pirão”, pra ficar mais “manezinho”. Trocamos contato e marcamos uma visita no estúdio para “afinarmos as rezas”. Não apareceram e a vida seguiu. Só que essa não ida ao estúdio não foi por acaso. Existia uma motivação estratégica. Eles tinham uma aliada que faria toda a diferença no processo. De qualquer maneira, o pontapé inicial tinha sido dado.

 

Adriana

Adriana Martorano, uma amiga do curso de jornalismo da UFSC, me procurou para pedir apoio no TCC dela, um documentário sobre o artista plástico Meyer Filho intitulado Galo de Briga. Mas que ajuda seria essa? Adriana e Marta Moritz, coautoras do trabalho, precisavam ter uma gravação de uma música da Banda Dazaranha, dos cabeludos da Felipe Schmidt, não tem? Um pedido da Adriana era quase uma ordem e é claro que topei a missão. A música em questão era “Retroprojetor” e a motivação eram os galos, personagens recorrentes da obra de Meyer Filho:

“Ninguém trepa mais que o galo

Ninguém samba mais que os anjos…

…E eu, ahá

Iê galo cantor, ié ié Iê

cocorocô”

A música, composta por Moriel Costa, apresenta uma harmonia “mística” com várias citações sonoras e uma letra repleta de imagens e símbolos que misturam elementos da cultura florianopolitana, aspectos ecológicos e ambientais. Shiva, uma das principais divindades do hinduísmo, também é

citada, assim como o consagrado percussionista brasileiro Naná Vasconcelos. A mesma letra alfineta a escola e o sistema de ensino tradicional: “Antididático é o retroprojetor”. Ou seja, um mosaico de referências habilidosamente construído pelo Muruca. Os trabalhos começaram e o primeiro ajuste a ser feito era a duração da música. Originalmente com quase 9 minutos de, sendo que os 3 (intermináveis) minutos finais eram um mantra hindu mesclado com solo de guitarra. Depois de muita conversa e argumentos (9 minutos nunca vão tocar na rádio), o tempo final caiu para pouco mais de 5 minutos, mantendo o mantra e solo do Chico. UFA! Para eles, o estúdio era um parque de diversões onde todas as experimentações poderiam ser feitas. Ao me deparar com essa composição complexa, ficou ainda mais claro que estava se concretizando, naquele momento, um movimento de criatividade promissora e nada niilista ou descompromissada. Parece até que estamos falando de uma banda experiente, com anos de estrada. Nada disso! Eles nunca tinham pisado em um estúdio de gravação e ter sido “eleito” para tal feito me causa grande orgulho.
Sobrava apetite e talento.

 

Ilha de Todos os Sons

A gravadora RGE, parceira da RBS Discos, procurou o nosso estúdio em 1994 para produzirmos uma compilação com artistas de Florianópolis. O produtor da gravadora se chamava Ayrton dos Anjos, mais conhecido como Patinete. Era um cara animado e acelerado. Chegou na ilha com essa missão e, como não conhecia ninguém na cidade e muito menos o cenário musical, nos passou a tarefa da indicação e escolha dos artistas. Prato cheio! Indiquei vários amigos, entre eles o Dazaranha. Me lembro como se fosse hoje. Um suspense se instalou por parte do produtor executivo e seu staff; afinal, que banda é essa? Poderia ser um tiro no escuro. Mas ele confiou em mim e o Daza entrou na coletânea, que teve como produtor musical o Guinha Ramires. Mais uma etapa vencida e é chegada a hora de pensarmos no primeiro álbum. Isso significa que o nosso casamento tinha dado certo.

Seja Bem-Vindo

Foram intensos e férteis 4 meses de gravação com o orçamento chorado de 10 mil reais. A causa era nobre e o prazer, sem tamanho. O álbum foi gravado em um Fostex de 16 canais. Todo o processo era analógico. Adauto e Fernando me relembraram como eram feitas as mixagens. Todos os dedos disponíveis para ativar e desativar os canais na hora certa, num balé frenético, até que “a boa” saísse. O ambiente no estúdio era lúdico, recheado de descobertas. Como eles mesmos falam, eu tive que “domar aquela manezada”. Cada integrante da banda tinha sua personalidade e isso fazia toda a diferença no processo criativo. Todos, nas suas especificidades, eram (e continuam sendo) extremamente talentosos; aliás, melhoraram muito com o passar dos anos.
Sempre ensaiaram e continuam ensaiando (compulsivamente) na emblemática caixa d’água, vizinha do cemitério do Itacorubi. Por esse motivo, seus shows são impecáveis.

