Publicidade
Coluna do Luís Augusto Zillmer Cardoso | O culto à personalidade de um salvador da pátria
08 de Março de 2016

Coluna do Luís Augusto Zillmer Cardoso | O culto à personalidade de um salvador da pátria

Sempre acreditei que todas as pessoas possuem determinadas qualidades dignas de reconhecimento, mas jamais apostei na perfeição de um sujeito que se diz detentor de todas as virtudes. Bocejo toda vez que um indivíduo mancha sua biografia com o culto à própria personalidade, exaltando seus mais nobres valores imaginários para se colocar acima do bem e do mal, em uma posição de semideus fruto de meia dúzia de milagres. Penso que isso se deva muito mais à própria falta de senso crítico, para não dizer até de uma certa vergonha, para se impor aos outros pela dominação do falso heroísmo e o oportunismo da desinformação.

Tenho mais convicção na definição do filósofo Voltaire, de que errar é humano e estamos o tempo todo cometendo erros, do que na auto promoção exagerada de um salvador da pátria. A crença medíocre de que um indivíduo seja capaz de possuir o dom de ser melhor do que todos os outros sempre serviu de argumento para a concentração e perpetuação de projetos de poder. Nesta história, aqueles que atentam contra as ideias do grande líder sempre são taxados de inimigos que fazem o jogo dos opositores e que, portanto, devem ser combatidos no campo das ideias ou até mesmo da luta armada com o emprego da violência.

Publicidade

Esse ser moral superior sempre se apropria de certas regras de manipulação para se elevar dos demais. Em geral, costuma adotar um inimigo único, uma figura intangível e simplificada ao extremo, responsável por todas as mazelas da sociedade e que deve ser combatida. A figura do inimigo concentra todos aqueles que não concordam com suas ideias. Aos inimigos são atribuídos os próprios erros para evitar qualquer questionamento de sua perfeição. As mentiras se tornam exageradas e desfiguradas da realidade, usando de uma linguagem pobre e vulgar para se atingir as mentes menos instruídas.

A mentira do culto à personalidade precisa ser repetida à exaustão para que se estabeleça como uma verdade. As palavras ganham conotações diferentes de seus verdadeiros significados a fim de permitir as explicações necessárias de eventuais fragilidades de personalidade. Quando não se tem respostas para estas questões, é preciso silenciar ou acentuar as qualidades de que ele não dispõe. Para ganhar a adesão de simpatizantes e admiradores, difunde-se argumentos que possam arraigar em atitudes primitivas baseado em complexos e ódios tradicionais. Tudo isso com uma falsa impressão de apoio unânime.

A auto bajulação costuma seguir ao decálogo de manipulação escrito nas décadas de 1930 e 1940 e utilizado para conquistar as multidões. Afinal, é no seio do povo desprovido de segurança e de esperança que se criam estes seres mitológicos e salvadores da pátria. A idolatria se torna passiva para as multidões e se conserva nas mãos daqueles que detêm o poder. Como bem definiu o economista e filósofo norte-americano Thomas Sowell: “O fato de que muitos políticos de sucesso são mentirosos, não é exclusivamente da classe política, é também um reflexo do eleitorado. Quando as pessoas querem o impossível, somente os mentirosos são capazes de satisfazê-las”.

 

WhatsApp
Junte-se a nós no WhatsApp para ficar por dentro das últimas novidades! Entre no grupo

Ao entrar neste grupo do WhatsApp, você concorda com os termos e política de privacidade aplicáveis.

    Newsletter