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Coluna Ana Lavratti: Mesmo invisível a escada se faz crível pra quem deseja subir
18 de Fevereiro de 2019

Coluna Ana Lavratti: Mesmo invisível a escada se faz crível pra quem deseja subir

Por Ana Lavratti 18 de Fevereiro de 2019 | Atualizado 18 de Fevereiro de 2019

 

Nos dias 04.02 e 11.02, como candidata ao prêmio ACIF Mulheres que Fazem a Diferença, compartilhei na Coluna um pouquinho do que contei no case de inscrição. Aqui vai a parte 3, quando quase sucumbi.

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Quando assumi a Comunicação da Secretaria de Estado da Saúde, nos primeiros dias de 2007, sequer desconfiava o tamanho daquela missão. Com servidores em todo o Estado, dezenas de prédios em vários endereços, e com o compromisso de honrar o que existe de mais sagrado, a vida, a SES já me deu as boas-vindas me dando um celular. Três meses depois, ainda nem nomeada mas já dedicada em tempo integral – conciliando o duro expediente com uma semente de gente, minha filhinha -, as poças rasas do caminho se racharam num poço profundo.

Minha mãe, tão linda, recebeu um “ultimato”. Camuflado pelo excesso de beleza e de energia, um tumor se espalhava pelo corpo. Preciso dizer o tamanho do golpe? Só sei que larguei o trabalho, a casa, a filha, e fui pra Porto Alegre congelada de tristeza. Vendo de camarote a vida que se esvaía, o ar que rareava, a força que minguava… me obriguei a manter a rotina, agora sim nomeada, e a zelar por mim, com exames preventivos.

Até que o poço rompeu sem aviso.

O envelope, quem diria, não era inofensivo!

Cuidando da filha, de 1 aninho, da sobrinha de 8 anos, do vai-e-vem da mãe já carequinha, entre consultas, exames e longas sessões de quimioterapia, tentando trazer algum conforto com minha modesta companhia, não pude crer na sentença que a biópsia instituía. Meio ano após o diagnóstico da minha mãe, o meu também dizia “neoplasia”. Claro que eu não contei. Mas me tratei. Sem deixar de intercalar as noites no hospital com a minha irmã. Mesmo sabendo que de manhã, quando chegasse o café, eu só podia comer a maçã… pelo jejum total de sódio pré-internação pra iodoradioterapia. O silêncio, confesso, era o que mais doía.

No dia 25 de novembro, dia da nossa padroeira, Santa Catarina, minha mãe se despediu de nós sem saber da minha dor. Duas semanas mais tarde, na véspera dos meus 38 anos, me internei pra overdose de radiação seguida por 11 dias em total reclusão. Se na clínica interagiam comigo protegidos por um biombo blindado, em casa o caminho era livre, mas nunca tinha ninguém. De vez em quando, espiava da janela minha filha feliz, trazida pelo pai… impedidos de subir. Até que o Natal chegou. Finalmente eu podia sair. Era Verão por todos os lados mas já não havia visão.

Do subsolo do fundo do poço, não via corda nem escada nem saída.

Só o medo de não cumprir o papel da minha vida.

Pra ser a mãe daquela menina, tão perfeita e pequeninha, eu precisava revidar. Com os hormônios descompassados, num luto absoluto, cuidando da Lara e da Vivi – a filha do meu irmão que dormia conosco pra ele conseguir dar aulas à noite -, eu não encontrava disposição. Mas tinha motivos!! E um motivo nobre sempre nos move. Então passei a vislumbrar iniciativas em prol da vida. Na Secretaria da Saúde, criei um programa de rádio que eu mesma gravava no estúdio do Governo, participei de mais de 15 capacitações nacionais e abracei duas causas que fazem sentido pra mim: mostrar os riscos iminentes de queimaduras em crianças e os danos do cigarro em ambientes coletivos, pra que nenhum não-fumante, como era minha mãe, perca a luta pela vida pra um câncer de pulmão.

Na própria SES, mediei a criação de duas campanhas comoventes de prevenção às queimaduras, num engajamento que reverteu em convites pra assessorar a TopMed, a Sociedade Brasileira de Queimaduras e a clínica referência no atendimento de queimados, a Cepelli do Baía Sul. Com tantas pontes armadas, era hora de dar a guinada! Assumi a comunicação no Brasil da Embaixadora da Boa Vontade da Unesco, Kim Phuc, a menina “incendiada” na Guerra do Vietnã. Atendi a Veja, o Fantástico e a Hora do Brasil, sempre impondo à pauta os rituais de Prevenção. Intermediei a edição de uma revista da Turma da Mônica 100% dedicada ao tema queimaduras. Mobilizei os melhores parceiros pra organizarmos dois eventos de prevenção à queimadura infanti. E como se não bastasse, tive o privilégio de estar junto, na mesma mesa, quando o deputado Dado Cherem acatou a ambição dos meus clientes cirurgiões (Dilmar Leonardi e Maurício Pereima): criar de forma inédita no Brasil uma Lei de proteção às vítimas de queimaduras graves que concede benefícios e suporte pra reabilitação.

 

Sim, eu poderia ter sido vencida, mas fui convencida que mesmo invisível a escada se faz crível pra quem deseja subir, e seguir, e conseguir o que sonhou com nitidez. Então virei blogueira de corrida, escritora e colunista social. Mas isso já é assunto pra segunda que vem.

 

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