Cazuza
“E aí, tem pra mim?”
1985
Era domingo e o show do Barão Vermelho tinha sido no sábado, no Sesc da Prainha, em Floripa. Dia de “turistar” por Floripa.
Nos encontramos cedo no Hotel Maria do Mar e seguimos para um tour pela cidade.
“Murillo, é melhor você dirigir porque o Iran é muito barbeiro”, disse Cazuza.
Mirante do Morro da Cruz, almoço na Lagoa, camarãozinho, peixinho e muita cerveja com Steinhaeger. Um dia de sol agradável com muitas histórias, confidências, revelações e risadas.
No início da noite, de volta ao hotel, mais resenha e, depois de um dia cheio, o strike era inevitável.
Todos foram caindo: Frejat, Iran, Simone, Zeca Neves.
Na resistência, Marão, o produtor da banda, eu e Cazuza.
Ele recebe uma ligação. A outra ala da banda estava na picardia pela cidade, mais especificamente no Relax Center, na Anita Garibaldi, um dos poucos “inferninhos” da cidade naquela época. Bastou essa informação para incendiar o rapaz.
No telefone, depois de um diálogo confuso e sem uma conclusão satisfatória, esbraveja:
“Tem pra mim ou não? Passa pro Serginho que também é viado…”
E lá fomos nós pro centro da cidade para descobrir se tinha pra ele. Nada estava acontecendo; inclusive, o tal inferninho já estava fechado. Florianópolis, domingo à noite, poucas coisas acontecem, argumentei.
“Então vamos pro bar mais famoso da cidade…” sugere Cazuza.
O bar mais famoso da cidade era o Degrau do saudoso Mário Gustavo e lá fomos nós. No Degrau, ele, exagerado que sempre foi, cantou, falou alto, puxou conversa com as outras mesas, tirou satisfação; ou seja, virou atração, como não poderia deixar de ser.
Mas, vamos voltar um ano no calendário.
Decalcomania

Lembro que ele tinha duas coisas na cabeça: uma dor infernal e a ideia fixa de montar uma banda. Pediu um comprimido e foi embora.
“Missão dada é missão cumprida” é um ditado popular que significa o compromisso inabalável de realizar uma tarefa designada, sem desvios, custe o que custar.
Bem isso!
Assim nasceu o Decalcomania, que será assunto em outra edição. O fato é que montamos a banda, que teve um sucesso meteórico em Florianópolis e outras cidades de Santa Catarina e foi o gatilho para o nosso primeiro encontro com o Cazuza.
De todas as bandas nascidas nos anos 80, na onda do Rock Brasil, a minha preferida era o Barão Vermelho. Eles tinham uma “carioquice” que me agradava, um sotaque abusado e “um vai-e-vem dos teus quadris” interessante. A minha produção no Decalco era escrachadamente influenciada pelos Barões. Quando compus a música “Aeroforça”, por exemplo, a inspiração veio de Bete Balanço, mais especificamente no molejo do riff da guitarra do Roberto Frejat.
Circo Voador
Ficamos muito famosos (tsc tsc!). Tínhamos empresário, agenda de shows lotada, fãs, patrocinadores, clipe na RBS e frequentávamos a coluna do Cacau Menezes, Beto Stodieck e Ricardinho Machado. Tudo aconteceu muito rápido. Apenas um ano se passou entre os ensaios na rua Trajano Margarida e os shows e os palcos no Rio de Janeiro. Esse movimento nos motivou a querer alçar novos voos. A nossa amiga Fátima Lima preparou uma pastinha luxuosa e moderna com fotos, recortes de jornal e, com uma fita cassete na mochila, parti pro Rio de Janeiro com destino ao Circo Voador.
Maria Juçá
Estava me sentindo como um personagem daquelas histórias de filme em que o artista do interior se aventura na cidade grande em busca do seu sonho. Com a cara, a coragem e a tal pastinha, segui em frente.
No Circo, me informaram que eu teria que procurar a Maria Juçá, produtora do Rock Voador, um evento semanal de rock que estava em cartaz de quarta a domingo.
Fui ao encontro da Juçá sem a menor ideia do que poderia acontecer. Ela morava ali mesmo, na Lapa, numa casa que tinha uma escadaria grande. Não tinha campainha. Bati palma como um vendedor de enciclopédias até que ela surgiu, aparentando alguma falta de paciência.
“Oi, tô procurando a Maria Juçá! Sou o Murillo, de Florianópolis, tenho uma banda e queria ver se existe a possibilidade de tocarmos no Rock Voador.”
Ela arregalou os olhos e perguntou:
“De onde? Floripa? Sobe já, menino, eu amo Floripa, sou de Imbituba!”
Caí na graça da Juçá. Mais sorte do que juízo! Viva Imbituba!
No escritório, prateleiras com pilhas e mais pilhas de fitas cassete e um mural com a programação do tal Rock Voador, escrita com pincel atômico. Eram de quatro a cinco bandas por noite. Passando os olhos nesse mural, encontrei uma sexta-feira com uma única banda: Barão Vermelho!
Juçá já estava ajeitando as coisas pra encaixar o Decalco num dos dias com outras bandas, e eu de olho no dia do Barão, obviamente. Fiz uma cara de cachorro faminto e, como o NÃO eu já tinha, perguntei se poderíamos tocar no dia do Barão. Ela respondeu que não tinha a menor chance. Era o lançamento da turnê “Maior Abandonado” e eles queriam tocar sozinhos. Justo. Mas a Maria Juçá tinha gostado mesmo de mim. Pegou o telefone e ligou pro Cazuza.
“Caju, eu tô aqui com o Murillo, ele tem uma banda bem legal do sul e eu queria te perguntar se não podemos colocar eles pra abrir o show do Barão…”
No início ele relutou, mas falou que teria que consultar a banda e etc.
