
Gabriel Araujo – O festival de Cannes deixou de ser apenas um festival de publicidade para se tornar um festival de criatividade nos últimos anos. Novas categorias foram criadas e surgiram muitas subcategorias para tornar o festival maior do que ele já era. Quem já foi a Cannes sabe que hoje não há só gente de agência transitando por lá. Os clientes estão em peso no festival e isso é muito positivo para o nosso mercado.
Eu costumo dizer que cada um tem o seu próprio festival de Cannes. Porque é muito conteúdo e dependendo do que você escolher, esse conteúdo pode te levar para um lado ou para o outro. Entre os palestrantes vemos cantores, modelos, gente de tecnologia (ganhando cada vez mais espaço), tendências, diretores e atores de cinema, enfim. É muito maior que quem acha que o festival só premia publicitário de ego inflado. Isso é um erro típico de quem não sabe nada sobre o festival.
O único questionamento que faço sobre Cannes é em relação aos lobbys. Não dá para uma agência local competir com uma multinacional, tanto pelo valor do investimento quanto pela sua envergadura. No entanto, vemos agências desconhecidas, de todo o lugar do mundo ganhando destaque e isso é o que faz o festival surpreender. Em relação ao que o festival traz para o criativo posso dizer duas coisas. Primeira coisa: se a ficha técnica do seu trabalho tem muita gente na criação, ela também tem boi na linha. E mesmo com um leão na sua pasta você será questionado se ele pertence ou não a você. Se a ficha tem a dupla e mais um ou dois, ok.
Segunda coisa, conheço muita gente que tem leão e continua se ferrando no mercado. Um leão não é garantia de nada. Tenho amigos que tem leão e estão desempregados. Tenho amigos que não tem nenhum premio e tem salários enormes. Leão só é garantia de mais sucesso na sua vida profissional se você consegue sustentar um trabalho brilhante no dia a dia. Porque, diferente da Copa do Mundo, Cannes tem todos ano e se você é bom de verdade vai ter que mostrar que pode surpreender sempre e que vai estar lá buscando o seu espaço e o seu leão do ano seguinte.
AAqui – Poucas agências catarinenses já concorreram na premiação. Na sua opinião, por que essa pequena participação?
G.A. – Jaílson, você sabe muito bem o que eu penso sobre isso, mas vamos lá. A primeira resposta que vamos ouvir aqui de 90% das pessoas será: o nosso mercado é difícil, temos que tirar leite de pedra, fazer filme com 5 conto, o cliente é complicado, por aqui não dá, blá blá blá. Dá preguiça. Para mim isso é bullshit. Você acha que na Bahia é diferente? No entanto ganharam leão de ouro em Press. Em Porto Alegre é diferente? Em minas gerais é diferente? Até em São Paulo, acha que é diferente?
Não meus amigos. Ao contrário de quem nunca viveu essa realidade, as agências não param uma vez por ano para fazer Cannes. Até porque uma agência não pode parar pra isso. Cannes é resultado de muito, mas muito, mas muito trabalho. Resultado de uma equipe que pulsa e transpira boas ideias, que está a fim de buscá-las e convencer o cliente de que aquela ideia pode gerar grandes resultados para ele, além de gerar resultado em premiações para a agência. Um leão em Cannes nasce daquele criativo que fica um pouco a mais. Que vê que sua ideia é impossível de ser produzida e opta por simplificar, encontrar uma saída. Que quando vê que a ideia ficou boa, trabalha para ela ficar ótima. E quando percebe que ela está ótima, trabalha ainda mais para deixa-la inquestionável. É o tipo de criativo que arregaça as mangas e dá a cara pra bater. É o criativo que não se esconde atrás de desculpas.
Mas Jaílson, existem dois tipos de criativos. Os que correm atrás de criar, batalhar e produzir suas ideias. E os que reclamam de tudo e nunca terão uma pasta que presta nem um prêmio se quer na vida. Francamente, acho que quem reclama desse jeito, poderia trabalhar na AKQA com verbas incríveis, contas globais e iria continuar reclamando, fazendo um trabalho medíocre e sem ganhar nada. Conheci muita gente em Floripa que é boa pra caramba, que tem criação na veia, tanto na equipe da OneWG, quanto de muitas outras agências. Gente como o Rogerinho, o Michel, O Jaisson, o Guedes e tantos outros por aí. São feras.
Agora, voltando para quem gosta de reclamar. Sejamos realistas, posso citar diversos trabalhos que foram feitos somente com imagem de “shutter” (como muita gente reclama), e ganharam leão. A Almap vem ganhando leão com Getty Images por 3 anos seguidos. Trabalhos feitos com fotos de banco de imagem, com vídeos de banco de imagem e só não fizeram com áudio porque a Getty ainda não trabalha com isso. Shutter, pra quem enxerga o brief como um problema, é uma desculpa pra fazer coisa ruim. Pra quem enxerga o brief como uma oportunidade, é uma desculpa pra fazer coisa boa. Depende da visão.
