Assim como o Artur Mantelli Filho, que destaquei aqui, na Coluna de terça-feira, como Viviane Oliveira de Araújo e Irani Aparecida Castro, as ciclistas que entrevistei na Coluna de ontem, o mundialmente famoso Andrea Bocelli também conhece a dupla realidade, de quem enxergava e perdeu a visão. Aos 12 anos, atingido pela bola num jogo de futebol, o cantor precoce, que já detinha baixa visão, passou a integrar o time de quem não vê cor, só coração.
Colecionando prêmios como o Festival de San Remo, BRIT Awards e Grammy, cantando para autoridades mundiais como o presidente Bill Clinton, dos Estados Unidos, e a Rainha Elizabeth II, do Reino Unido, e cantando em dueto com celebridades como Ed Sheeran e Celine Dion, Andrea Bocelli contou com um brasileiro nos bastidores de seu show em Istambul, capital da Turquia.
Fotógrafo em trânsito entre o Brasil e a Suíça, Gabriel Bonfim foi escalado para fotografar o cantor, em família, ao piano, ao microfone. E da frustração de não poder mostrar ao mais ilustre cliente o resultado do trabalho, surgiu o anseio de tornar as fotografias impressas uma arte tridimensional. Com contribuições do próprio cantor, Gabriel passou a aprimorar uma técnica para que, pelo tato, as fotos esculpidas fossem “vistas” pelos cegos, sem a necessidade de intermediários traduzindo a arte em questão.
Em cartaz no Museu Histórico de Santa Catarina, junto ao Palácio Cruz e Sousa, a exposição “A arte de Gabriel Bonfim: de Fotografia à Tactography” pode ser visitada até o dia 28 de julho. Eu conversei com ele na data da vernissage – recebida ao som de Caruso, um clássico na voz de Bocelli –, para entender melhor este processo de impressão com volume, a estereolitografia, e para ver de perto a reação de quem foi ver, com as mãos, os retratos do cantor italiano e do bailarino Denis Vieira.
Baseado em alta tecnologia, o processo começa com a fotografia original escaneada em 3D em várias etapas. Depois de passar pela impressora STL e laser ultravioleta, a resina é solidificada em camadas consecutivas, até atingir as proporções adequadas para receber a cobertura em spray branco. Cada dimensão é obstinadamente calculada, para que a imagem em relevo seja totalmente fiel ao retrato original. Mas apesar de todo o zelo no processo, a barreira da visão segue evidente.
Eu conversei com o Diego, bailarino convidado para a performance de abertura, e com o Diretor de atendimento especializado da ACIC, Claudionor Rosa, ambos gratos e felizes pela oportunidade que a mostra representa para os cegos. Sem compreender exatamente os contornos, em especial as manobras aéreas do bailarino brasileiro com carreira mundial, ambos comemoraram a chance de “ver” a arte do movimento, apesar do esforço imposto à imaginação para distinguir as formas nos quadros. “Estamos aprendendo”, foi a reação, talvez até previsível, de quem aprende e se adapta todos os dias. Na minha conversa com Gabriel Bonfim, ele fala mais sobre a técnica e a motivação para tornar as fotos tácteis.
Amanhã, aqui na Coluna, conheça o projeto Releituras, que dá aos contos versão de rádio-novela, promovendo a inserção de cegos no universo da literatura.
Para compreender a série Por mais lugar à luz, tem um texto de apresentação neste link aqui.
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