Vamos falar a real: Mark Zuckerberg não anunciou a suspensão dos algoritmos de checagem de fatos por ser amante da democracia ou por apoiar Donald Trump.
Quem acreditou nisso está redondamente enganado!
O dono da Meta, proprietária do Instagram, Facebook, Threads e WhastApp, tomou tal decisão por dois grandes motivos:
a) A Meta é uma empresa e ela precisa ser lucrativa
As empresas que compõem o conglomerado devem pensar em lucro. Paremos de romantizar o que elas de fato são. O WhatsApp, por exemplo, que se tornou absolutamente necessário na vida de todos os humanos sobre a terra, é um negócio. Se a Meta quiser, ela pode simplesmente desligá-lo e parar de oferecer tal “serviço”.
A finalidade do grupo nunca foi, e jamais deveria ter sido, a de ser um instrumento a serviço do bem e da verdade. Uma empresa com claros interesses comerciais não pode ser tribunal arbitral de conteúdos, digamos, duvidosos. A decisão de Zuckerberg, que o fazia parecer meio bobinho, já não precisa mais acontecer. Zuckerberg já não é mais aquele menino com eterna carinha de adolescente, que queria ter um portal em que pessoas pudessem se conhecer, fazer amigos e curtir as baboseiras joviais uns dos outros.
Quantos milhões de dólares a Meta deixou de ganhar por simplesmente vetar certos conteúdos? E quanto de engajamento foi perdido por que a Meta quis parecer boazinha? Lembremos: a Meta é uma empresa e, como tal, precisa ser lucrativa.
b) a Meta deixa de ser responsável
Se o indivíduo “A” faz uma postagem que acaba sendo censurada pela Meta, a responsabilidade é dela, Meta, que acaba figurando como uma espécie de censuradora. O indivíduo “A”, certamente insatisfeito com a decisão da Meta, ingressa com ação judicial, alega censura, violação ao direito de livre expressão, e ganha.
O Judiciário registra dezenas de milhares de ações no Brasil inteiro, justamente porque a Meta tomou a decisão de proibir determinados conteúdos, simplesmente porque os algoritmos identificaram um “possível problema”. Os autores destas ações pedem indenização e em muitas delas a Meta é condenada. Sem contar o custo de uma operação como esta, contratação de escritórios de advocacia no mundo inteiro, pagamento de altos honorários etc.
A decisão da Meta é, portanto, deixar de ser responsável pelo que é ou não veiculado, estancando a sangria dos processos nos tribunais do mundo todo, de modo que o responsável passe a ser aquele que postou, ou seja, a Meta deixa de ser responsável e passa a ser apenas aquilo para o qual foi criada: uma plataforma de comunicação para as pessoas.
Então, não é pela democracia?
Não, claro que não! Sob a ótica da democracia e da real liberdade de expressão, é muito melhor que as próprias pessoas possam ser censuradoras dos conteúdos, inclusive tecendo comentários para impedir que outras pessoas caiam em erro. É como o Waze, o aplicativo de GPS, que nada mais é do que um ambiente colaborativo, por meio do qual motoristas alertam outros sobre os perigos e problemas do caminho.
Porém, eu duvido que as pessoas em geral tenham condições de discernir o que é verdadeiro e o que é falso. Paciência!
As redes sociais não deveriam assumir este papel jornalístico. Mas o fazem porque boa parte da população não tem acesso a informação e, mesmo quando têm, talvez não consigam saber o que é verdadeiro ou falso. A checagem de fatos não é função das plataformas, e neste aspecto a decisão da Meta é coerente, entregando a responsabilidade pelo conteúdo aos responsáveis por sua postagem.
O problema não é da Meta, é da nossa falta de civismo
Antes que alguém saia culpando a Meta por todas as mazelas comunicacionais da nossa geração, lembremos: o maior mérito do Zuckerberg foi ter feito algo que alguém logo mais faria, ou seja, as redes sociais existiriam de uma forma ou de outra, queiramos ou não.
Vejam nossos jovens. Eles parecem ter uma dependência química curável apenas com a luz do smartphone refletida em seus rostos. E quando nos aproximamos deles para tentar compreender o universo em que estão inseridos, pasme: YouTube, WhatsApp, Instagram, TikTok, Snapchat etc. Sem contar os jogos e infinitos aplicativos, um mais estúpido do que o outro.
A Meta, portanto, não é o problema. Ela é apenas parte de um problema que é bem maior: nossos jovens são zumbis que caminham sem destino algum pelo mundo digital. Não leem, não aprendem, não se aprimoram, enfim, não desenvolvem, a partir do digital, um real e verdadeiro ofício.
Sem estofo cultural, alienados do mundo político e econômico, passam a seguir ídolos digitais (os tais influenciadores), que nem sempre têm objetivos desinteressados, repetindo seus comportamentos e “ideias”. E aí está o perigo: fatos são facilmente desmentidos. Mas como? Com um pouco de bagagem cultural e autonomia informacional. E como é que um jovem que não está no mundo informacional real pode fazer a verificação de fatos? Não faz. E ao não fazer, acaba se tornando vítima das próprias redes (anti)sociais.
Esta ausência cultural e informacional não é apenas um paradigma a ser enfrentado pelos jovens. Outras faixas etárias, outras classes sociais e outros grupos populacionais também vivem a realidade da alienação informacional, tornando-se presas fáceis de fake news.
Sem a checagem por parte das plataformas, todo o trabalho de desmentir, de checar e de investigar fica a cargo das próprias vítimas. Claro que esta tarefa ficará a cargo daqueles que detêm condições de fazer julgamentos mais sensatos acerca dos fatos. Estes, no entanto, em algum momento se cansarão e abrirão mão de continuar fazendo checagem, até porque, a propagação de conteúdos duvidosos é bem maior do que a capacidade das pessoas de checá-los.
Enquanto isso, nos cabe apenas uma reflexão de qual é, de fato, o papel das empresas nesta tarefa de aculturamento social. Particularmente, entendo que não é função do Zuckerberg ou de quem quer que seja ser um censor a serviço da verdade. As plataformas (anti)sociais são o que são: produtos empresariais a serviço do lucro e da rentabilidade. Seu dever social é apenas uma transferência de nossas culpas, enquanto pais, mães e sociedade, que entendemos que aquilo que já não podemos fazer passa a ser ofício de outrem. E não é. Somos responsáveis por gerar conteúdos e informações que preparam o outro para separar civicamente o joio do trigo.
