Ainda há pouco tempo o Brasil convivia com uma das experiências mais pesarosas e amargurantes para o espírito humano, que é viver sob uma ditadura. E como nós brasileiros, passadas algumas primaveras, muitos outros povos ao redor do mundo mobilizam-se desafiando a morte em defesa da liberdade, um bem tão precioso que se confunde com o próprio sentido da existência humana.
Como humanidade, vimos conquistando um nível cada vez mais elevado de liberdade, que se expande, e multiplica em possibilidades nossa existência. A tecnologia e a arte são veículos dessa via, por excelência. Não é, portanto, sem razão, que as ameaças de controle e censura que rondam a internet, vêm gerando tamanha revolta.
O século XXI está marcado como a era da globalização: somos, cada vez mais, vizinhos próximos dos americanos, dos europeus, dos japoneses, solidários em suas crises e tragédias, já temos intimidade com os chineses que produzem de um tudo do que compramos no comércio, opinamos e apoiamos causas em todos os Continentes. Tudo isso graças à tecnologia que encurta distâncias, agiliza processos, e nos dá liberdade para trocar informações, gerar conhecimento e compartilhar mundialmente, numa extensão da mente humana, nossas ideias e sentimentos.
A rede mundial da internet é, assim, a nossa nova praça pública, espaço de existência, um novo território em que o homem avança em liberdade e empunhando a bandeira da livre expressão. Desde as campanhas propriamente ditas em prol de uma causa, como ocorre com o ambientalismo, às mais comezinhas trocas de mensagens nas redes sociais, passando pelas críticas aos governos, às produções culturais, ao surgimento de novas formas de criação artística, a web é um novo e muito importante espaço da democracia contemporânea.
A liberdade de expressão confunde-se com a liberdade do homem para o qual a comunicação representa o grande distintivo no processo evolutivo. A internet é um instrumento de empoderamento, ela permite um alcance antes inimaginável às ideias e manifestações. É nessa condição de novo poder que ela passa a ser debatida com tanto ardor, desde as instâncias jurídicas e empresariais aos milhares e mais diversos internautas – a massa.
Não nos esqueçamos que é, especialmente, como veículo das novas mídias que esse poder ganha interesse econômico e transforma a questão numa ameaça concreta à liberdade de expressão. Não se trata de negar direitos autorais ou fazer apologia às práticas piratas. O que instiga a árdua defesa dos internautas à liberdade de expressão é a repulsa que causa a figura do censor. Livre das instâncias reguladoras e dos dogmas da religião, da ciência e das ideologias, o homem contemporâneo ergue-se sobre suas próprias pernas, erra e acerta, mas não admite o retrocesso.
É por meio dessa “massa”, cada vez mais crítica, empoderada e livre, que se sustenta a democracia de hoje e se garante o horizonte humano. Pela palavra, pelo gesto, pela arte, tomamos o mundo como nossa casa e o habitamos carinhosamente, colocando em comum, expressões do nosso ser. É por isso que devemos lembrar que a sustentabilidade de nossa liberdade de construir e compartilhar a nossa existência com tantos outros, requer tanto cuidado e responsabilidade.