Ansiedade grau mil e ela pediu que eu voltasse uma semana depois. “Uma semana” que pareceu um ano.
Quando voltei, ela já saiu pela porta com um sorriso largo fazendo um sinal de positivo lá de cima e dizendo que eles toparam.
Imagina! Decalco e Barão Vermelho na mesma noite, no mesmo palco, e não era um palco qualquer. Consegui!
Frejat e Murillo
O Encontro
Fomos para o Rio uma semana antes do show. Nosso braço de apoio na cidade era o meu amigo de infância Ceça, que abraçou a causa. Ensaiamos no estúdio Tok, em Botafogo, onde artistas como Djavan, Léo Jaime e outros ensaiavam. Emplacamos uma matéria longa no RJ TV, com direito a clipe, Leila Cordeiro e tudo mais. Frequentamos a praia da “galera” (tsc tsc), conseguimos reuniões com figurões da Rede Globo.
Resumindo, criamos um certo burburinho no meio musical carioca.
No dia do show estávamos prontos, engomados, com o figurino da Marrocana, das irmãs Koerich, e super ensaiados.
Os Barões foram chegando aos poucos: Frejat, Guto Goffi, Dé e, por último, Cazuza, acompanhado de seu séquito, composto pelo guru e mentor Ezequiel Neves, globais, estilistas e a própria Bete, sim, a Bete Balanço, uma ruiva magra, esquisita e silenciosa.
“Essa é a Bete, meu pano de chão”, disse Cazuza ao me apresentar à personagem real da música, entre outros comentários impublicáveis.
Depois dos devidos ajustes para o show, o papo rolou solto e divertido.
Perfeito Fortuna, o criador do Circo Voador e integrante do grupo de teatro Asdrúbal Trouxe o Trombone, nos deu a honra de apresentar o show. Já nos conhecíamos de Floripa.
“Quero apresentar pra vocês esses filhos da puta que vieram de Floripa. Um bando de filhos da puta que eu conheci lá mesmo em Floripa. Olha a cara desses filhos da puta… vamos ver se eles sabem tocar… Com vocês, os filhos da puta de Floripa: Decalcomania.”
Obrigado, Perfeito!
Cazuza e Murillo
Durante a nossa apresentação, eu olhava pra plateia e via o Cazuza vidrado no palco. Em um minuto, olhava pra trás e lá estava ele nas coxias, cena que se repetiu algumas vezes até o fim do show.
Pensei: Acho que ele tá gostando!
Quando descemos para o camarim, Cazuza, esfuziante, se atira no pescoço do vocalista, gritando “ele é mais bonito do que eu”, rolando pelo chão abraçado no Iran.
Nessa hora eu tive a certeza de que tinha gostado. Que felicidade!
Saímos do Circo em comboio para a casa de um amigo na Tijuca. Fui de carona no carro dele, um Fiat Panorama novinho. No trajeto, ele ia cantando “Pro Dia Nascer Feliz” com metade do corpo pra fora. Eu estava sonhando! Foi uma longa noite regada a muita cerveja, steinhaeger e falatório (até com a minha mãe ele falou no telefone). Ele dominava a cena com sua retórica, ideias e opiniões. Só ele falava e falava de tudo. Do Papa, de Aids, que tinha levado recentemente o seu amigo Lauro Corona, e até das calças fuseau que usava nos shows para provocar meninas e meninos. Algumas vezes, era áspero e conclusivo em suas opiniões e não media esforços para impor a sua verdade.
Em um dado momento, me confidenciou:
“Fiquei no show só pra falar mal de vocês, mas acabei me apaixonando.”
A noite acabou no Real Astoria, seu QG no Baixo Leblon.
Fez mil promessas de nos “apadrinhar”.
“Vou apresentar vocês pro Caetano, Lobão, pra todo mundo.”
Mentiras sinceras me interessavam
Brincadeiras à parte, hoje entendo que não eram mentiras. Faltou tempo e até perseverança de nossa parte e, como diz a música, o Tempo Não Para.
Em Florianópolis, naquele mesmo encontro citado, era perceptível sua insatisfação, fato que estava influenciando e decidindo o seu futuro no Barão Vermelho. Arrisco dizer que sua saída da banda foi sacramentada por aqui. Ainda acompanhei alguns shows onde os palavrões eram fartos e sua irritação era predominante. Compreensível que ele estivesse pensando em seguir carreira solo. Estatura e qualidade artística eram inegáveis.
O Decalcomania tocou também no encerramento da turnê “Maior Abandonado”, no mesmo Circo Voador. Mantivemos contato, mas ele logo adoeceu e entrou num rolo compressor emocional onde todas as forças foram direcionadas para a cura da doença, até então misteriosa.
Cazuza era intensidade e exagero. Podia ser doce como em “Codinome Beija Flor” e áspero quando escrevia para os miseráveis em “Blues da Piedade”. Provocativo ao afirmar que “Amar é abanar o rabo, lamber e dar a pata” e pura poesia em “Todo o Amor que Houver Nessa Vida”.
A Verdade é que sua obra nos deixa alertas para a tradução da complexidade do ser humano, suas angústias, prazeres erros e acertos.
Curiosamente, quando decidi escrever sobre Cazuza, abri o Instagram e vi um reel do Frejat, seu parceiro de vida e música, que fez todo o sentido. No post, Frejat fala do orgulho que sente quando as pessoas comentam:
“Cara, você conheceu o Cazuza!”
Ele responde: “Conheci sim! Eu tive esse privilégio, mas é uma coisa que não pode ser explicada e sim vivida.”
N. E. As imagens são do arquivo pessoal do Colunista


