Na esteira das lições que eu tive, nos convívios para escrever o livro “Seus olhos”, nunca mais pude desviar os olhos de tema tão nobre. Por isso em 2011, quando era blogueira da RBS com o blog “Correr é Poder”, fui conhecer o projeto Novos Horizontes quando ele ainda dava os primeiros passos, muitas vezes com o próprio mentor como único guia dos deficientes visuais ciclistas. Passados oito anos, foi uma alegria retornar ali e perceber que quase 40 pessoas estão envolvidas no projeto de onde emergiram até mesmo atletas campeões.
Mais do que “dar pedal” ao deficiente visual, o projeto Novos Horizontes vem dando a seus voluntários uma nova visão sobre quem, sem ver cor, exala coração. No tum-tum-tum acelerado, pela exigência de percursos que podem superar os 50 quilômetros, a parceria vira lição. No ritmo sincronizado, no sobe e desce dos morros, entre o vento que acaricia e as buzinadas que aterrorizam, os cegos aprendem sobre a Ilha, a natureza, a geografia, e os guias sobre a vida, como é possível vencer mesmo sem (se) ver.
Idealizado por Ricardo de Carvalho, corretor de seguros com tripla experiência – no voluntariado, no ciclismo e pela visão restrita a um olho –, o projeto que disponibiliza bicicletas tandem, com dois bancos e quatro pedais, para treinos semanais, honra na prática seu nome, abrindo Novos Horizontes a mulheres, homens e casais que sem “piloto” não poderiam pedalar.
Viviane Oliveira de Araújo, de 36 anos, chegou por orientação médica, pelos benefícios que o esporte traz no controle da hipertensão. Naturalmente, a estreia foi exigente, com o corpo sentindo o fôlego escasso. Mas a sensação de liberdade, o ventinho nas descidas, quando solta o pedal, a satisfação de vencer os próprios limites não deixaram dúvidas de que precisava voltar. A ponto de Viviane conciliar o expediente no trabalho, como Assessora técnica-pedagógica, com mais exercícios durante a semana, para fazes jus à equipe nos encontros de sábado.
Assim como Viviane, Irani Aparecida Castro também integra o time de quem enxergava até ser intimada a não ter medo do escuro. Viviane perdeu a visão aos 18 anos e Irani ainda na infância, aos 7 anos. “Quando eu trabalhava, não conseguia participar. Mas agora venho e gosto de tudo, da brisa, de encontrar as pessoas”, conta a Massoterapeuta recentemente aposentada que chega aos treinos acompanhada, pelo marido de baixa visão.
Pioneira na equipe, Inês Berlanda Seidler vem acumulando fôlego há mais de oito anos, desde a criação do projeto que veio realizar seu sonho de infância: andar de bicicleta. Os resultados na saúde e na disposição foram tão visíveis que Inês, aos 40 anos, mantém um estilo de vida intenso e ativo, não raro convocando a filha, de 18 anos, para guiá-la na bicicleta tandem fora dos treinos coletivos.
Para Orides Joel de Lima e Alírio Seidler, a paixão pelo pedal descortinou muito mais do que Novos Horizontes. Forjou o caminho rumo ao podium, com os dois atletas, que iniciaram a “carreira” nos treinos de sábado, consagrados campeão e vice-campeão brasileiros de Paraciclismo. Integrando a equipe do Avaí, Orides “viu a morte” de perto quando, atropelado por um caminhão, foi arremessado da bicicleta durante um treino na BR-101. Seu guia, o atleta Edson Rezende, de 33 anos, não sobreviveu ao acidente.
Consternado com a perda, Ricardo de Carvalho, 50 anos, prefere focar nos ganhos, como a Via Amiga do Ciclista, na Beira-Mar Norte, e a satisfação de ver seu projeto dar frutos pelo Estado, com iniciativas semelhantes promovendo a inserção no esporte em cada vez mais cidades. E se por ventura faltar fôlego, vai sobrar inspiração. Basta olhar pro fundador, pai de três filhos, que manteve o sonho aceso desde o início, quando contava com apenas uma bicicleta, revezando-se como guia, para conduzir três cegos em pedaladas de 20km para cada um.
Para conhecer melhor o projeto, que tem largada todos os sábados, às 9 da manhã, junto ao Terminal Urbano da Trindade, te convido a assistir minha conversa com o Cau, como todos chamam o Ricardo de Carvalho, e a curtir agora mesmo o perfil do grupo Novos Horizontes no Instagram, neste link aqui.
Para ler o primeiro capítulo, apresentando a série Por mais lugar à luz, é só clicar aqui.
Para assistir à entrevista sobre a ACIC, que completou 42 anos nesta terça-feira, cliquei aqui.
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