Muita gente questiona quem vem de fora atuar aqui. E quero deixar uma mensagem. Os profissionais que vem de fora, de outro mercado, assim como eu, já viveram realidades diferentes, com verbas maiores. Mas o dia a dia meus amigos, é exatamente igual. Talvez com a diferença de que quem está em São Paulo, trabalha o triplo, ganha o mesmo e não tem praia.
E essa Jailson, é uma das desculpas mais repetidas: a qualidade de vida. Ficar mais uma hora na agência pra pensar em trabalho pró-ativo, vamos? Não, e a qualidade de vida? Tenho que levar minha avó na capoeira. Mais bullshit.
Na OneWG ninguém perdeu a qualidade de vida. Mas todo mundo entendeu o drive. Fazer um pouco mais, para ganhar muito mais.
Todos enriqueceram seus portfolios, fizeram grandes trabalhos que nunca imaginaram produzir. Trabalhos que já saíram na rua, no jornal, na tv, no rádio. E fazendo isso, até na Archive saímos. E sem verba de produção estabelecida. Nós cavamos isso com o cliente e deu resultado. Posso dizer que tem muitos outros trabalhos que o mercado ainda vai conhecer. E são brilhantes. Tudo isso sem ninguém perder a famosa qualidade de vida.
Para quem pensa que existe um sonho dourado de quem decide vir pra cá, posso dizer uma coisa. Não existe sonho. Existe empenho, existe trabalho, existe colocar a mão na massa, acreditar, batalhar, convencer, trabalhar de novo, trazer os fornecedores para o seu lado, contar com os amigos. Porque a cobrança em quem vem de fora é 10 vezes maior. Então o resultado também tem que ser. Não dá pra dar desculpa que a verba é pequena ou que só podemos usar shutter. Temos que produzir com alta qualidade. E damos nossos pulos, você sabe disso.
Quando uma boa ideia aparece, todo mundo pode fazer parte. É só arregaçar as mangas e trabalhar. Mas quem não faz nada disso, não pode e nem deve suplicar para ter o nome na ficha. Porque depois que leão tá morto meu amigo, é fácil passar a mão. Como diz um amigo meu, matar um leão por dia é fácil, o difícil é desviar das antas. Mas segue o jogo.
Outra coisa. Quando você chega em um novo mercado, independente de onde ele é, você vai questionar tudo. A qualidade do produto criativo, dos processos, dos fornecedores, do que ta na rua e do que não tá. Porque se você não questiona, fico pensando, mudou pra que?
Tudo que ganha Cannes, foi feito e refeito arduamente. Quem pensa que o processo foi legal, bonitinho e tranquilo, ta completamente enganado.
Quer tentar ganhar Cannes? Faça todo mundo comprar sua ideia. Desde a equipe, o board da agência, inclusive o cliente. Mas comece pela sua equipe, porque eles têm que acreditar em você. Se você tem a equipe do lado o resto fica mais fácil.
E também temos que contar com gente arrojada no processo. Eu tive a sorte de ter o Beto Torres, o José Netto e o Wilfredo Gomes do meu lado em todas as investidas em prêmio. Esses 3 caras, junto com uma equipe no mil também fizeram a diferença.
Se nós vamos ganhar, eu não sei. Mas estaremos lá, concorrendo e dando a cara a tapa. Porque a gente preferiu fazer, do que reclamar.
AAqui – Você já esteve em Cannes acompanhando o Festival?
G.A. . – Sim. E voltei revendo todos os meus conceitos sobre propaganda. Acredito que esse ano também vai ser assim.
AAqui – Algum trabalho que teve sua participação já concorreu em Cannes?
G.A. – Sim. Tenho 4 shortlists em Cannes e este ano vem o primeiro leão. (dedos cruzados e velas já acesas)
AAqui – Qual trabalho brasileiro pode surpreender em Cannes neste ano?
G.A. – Dove vai ganhar de novo. Não na mesma proporção do ano passado, mas vai ganhar. CNA – que integrou alunos de inglês com velhinhos. Um baita golaço da FCB. E muitas outras, tem muita ideia boa. Da OneWG inclusive.
Todas elas sem se prender a desculpas, fórmulas prontas ou corpo mole.
E galera, firma esse corpo e faz coisa boa que se não vier prêmio pelo menos a pasta melhora. (Quem não entendeu desculpa. Isso é piada interna na criação da OneWG)
Valeu Jailson, te vejo em Cannes.
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