Estamos ainda em 1958. Depois de três anos como entrevistador em pesquisas de opinião, eu alcançava meu primeiro emprego com carteira assinada, na Emass, representante comercial das Emissoras Associadas em São Paulo. Minha tarefa era encontrar e assinalar, numa pilha de jornais de todo o país, notícias espontâneas sobre programas de rádio, que eram encaminhadas para os respectivos patrocinadores. Aí recebi um desafio: redigir a mensagem que capeava o comprovante. Fazer melhor do que era o padrão não foi difícil, até porque escrever era meu exercício permanente e meu texto foi oficializado. Eu já me considerava iniciante em redação publicitária…
Numa tarde, fui chamado por Moreira, meu chefe, para reunião na sala do diretor, Humberto Gargiulo. O assunto era o seguinte: em Porto Alegre as emissoras do Grupo eram a Rádio Farroupilha e Rádio Difusora. A Farroupilha, que hoje é da RBS, tinha grande importância não apenas pela liderança local como pela penetração nos países vizinhos e enfrentava dura concorrência imposta pela Rádio Gaúcha. Em 1957 havia sido inaugurada a Guaíba, uma das marcas mais fortes do rádio brasileiro. As vendas em São Paulo eram, pois, de fundamental importância e estávamos precisando de dados de audiência para embasar as propostas para anunciantes. O plano era realizar uma pesquisa própria e Moreira foi direto ao ponto:
“Você tem experiência, acha que pode preparar uma pesquisa para aplicarmos lá?”
Era meu segundo desafio. As instruções de Valentim Blois na ENOP estavam surtindo efeito – uma oportunidade inesperada, baseada na assunção de que eu estava pronto para tarefa muito maior do que encontrar pequenas notícias em jornais.
“Dá sim, precisamos construir um briefing, determinar a amostra válida e desenhar o questionário. Depois é aplicar com pessoal local e mandar tudo para tabularmos aqui”.
“Não, não. Vamos os dois para Porto Alegre e você coordena tudo lá mesmo”.
Minha primeira viagem de avião, num Curtiss Comander, equipamento que fora utilizado como transporte militar durante a Segunda Guerra Mundial e no Brasil era operado pela Varig e Sadia. Pela janelinha sobre a asa, além da esperada emoção pela primeira vista aérea, a visão dos arrebites que ameaçavam saltar com a trepidação… Ou era ilusão de ótica?
Em Porto Alegre tivemos magnífica recepção, com direito inclusive a churrasco na companhia do senador João Calmón, dirigente do Grupo. Fomos acomodados em uma sala na Rua da Praia, ou Rua dos Andradas, a mais famosa da capital gaúcha, que apresentava uma condição extra de grande valor: logo abaixo, no primeiro andar, localizava-se um bar cujo dono, que trazia anos de experiência num transatlântico, dava show no manuseio de garrafas e copos que eu, respeitosamente, ia apreciar depois das seis.
Realizar a pesquisa foi bem mais fácil do que eu esperava. Acertado o briefing com a diretoria da rádio, montei o questionário; com ajuda dos amigos da ENOP defini a amostra; contratamos cinco jovens e fomos a campo. Ao fim de uma semana a pesquisa estava pronta e tabulada, a caminho de São Paulo, onde foi utilizada como ferramenta valiosa.
Despedimo-nos do barman com um último coquetel e da equipe gaúcha com mais um churrasco.
Estava chegando ao fim minha curta passagem pelo rádio. Plínio Toni continuava a monitorar minha incipiente carreira, como contarei na próxima coluna. Espero você lá.
