Vista sob a perspectiva histórica, pode parecer trivial, mas imagine o que significou a entrada em Irmãos Lever Brasil, no Grupo Unilever, um dos maiores do mundo, para um garoto de 22 anos que, em pouco mais de um ano já havia pulado de um instituto de pesquisas para uma representante comercial de rádio e uma agência de publicidade. Meu Deus! Era muito.
A gestão da empresa era dividida entre executivos com grande vivência internacional e os que estavam sendo preparados para substituí-los. O presidente era Clive Van den Bergh. Para entender melhor o que isso significa, é preciso saber que a Unilever é formada por Unilever NV, com base em Rotterdam e Unilever plc., sediada em Londres. A história da NV começa em 1872, quando Anton Jurgens fundou na Holanda a primeira fábrica de margarina do mundo. Dez anos depois, Samuel Van den Bergh abriu sua fábrica e mais tarde as duas vieram a se fundir, formando a Margarine Unie que, muito depois, em fusão com a Lever de Londres formou a Unilever. Ou seja, nosso presidente era nada menos que descendente direto dos fundadores, o que lhe conferia certa mística.
Clive Van den Bergh, apesar da origem holandesa, nascera na Inglaterra e era o protótipo do que se espera de um inglês: suave na aparência e na fala liderava seus subordinados e dirigia com determinação os negócios da empresa. Trazia sempre um lenço sob o punho da manga e exalava um discreto perfume, provavelmente English Lavander de Atkinsons, que fazia parte do grupo.
Apesar de sua calma e urbanidade, atemorizava um pouco pelo nome e pelo cargo. Cito duas passagens que confirmam isso: pediu à sua secretária um copo de água, mas tanto ela como a copeira estavam envolvidas em alguma coisa e o office boy foi encarregado de levar a bandeja. O presidente tomou meio copo, como manda a etiqueta, e estendeu-o para o boy levar de volta, dizendo “tome”. O garoto não titubeou, bebeu o resto e saiu. Em outra oportunidade, visitando uma cidade do nordeste, foi convidado a almoçar na casa do supervisor local. Todos sentados à mesa, só homens, enquanto as criadas serviam, a esposa do dono da casa ficou atrás do convidado de honra com um grande abano que agitava para amenizar o calor. O presidente levantou-se, puxou uma cadeira e fez a senhora sentar-se ao seu lado para participar do almoço e de um improvável diálogo, dado que mal compreendia e falava o português. Risos francos dos que viajavam com ele e amarelos dos locais.
Em São Paulo o casal Van den Bergh morava num apartamento muito confortável e discreto na Consolação, onde pelo menos uma vez por ano recebia os executivos da empresa para um jantar, sempre com muita classe e calor humano.
Esclareço que a Lever mantinha um plano de carreira com faixas classificadas por numeração, que ia até o nível 25. Convites para esses e outros eventos semelhantes começavam pelo 21, ao qual, fiquei sabendo depois, eu pertencia.
De volta para a Inglaterra para ocupar alto cargo na cúpula, foi morar num subúrbio de Londres, de onde ia de trem todos os dias, numa viagem de meia hora, em direção aos escritórios em Blackfriers. Muito diferente do Mercedes e motorista que o transportavam em São Paulo.
Em 1965 eu estava frequentando um curso de formação de executivos em Four Acres e recebi com enorme satisfação um convite (escrito, obviamente, num cartão pessoal, afinal estávamos na Inglaterra) para passar o domingo com os Van den Bergh. Os colegas, surpresos com a deferência, me cumprimentavam, alguns com certo olhar de inveja…
Seu genro foi me buscar e fomos primeiro a Eaton, onde havia estudado, proporcionando um tour pelo impressionante local e comentários sobre as tradições como, por exemplo, porque os alunos usavam preto – é que, seguindo a tradição, quando foram avisar que o rei havia morrido, todos deviam usar luto até que voltassem a informar que havia um novo rei; como, numa falha inexplicável, nunca ninguém voltou, eles continuavam a usar preto. Também no passado, havia acontecido um grave acidente num desmoronamento em um dos caminhos do campus, com a morte de um aluno – centenas de anos depois, eles desviavam daquele trecho fatídico. Histórias como estas, que parecem até inverossímeis, só podem ser entendidas por quem vivenciou o espírito inglês como o fiz por dez anos.
Clive Van den Bergh era um legítimo inglês, mas os vários anos que havia passado Brasil o ligaram muito à nossa cultura e forma de viver. Tanto que, quando chegamos à sua casa, ele me recebeu à porta e entramos para o que ele denominava “sala Brasil”, equipada com toda a mobília e decoração que tinha na sala de estar de seu apartamento em São Paulo. “Para matar saudades” ele disse.
Como não se deixar conquistar por atitudes como estas? Clive Van den Bergh, em seu processo de liderança, incutia em seus principais colaboradores um insuperável traço de humanidade.
Na próxima coluna, um cavaleiro do reino. Espero por você.
