Para os anúncios das casas de apostas na televisão, a resposta parece ter um novo desfecho. Segundo o empolgado apresentador de uma propaganda da BET, “às vezes você ganha, às vezes você não ganha”.
Ou seja, no universo “fofo e divertido” das BETs, ninguém perde — apenas deixa de ganhar. A sutileza semântica é um exemplo claro de como a linguagem publicitária pode distorcer realidades duras. “Deixar de ganhar” não é sinônimo de perder dinheiro, apenas de não lucrar — e essa diferença importa. Apostadores não estão apenas “deixando de ganhar”, estão perdendo dinheiro, e muitas vezes em grandes quantidades.
A comunicação das casas de apostas, portanto, não só estimula o comportamento de risco, como desafia a inteligência do público, ao sugerir uma suposta neutralidade onde há prejuízo real. Essa forma de comunicar já foi alvo de advertência da Secretaria Nacional do Consumidor (Senacon) e do Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária (Conar), que alertaram que o jogo não pode ser tratado como mero entretenimento ou diversão banal.
Ainda assim, os bilhões de reais movimentados pelas BETs provocam efeitos sistêmicos: entre junho de 2023 e junho de 2024, os brasileiros gastaram aproximadamente R$ 68 bilhões em apostas nas bets, valor que representa cerca de 0,62% do PIB e 0,95% do consumo total no período¹. Esse volume gerou um prejuízo potencial estimado em até R$ 117 bilhões ao comércio brasileiro², enquanto 1,3 milhão de brasileiros entraram em inadimplência por causa das apostas³.
O risco para o consumidor comum é comparável ao dos empréstimos fáceis, do crédito irrestrito e dos cartões distribuídos a quem está endividado: uma promessa de alívio imediato que se transforma em uma armadilha de longo prazo. E, como no caso do crédito abusivo, o “depois” das apostas também pode sair caro — juros não financeiros, mas emocionais, familiares e psicológicos.
Casamentos terminam, relações familiares se rompem e, em casos mais graves, surgem até tentativas de suicídio associadas ao vício em apostas. Uma nota técnica da Fiocruz alerta para o aumento de casos de dependência relacionados a jogos de azar, especialmente entre jovens de 18 a 24 anos — um dos públicos mais visados pelas estratégias publicitárias das casas de apostas.
Enquanto isso, o “descolado” apresentador da propaganda da BET segue sorrindo, substituindo a palavra perder — dura, real, verdadeira — pela versão açucarada de que “às vezes você não ganha”.
Só que, na prática, milhões estão perdendo.
Fontes consultadas
1. CNC / Agência Brasil. Estudo da CNC aponta que bets causam prejuízo bilionário ao comércio: entre junho de 2023 e junho de 2024, brasileiros gastaram R$ 68 bilhões em apostas; prejuízo estimado em até R$ 117 bilhões ao comércio. Disponível em: https://agenciabrasil.ebc.com.br/economia/noticia/2024-09/estudo-da-cnc-aponta-que-bets-causam-prejuizo-bilionario-ao-comercio
2. Agência Cidades. Estudo da CNC estima que bets retiram R$ 117 bilhões do comércio. Disponível em: https://www.agenciacidades.com.br/reportagens/estudo-da-cnc-estima-que-bets-retiram-r-117-bilhoes-do-comercio/454/
3. IstoÉ Dinheiro. Apostas online levaram mais de 1,3 milhão de brasileiros ao endividamento, diz CNC. Disponível em: https://istoedinheiro.com.br/apostas-online-levaram-mais-de-13-milhao-de-brasileiros-ao-endividamento-diz-cnc
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