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Coluna da Tônia Andrea Horbatiuk Dutra | Valores em crise
17 de Março de 2016

Coluna da Tônia Andrea Horbatiuk Dutra | Valores em crise

Que estamos vivendo tempos nada dóceis é fácil constatar – crise econômica que se mescla com a crise política no cenário nacional, confrontos, terrorismo e guerra no espaço pouco que habitamos, neste planeta único. A gravidade das ameaças que se colocam neste momento não deixa dúvidas quanto à urgência de nos questionarmos sobre as razões e os valores que transparecem em meio às tormentas.

Parece mesmo que a humanidade já esqueceu dos horrores da 2ª Guerra Mundial, em toda sua crueza e insensatez, que deveria nos envergonhar a todos sem limites ou exceções.Ou será que a cultura midiática nos tornou imunes ao sofrimento alheio, que o show business nos confundiu a tal ponto de apreciarmos  as cenas de catástrofe e violência como se de entretenimento se tratasse. 

Não anda longe a violência que nos transmite a TV, os escândalos que tumultuam as redes sociais, as secas e enchentes que estampam as capas dos jornais. Elas não são retóricas, tampouco anedóticas.Acontecem nas nossas cidades – que padecem de boa representação política, de serviços públicos eficientes, que refletem a pouca ou nenhuma preocupação com a educação e se contentam com soluções aparentes, sempre as mais rápidas e fáceis, como alguns metros de asfalto ou ampliação do número de celas nas penitenciárias.

É inevitável constatar que as crises que nos atingem externamente também refletem nas nossas ideias, interferem nos valores que socialmente estabelecemos como prioritários e fundamentais. É nesse âmbito, porém, que reside o maior perigo.

Quando elegemos a Liberdade– de pensamento, de expressão, de crenças, de ir e vir, sem interferir no direito alheio –como direito fundamental, foi para que pudesse ser exercida e respeitada por todos plenamente.Quando defendemos um Estado Democrático, após um amargo e longo período de ditadura, foi por sabermos quão sofrido foi limitar nossa palavra, nosso gesto, nossa voz, o nosso livre exercício da cidadania.Quando redigimos (nós o povo brasileiro)a Constituição Federal, foi por confiar no Direito e na Justiça, por pretender fazer valer pela letra da lei a Igualdade.Quando afirmamos a Fraternidade como valor supremoda sociedade brasileira, há de ter sido pelo real sentimento de que nos irmanamos em nosso destino,entendendoque é preciso andar juntos para fazer valer o nosso estatuto humanitário.

É penoso perceber, apesar da eloquência da nossa ordem constitucional, que as amarras da democracia andam frouxas.Que a liberdade de uns se pretende maior que a de outros.Que se busque fazer justiça com as próprias mãos.Que a igualdade e a fraternidade não nos apareçam senão como um sonho remoto.

São tempos difíceis, perturbadores. É nesse momento crítico que surge o fantasma das lideranças messiânicas, a fomentar a dicotomia e dar vazão a ideias abomináveis, que podem fazer cair por terra um esforço de décadas pela construção de um ideário pelos Direitos Humanos, pela Justiça e pela Democracia.Podemos ver se instaurar, subrepticiamente, uma crise de valores –onde “tudo que era espúrio passou a ser moralidade”[1].

Por isso tudo é preciso ter sempre em mente que a barbárie habita o ser humano, que a construção coletiva das Instituições Democráticas não se deu sem custo e que a sociedade não está imuneà desfaçatez e às péssimas práticas do legislador oportunista e mal-intencionado.Defendê-las é a nossa única e legítima arma contra todo ato deletério ou intenção espúria.

 

 

                                                                                  


[1]FERNANDES, Millôr. Poesia matemática.

http://www.releituras.com/millor_poesia.asp

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