AcontecendoAqui – Qual o conceito que você tem sobre o Festival de Cannes e sua importância na carreira de um criativo?
Rogério Alves – Cannes é a Copa do Mundo da publicidade. Esse é o conceito que eu tenho sobre o Festival. Alguns festivais são como a Copa das Confederações, outros são a Libertadores da América, tem até uma Champions League aqui ou ali, mas só Cannes tem o poder definir para qual direção a publicidade mundial vai seguir. Hoje, deixou de ser apenas o reflexo do que se faz de melhor em criatividade, e passou a ser uma das molas que impulsionam o nosso negócio. Para um criativo, conquistar um prêmio em Cannes equivale, por essa comparação, a fazer um gol em copa do mundo. Desculpe a analogia lulística com o futebol, mas isso é quase inevitável no momento atual.
AAqui – Poucas agências catarinenses já concorreram na premiação. Na sua opinião, por que essa pequena participação?
R. A. – A palavra que explica esse fenômeno é “dinheiro”. Uma inscrição em Cannes custa caro. Dez inscrições em Cannes custam uma fortuna, para os padrões financeiros do nosso mercado. Além disso, a grande maioria dos clientes catarinenses costuma investir pouco dinheiro em produção (E em Cannes, dependendo do ano e do critério do júri, isso é tão importante quanto a ideia). Na verdade os clientes locais têm uma cultura de investir pouco dinheiro até mesmo na contratação de uma agência. E por falar em cultura, e em economia, muitos donos de agência pensam “Peraí, com o dinheiro dessa inscrição a gente paga 3 meses de salário de um arte-finalista”. Se você olhar de forma estratégica, se quiser pensar grande, vai dizer que esse cara é tacanho. Mas se você olhar para a realidade financeira dele, vai concluir que não se pode julgá-lo. Jogar Copa do Mundo não é para qualquer um. Daí sobram umas 4 agências de Santa Catarina que podem inscrever em Cannes sem ter que demitir um arte-finalista. É muito pouco. Isso sem considerar a qualidade criativa que o mercado produz. A média é muito baixa. A quantidade de trabalhos com a qualidade mínima para concorrer em Cannes é minúscula. Somando tudo isso, a gente tem esse quadro de participação raquítica da propaganda catarinense em Cannes.
AAqui – Você já esteve em Cannes acompanhando o Festival?
R. A. – Sim, já estive. Voltei de lá bipolar. Um lado meu estava empolgadíssimo, o cérebro explodindo de tanta coisa boa que eu vi, um tesão enorme pra fazer melhor, e o outro lado extremamente deprimido ao constatar o tamanho do abismo que nos separa de Nova York, de Londres, de Amsterdam, ou até mesmo de São Paulo.
AAqui – Algum trabalho que teve sua participação já concorreu em Cannes?
R. A. – Sim, já tive alguns trabalhos inscritos. E não foram trabalhos que a gente inscreveu pra ver no que dá. Foram sempre peças que já haviam conquistado medalha no NY Festivals ou entrado no London Awards, no CCSP, enfim, peças que já haviam passado por um júri exigente. Mas Cannes é outro universo.
AAqui – Por quais motivos você não inscreve trabalhos em Cannes?
R. A. – Eu inscrevo. Só não consigo inscrever todo ano, e nem na quantidade que eu gostaria.
AAqui – Qual trabalho brasileiro pode surpreender em Cannes neste ano?
R. A. – Difícil lembrar de todos os trabalhos que surgiram de 2013 pra cá e que chamaram a atenção, a gente sempre acaba esquecendo um ou outro. Mas tem uma ação que, quando eu vi, pensei “é Cannes”. É a campanha do Bentley do Chiquinho Scarpa para promover a doação de órgãos, da Leo Burnett. Foi uma ação perfeita. A ideia foi genial, eles criaram o buzz, alimentaram o absurdo, enfim, fizeram todo mundo concordar com o argumento da campanha antes de revelar que se tratava de uma campanha. Minha aposta é nesse.
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