Publicidade
Deixem as bets em paz: a culpa é da Bete
08 de Agosto de 2025

Deixem as bets em paz: a culpa é da Bete

O fim insólito da CPI das bets concluiu o óbvio: a culpa não é dos influenciadores, mas dos influenciados!

Por Jean Caristina 08 de Agosto de 2025 | Atualizado 08 de Agosto de 2025

Imagem: Anna TolipovaFreepik

Publicidade

 

O circo foi montado: de um lado, senadores ávidos por 5 minutos de exposição; do outro, influenciadores que receberam uma fábula para serem garotos-propaganda de um dos trocentos sites de apostas que surgiram no país.

Em meio a tudo isso, um paupérrimo debate sobre a real “influência dos influenciadores” e qual a relação deles sobre as perdas dos apostadores.

Comecemos pelo óbvio: ninguém nunca ficou rico jogando em casinos, e nem ficará. A mesa sempre vence no final das contas. Nas apostas esportivas também não há vencedores. Há apostadores. O único vencedor é o site de apostas. Não há dinheiro mágico produzido pelas bets. Há quem aposte X e quem aposte Y. Ao final, X ficará com o dinheiro de Y ou vice-versa. E quem ganha sempre, independentemente de X ou Y saírem vencedores: o site.

Em síntese, o apostador sempre perderá no final, mesmo que ele tenha uma ou outra vitória pontual.

Sobre a influência dos influenciadores, precisamos tergiversar para não correr o risco de sermos hipócritas: há influenciadores divulgando tudo quanto é produto!

E o erro não está aí.

Sinceramente, pouco me importa se quem divulga determinado produto é o influenciador José ou João. Se eu preciso dele eu compro. Se não preciso, não compro. Tenho discernimento suficiente para saber que o que move minhas compras não é quem divulga, mas a minha necessidade e o seu preço.

Mas nem todos possuem este nível de discernimento e acabam sendo realmente influenciados. Até aí, faz parte da publicidade influenciar as pessoas. Afinal, se todos fossem imunes à publicidade o sistema simplesmente estaria arruinado.

As pessoas que são influenciadas e acabam aderindo a um determinado produto são as verdadeiras responsáveis, ninguém mais. As marcas investem, as agências produzem, os influenciadores influenciam e os consumidores aderem. É simples assim. Ninguém jamais obrigou alguém a sentar-se à mesa de um bar para tomar uma cerveja que foi anunciada por um jogador de futebol; nem a comprar um carro e endividar-se porque foi divulgado por um famosinho; nem a apostar sua aposentadoria ou seu benefício previdenciário por que um ex-narrador global anunciou. Quem aperta o botão no final das contas é quem consome, livre e conscientemente.

Então, onde está o problema?

O problema não é da Bet, mas da Bete. Bete é o nome fictício da minha professora de fisica do ensino médio. Ela era péssima, assim como a Bete, da Matemática, e o Beto, da Português. Todos eles, professores antigos e antiquados do ensino público, me ensinaram tão pouco que nem sei o que, de fato, me ensinaram. Lembro que a Bete, a de Fisica, falhava tão grandemente em explicar qual a importância da matéria em nossas vidas, que só caí na real quando fiz o cursinho preparatório para o vestibular e entendi, finalmente, coisas simples como calcular a velocidade ou a medida de alguma coisa.

A maior parte dos nossos problemas, enquanto país e sociedade, está no déficit educacional que falha em sua missão transformadora do adolescente. Os motivos são tantos que valeria outro artigo. Mas só para não dizer que não falamos das flores: preparação precária dos professores, baixos salários, políticas públicas confusas, grade curricular defasada, infestação política nos órgãos técnicos etc.

É ali, na formação do jovem, sob o comando da Bete e de outras Betes, que se formam jovens capazes de compreender a lógica, de desenvolver raciocínio e de fazer conexões entre o mundo real e a fantasia.

A Virgínia Fonseca não é a culpada, tampouco os novos investigados, agora do bendito jogo do Tigrinho (vejam só, um tigrinho!). Todos são apenas a síntese de um sistema que não forma, não educa, mas que no fim da cadeia produtiva cobra, esperando que o indivíduo possa ter outras atitudes para além daquelas para as quais a falta de educação formal e informal o “prepararam”. Vender esperança, sonho, conquistas e sucesso é historicamente inerente à publicidade. Acreditar, é obrigação do consumidor.

Portanto, acho que devemos deixar as Virginias em paz, assim como as bets, pois ao final das contas as Betes parecem ser mais responsáveis pela formação de cidadãos menos crentes e mais conscientes, menos apostadores e mais investidores.

WhatsApp
Junte-se a nós no WhatsApp para ficar por dentro das últimas novidades! Entre no grupo

Ao entrar neste grupo do WhatsApp, você concorda com os termos e política de privacidade aplicáveis.

    Newsletter