Coluna Ana Lavratti: Por mais lugar à luz – parte 2

18 de Junho de 2019

Nesta série sobre os cegos, apresento a ACIC, associação que hoje chega aos 42 anos

A perda total da visão não impede Artur Mantelli Filho de levar uma vida ativa, praticando diferentes esportes

 

Foi numa fração de instante, feito um piscar de olhos, que a vida de Artur se dividiu. Até levar uma bolada nas areias de Santos, deslocando a retina em pleno jogo de futebol, Artur via a vida com nitidez. No berço via a filhinha, nascida há menos de um mês. No campo, o adversário. Na calçada, cada inimigo: vasos, lixeiras, o poste e o orelhão. Mas naquele 28 de abril de 1980 ficou claro que a vida perdia a luz.

Menos de uma semana depois, Artur deixou de enxergar. Em cada função da vida, precisou se adaptar. Voltou a estudar a distância. Aprendeu artesanato, tapeçaria, a cozinhar e passar roupa, contornando qualquer percalço por não ver a manga (fruta) nem a manga da camisa. E das muitas tentativas de profissionalização, elegeu a massagem para manter-se produtivo e independente. “Eu fui superando, superando, superando, superando. Se fechassem a porta eu arrombava”, me disse o Artur, lá longe em 2002, quando tive o prazer de conhecê-lo, ao escrever o livro “Seus olhos, depoimentos de quem não vê como você nunca viu”.

Desde então, já recorri ao Artur algumas vezes, pelo exemplo de eficiência de um deficiente visual. Nas escolas, conversando com alunos no Ensino Fundamental, Artur surpreende pela segurança, a facilidade com que se locomove – ainda que acredite que um cego de nascença se localiza melhor no espaço –, pela disposição para aventuras, incluindo excursões de bike fora do Brasil, e pelo total vínculo com o esporte, de onde extrai amigos, saúde e disposição.

 

Como Diretor de Esportes da ACIC, cargo que ocupou por muitos anos, Secretário-geral da Associação Brasileira de Esportes para Cegos, o que o levou a organizar campeonatos Brasil afora, e atual Diretor de Cultura, Esporte e Lazer da ACIC, compondo a gestão de Henrique Sales Rosica, Artur comemora as oportunidades que a entidade traz, não apenas para a educação, a arte, a profissionalização e o esporte, mas principalmente pelo convívio entre iguais, capazes de se ajudar pelo mero compartilhamento de problemas e soluções.

Entre as surpresas da minha visita à Associação, conheci, por exemplo, a quadra adaptada para pebolim humano, em que os jogadores ocupam lugar delimitado, atentos à bola barulhenta junto às faixas que dividem os times, e o pingue-pongue “customizado” pela professora Isabel Cristina de Araújo Nunes, que para dispensar gandula e atrair mais praticantes, mudou as regras do jogo: com a bola de futebol infantil passando por baixo da rede.

 

Entre o tapume e a sala de dança improvisada, em plena musculação, também vi de perto a força de Fernando Rocha de Carvalho, aluno de jiu jitsu com baixa visão, e a leveza de Eva, que mais parece flutuar. Aos 39 anos, com as pálpebras inquietas, que se abrem e se fecham feito asas no decolar, Eva Pereira dispõe de menos de 10% de uma visão comum, o que não a impede de nos presentear com a perfeita visão de mulher em estado de graça.

Para a professora, Mara Cordeiro, a dança contemporânea inclusiva tem justamente este propósito, de permitir que cada aluno à sua maneira, de improviso, descubra suas próprias possibilidades de movimento. Com a expertise de quem já dançou no palco do Teatro Pedro Ivo com menos de um ano de aula, Eva pensa em cursar Educação Física. Mas sem deixar de dançar, o que sempre quis fazer, e o que faz como se dançasse, sempre, desde sempre.

 

Aberta há exatamente 42 anos, a ACIC é hoje uma associação de referência para a integração do cego. Ciceroneada pelo Artur Mantelli Filho, fui até ali conversar sobre as principais barreiras que um cego enfrenta, as aventuras de Artur na terra e no mar – integrando excursões de bike pelo exterior –, e a vida ativa que ele mantém aos 62 anos, como atleta, profissional, pai de família e no associativismo.

 

 

Aos patrocinadores dos projetos da ACIC, em especial o espetáculo de dança anual, a Associação oferece como contrapartida quatro atividades dentro das próprias empresas: assessoria sobre acessibilidade, palestras sobre a inclusão no mundo do trabalho, oficinas de integração para inserção social e apresentações culturais. Quer ver de perto o trabalho da ACIC? Aproveite os eventos de aniversário da Associação na Rodovia Virgílio Várzea, 1.300, bairro Saco Grande, fone: (48) 3261-4500.

 

 

Para ler o primeiro capítulo da série Por mais lugar à luz, publicada na Coluna desta segunda, 17 de junho, é só clicar aqui.

 

Clique nas fotos de Ana Lavratti para acionar o slideshow e ampliar as imagens da Galeria.

 

 

Fernando Rocha de Carvalho, de baixa visão, pratica jiu jitsu
Fernando de Carvalho, de baixa visão, pratica jiu jitsu

Ana Lavratti

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    Ana Lavratti é Jornalista e Mestra pela UFSC com pesquisa sobre a Notícia em Meio Digital Online. Multiplataforma, acumula experiência em mídia impressa, eletrônica e assessoria de comunicação. Também é escritora, autora de 3 livros e 3 e-books, e atua como colunista social desde 2014. www.analavratti.com.br / social@analavratti.com.br Curta o Instagram @analavratti