“Sou dá caixa d’água; Sou dá caixa de som; Subo o morro da caixa com um berimbau bom pra fazer; Uma roda de povo só pra ver; Lá em cima o que há de novo…
— Música Tribuzana, Álbum Nossa Barulheira”

É claro que nem tudo transcorreu em total harmonia, mas eu arrisco dizer que 90% eram paz e diversão e 10% algum ajuste, afinal, seis cabeças em ebulição, incluindo a minha.
Amizade
A convivência quase que diária transformou a relação de trabalho em amizade. Uma das unanimidades entre aquele bando de siris foi o apelido que me deram; eu não esboçava reação para não piorar as coisas, mas isso não vem ao caso. Depois das gravações, a gente inventava coisas pra fazer.
Descobri que o Chico Martins, guitarrista, vocalista e compositor, além de um exímio guitarrista, era também um pizzaiolo de mão cheia. Dei de presente para ele um cinto com tachinhas de metal, tipo roqueiro. O Adauto, impressionante baixista, trabalhava na loja de departamentos e eletrônicos Arapuã, no centro de Floripa. Era craque em fazer pacotes tão impecáveis como suas linhas de baixo robustas e precisas.
Ele, de vez em quando, aparecia no meio da noite na minha casa, na Lagoa da Conceição. “Posso dormir aí?” Moriel Costa, (capoeirista), compositor, vocalista e guitarrista, era, e continua sendo, uma usina de criatividade absurda e interminável. Dê um tema que o Muruca faz música. Deixe a bola quicando que ele faz piada, tanto é que desse dom nasceu o Darci, que dispensa apresentações. Gerry, percussionista cirúrgico e potente, era/é a alma mais doce da banda. Sempre sereno e coerente nas argumentações, ele era/é capoeirista e talvez daí venha o seu equilíbrio. Fernando, o violinista da banda, tinha a luxuosa missão de “quebrar” a lógica da sonoridade do Daza.
Os diálogos dos violinos do Fernando com as guitarras do Chico são impressionantes. Os arranjos e as frases de seu violino trazem um caráter de “world music” para a banda do Saco Grande. Fernando ficava horas ajustando as frequências, mapeando os volumes e a mixagem. O baterista, Zé Caetano, uma figura adorável, contribuía com a arquitetura e o bom astral da banda. Ficou até 1999. Gazu era o vocalista, dono de uma voz única e peça fundamental na formação da personalidade do Daza. Ficou na banda por 23 anos e a ordem natural das coisas fez com que eles se afastassem e Gazu seguisse em carreira solo.

 

Trinta Anos Depois

O Dazaranha atualmente é cercado por um staff competente que vai da equipe técnica, com roadies e engenheiros de som sensacionais, até a distribuição digital a cargo da Paravox Music e gestão de carreira com a Harmônica Arte & Entretenimento. Tudo funciona muito bem. Não posso deixar de citar o Adriano, baterista que substituiu o Zé Caetano, e também o JC Basãnez, atual baterista, preciso e responsável pela “cozinha” potente do Daza. Dinho Stormovsky, guitarrista sofisticado e sensível, completa a química do Daza.

Os números impressionam. Foram mais de um milhão e duzentos ouvintes no mês de novembro só no Spotify e quase 17 milhões de streams em um ano. No total, são 9 álbuns lançados, além do comemorativo de 30 anos e da coletânea Ilha de Todos os Sons. Os álbuns Daza de 2014, Afinar as Rezas de 2016 e Entre Cantos de 2025 foram produzidos pelo meu amigo e parceiro de música e trabalho Carlos Trilha. O Daza é uma banda que tem noção da sua representatividade e responsabilidade com a cultura de Floripa e Santa Catarina.

 

Missão Cumprida

Assim que o álbum Seja Bem-Vindo ficou pronto, veio a sensação dúbia de vazio misturada com dever cumprido. Foram meses de muita intensidade e produção ininterrupta. O disco foi lançado em 1996 e recebeu o nome de “Seja Bem-Vindo” em homenagem ao primeiro filho do Muruca, o Ícaro, concebido durante a gravação do disco, assim como abençoa a chegada da minha filha Mariah, também concebida no período das gravações. Época fértil, frutífera e inspirada que nos presenteou com a possibilidade de nos emocionarmos, trinta anos depois, e sentirmos orgulho quando soam os primeiros acordes nos palcos do Daza. Hoje, quando ouço o meu neto Theo cantarolando “é o salão de festa a vapor” e me perguntando “Vô, você é amigo do pessoal do Dazaranha?”, tenho a certeza de que “um dia lindo a gente faz”.

Seja Bem-Vindo é realmente um bom nome e um ótimo presságio.

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