Imagem produzida pelo colunista com apoio da Chat GPT
São oito da manhã de um domingo qualquer. Aniversário de um grande amigo ou amiga. Você pensa: “tenho o dia inteiro, mais tarde vou postar aquele story caprichado”. O tempo passa. Almoço. Cachorro. Crianças. Parque. Banho. Série. Janta. Já são 22h. O parabéns especial vira uma mensagem no Whats que começa com “antes tarde do que mais tarde”. Ou pior, acaba em um “atrasado, mas de coração” na segunda-feira.
O episódio nada fictício acima é um exemplo revelador da chamada “Lei de Parkinson”.
Em ensaio publicado na revista The Economist em 1955, o historiador e escritor C. Northcote Parkinson sentenciou: “Work expands so as to fill the time available for its completion” (O trabalho expande-se de modo a preencher o tempo disponível para a sua realização).
Embora não tenha uma base científica associada diretamente e, muitas vezes, seja utilizada com algum humor para satirizar a burocracia dominante no dia a dia de pessoas e corporações, a “lei” proposta pelo britânico há mais de 70 anos continua atual e traz reflexões importantes.
1) O tempo altera o comportamento, mas não necessariamente o resultado
A primeira armadilha está justamente na abundância. Quando o prazo parece confortável, a tarefa muda de natureza. Aquilo que poderia ser simples começa a ganhar contornos maiores, mais ambiciosos e, às vezes, desnecessários. O problema é que essa sofisticação nem sempre melhora a entrega. Muitas vezes, apenas aumenta o caminho até ela.
2) O excesso de prazo cria falsa tranquilidade
Quando há tempo demais, a tarefa parece menor do que realmente é. Ela deixa de ocupar a agenda e passa a ocupar apenas uma intenção. Fica ali, aparentemente sob controle, esperando uma janela ideal que raramente chega. O problema é que o tempo disponível não fica vazio. Ele é colonizado por urgências menores, distrações, convites, imprevistos e pequenas decisões domésticas. É assim com o story de aniversário e é assim com entregas estratégicas de grandes empresas. Em muitos casos, ter 30 dias para elaborar um projeto ou ter sete dias não muda tanto a qualidade da entrega quanto imaginamos.
3) A burocracia dá aparência de seriedade
Parkinson não falava apenas da demora individual. Sua crítica mais fina estava nas engrenagens administrativas que transformam o simples em complexo. Uma decisão vira reunião. A reunião vira ata. A ata vira encaminhamento. O encaminhamento vira nova análise. A burocracia tem essa habilidade sedutora de vestir a lentidão com roupa de método. Insegurança não é processo e paralisia não é prudência.
4) O processo maquia a falta de decisão
Em muitas organizações, o excesso de etapas não nasce da busca por qualidade, mas do medo da responsabilidade. Quanto mais gente participa de uma decisão, menos alguém parece responsável por ela. O parecer, o comitê, a nova rodada de validação, tudo protege. Assim, o tempo não é usado para melhorar a entrega, mas para diluir o risco. Trabalhei mais de 20 anos no setor público e usávamos uma máxima interna: “Quando não se quer chegar a lugar algum, basta criar um grupo de trabalho”.
5) Qual a finalidade do tempo gasto?
Talvez a contribuição mais atual de Parkinson esteja na crítica às instituições que perdem clareza sobre sua finalidade. Quando isso acontece, a energia deixa de estar concentrada na entrega e passa a ser consumida pela própria engrenagem. Surgem reuniões para preparar reuniões, relatórios para justificar relatórios, comitês para revisar decisões. A organização segue ocupada, mas já não necessariamente orientada ao que importa. Trabalha muito, sim, mas cada vez mais para dentro. E, nesse movimento, corre o risco de confundir funcionamento com resultado, atividade com relevância, processo com propósito.
Mais do que uma contribuição técnica, a Lei de Parkinson tem o mérito da provocação: afinal, o que estamos fazendo com o nosso tempo? Não há ativo mais valioso do que ele para qualquer profissional ou empresa. Não importa quanto dinheiro esteja na mesa, não se pode comprar. Não importa quanto esforço façamos, não se pode recuperar.
Pense nisso, mas não perca muito tempo só refletindo!

