Ainda sensibilizado pelo linchamento do cão Orelha permito-me avançar no debate que se instalou no país e emitir simples análise sobre o ocorrido.
Para começar é importante que se afirme que a banalização da violência em terras Tupiniquins faz com que tudo que acontece passe a ser visto como normal.
Da corrupção que atinge os mais altos níveis dos cargos públicos à morte de jovens conhecidos, nos meios do crime, como aviões do tráfico, tudo é motivo de comentários pontuais e esquecimento. De um país que aceita como normal o assassinato de mais de 34 mil pessoas por ano (dados de 2025), que convive com feminicídios diários (quase 1.500 em 2023), que considera como normal o roubo de quase 1 milhão de celulares (dados de 2024), que normaliza a ocorrência de estupros (mais de 87 mil em 2024), o que se pode esperar em relação aos animais?
A sensibilização e mobilização que ocorreu, após virem a público os fatos que originaram a eutanásia do pobre animal, deve ser creditada à brutalidade de um grupo de jovens que, talvez, o tenha feito simplesmente como forma de diversão. Importante deixar claro que esta não é uma ocorrência isolada; dados divulgados pela JPan em seus jornais informam que são três agressões diárias a cães e gatos em São Paulo e que, no ano passado, foram mais de 4 mil casos de violência a animais. Imaginem o que ocorre por todo o país! Triste é saber que esta violência está lastreada na essência do brasileiro e na impunidade.
Voltando aos jovens protagonistas da barbárie da praia Mole. Serão eles exemplo da formação que têm recebido ao longo de suas curtas vidas? Quase sempre pais ausentes e permissivos, que entendem que à juventude tudo é permitido; que a boa formação está disponível nas escolas em que estudam e que o dinheiro compra tudo até a formação do cidadão. Esquecem-se, estes pais, que uma sociedade permissiva conduzirá o país ao desastre social, a perda de valores e a banalização de tudo. Orelha é apenas um caso entre a violência cometidas por jovens
Vale a pena lembrar parte da mensagem expressa por Bill Gates ao participar, como paraninfo, da formatura de uma das tantas turmas em que é convidado, Diz ele: a vida não é fácil, ela pode ser muito cruel; o mundo não está preocupado com sua autoestima; você não será chefe de nada ao sair da escola; você acha seu professor rude? Espere até ter um chefe; trabalhar nas férias não o diminuirá socialmente. Seus avós chamavam isto de dignidade; seus pais pagam suas contas, lavam suas roupas e você os chama de ridículos; a vida não perdoa. Seus erros serão pagos por você. Importante que os pais entendam que é fundamental ensinar crianças a lidar com as frustrações.
Por quanto tempo durará a mobilização provocada pela morte do Orelha? Só o tempo dirá; a punição aos infratores deverá ser apenas simbólica, pois será baseada no Estatuto da Criança e do Adolescente. Enquanto países tratam menores com o rigor da lei em função de crimes cometidos, em Terra Brasilis continuaremos tratando estes casos como próprios dos arroubos da juventude, como atos infracionais de crianças mimadas e que, apesar de terem tudo, não têm o que é essencial em qualquer ser humano; dignidade e caráter.
Há uma frase de Lima Barreto, dita no início do século XX, que mostra o retrato de uma época que pouco mudou; “O Brasil não tem povo, tem público. Povo luta por seus direitos, público só assiste de camarote.” Que as mobilizações pelo Orelha galvanizem a sociedade e, seja o início de um novo modo de cobrar ação de quem detém o poder.
Foto de Ye Jinghan na Unsplash
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