Quais são os aspectos mais críticos, de ordem estrutural, que comprometem a sustentabilidade no meio urbano? Meios de transporte e construção civil, afirma Thassanee Wanick – Cônsul Geral da Tailândia no Brasil. Este foi o critério utilizado para pautar a sua atuação em terras brasileiras, como representante consular do seu país e como cidadã do mundo preocupada com o futuro do planeta.
Thassanee veio a Florianópolis para colaborar com a divulgação da Elephant Parade, a convite de Giovane Pasa, diretor geral do evento na cidade. Trata-se de um belíssimo projeto, que dá visibilidade à fragilidade de uma espécie ameaçada de extinção, o elefante asiático – cuja figura, ironicamente, não combina em nada com os adjetivos invisível ou frágil. Parte dos recursos financeiros obtidos com a iniciativa revertem para as organizações protetoras desses animais, além de beneficiar outras causas socioambientais nos locais que sediam o evento. Ela assina a arte de um dos elefantes da exposição, dando-lhe uma feição delicada e infantil, que certamente despertará a empatia das crianças e ajudará na sensibilização para a consciência ambiental, uma das suas preocupações.
No México, onde atuou anteriormente, Thassanee promoveu a proteção às tartarugas marinhas, por meio de uma organização não-governamental local e em parceria com hotéis da Riviera Maya, desenvolvendo um projeto de educação ambiental voltado aos turistas e habitantes da região.
No Brasil, escolheu o desafio de contribuir para transformar o perfil da construção civil. E não apenas para torná-la menos agressiva ao meio ambiente, representando otimização de material em cerca de 30%, mas buscando demonstrar que construções sustentáveis também podem proporcionar aos seres humanos benefícios em termos de saúde, bem-estar e mesmo em sua capacidade de desenvolvimento intelectual e trabalho.
A Cônsul tailandesa utiliza dados de pesquisas científicas recentes para evidenciar que, nos hospitais, por exemplo, os pacientes acomodados em quartos com janela se recuperam em 1/3 do tempo que levam os que convalescem em ambientes fechados; ou, ainda, que as crianças que estudam em salas onde penetra a luz natural apresentam cerca de 25% a mais de rendimento nos estudos.
Parece óbvio que uma boa luminosidade e a circulação de ar proporcionam boa oxigenação e favorecem as atividades de estudo e trabalho! Sim. É também bastante razoável que uma obra de construção civil – seja um prédio, seja a projeção de um loteamento, ou uma área de uso comum – deva ser muito bem planejada, em termos de consumo de material, resistência e longevidade. Contudo, até há pouco mais de 10 anos não havia, no Brasil, parâmetros técnicos amplamente reconhecidos a respeito do assunto, predominando as práticas da construção tradicional, ou seja, desvinculadas dos aspectos ecológicos.
Como influenciar uma mudança para a sustentabilidade nesse cenário, sem ter uma formação específica na área e tratando-se de um espaço profissional predominantemente masculino? Thassanee não se deixou intimidar e, por volta de 2004, após as primeiras abordagens junto ao empresariado representativo do segmento, compreendeu que, mesmo havendo uma boa vontade em adotar novas tecnologias e materiais, essa mudança requeria uma abordagem pelo viés econômico. Assim, ela entrou em tratativas com o Banco Real, convencendo sua diretoria a assumir, como critérios para a concessão de novas linhas de crédito para obras de construção civil, a adoção de práticas de redução de impactos ambientais.
Esse passo importante contou com o apoio do cientista e professor, José Goldemberg, ex-Ministro da Educação e então Secretário do Meio Ambiente do Estado de São Paulo. Surge nesse contexto – tendo Thassanee como fundadora e contando com a participação das principais lideranças da construção civil à época – a organização não-governamental Green Building Council do Brasil – GBCB, oficialmente constituída em 2007.
A certificação da LEED – Leadership in Energy & Environmental Design, por exemplo, que é oferecida pelo GBCB, constitui um dos principais selos internacionais do segmento. A capacitação e promoção de eventos, também, para aprofundar e avaliar o desenvolvimento das soluções e práticas das construções ecológicas (com mais de 70 mil pessoas capacitadas até o presente), é outra área de atuação da ONG que, ainda, promove anualmente a Conferência Internacional e Exposição Greenbuilding Brasil.
Nesta semana, um novo grande passo foi dado: o reconhecimento oficial da importância da adoção de critérios sustentáveis na construção civil como diretriz de políticas públicas. Segundo nos informou a diplomata, em São Paulo, o prefeito Fernando Haddad, acaba de enviar à Câmara Municipal um projeto de lei que institui o incentivo fiscal denominado “IPTU Verde” – que concede de 4% a 12% de desconto no tributo, adotando como parâmetro as certificações próprias para as construções sustentáveis.
Instigar mudanças concretas pela sustentabilidade é o propósito de Thassanee, e é com a desenvoltura de quem sabe o valor da sua iniciativa para as futuras gerações que a diplomata vem conquistando o apoio para os seus projetos junto a líderes mundiais.
E, contando com esse apoio, nasceu outro importante projeto da sua ONG, o One Degree Less, que tem como mascote a figura de um urso polar chamado de “Celsius”. Trata-se de uma iniciativa que pretende contribuir para a redução do aquecimento global, propiciando a compensação de CO2 por meio de uma medida simples: a pintura de superfícies como telhados ou calçadas, por exemplo, com a cor branca. A partir dos estudos científicos desenvolvidos pelo Lawrence Berkeley National Laboratory, da Universidade da Califórnia – EUA (no Brasil, a USP é uma das parcerias envolvidas), constatou-se que, apenas por refletir o calor oriundo dos raios solares, essa mudança permitirá que, para cada 100 m2 cobertos de branco, cerca de 10 toneladas/ano de gás carbônico sejam compensados, afirma Thassanee.
O que mais impressiona, ao conversar com a Cônsul Geral da Tailândia no Brasil, além dos dados que ela apresenta – e que impactam pela representatividade e repercussão no âmbito da relação homem/ambiente – são a sua coragem e o seu espírito de protagonismo. Thassanee Wanick é alguém que nos inspira e nos faz compreender que seres humanos comprometidos e motivados, quando tomados de um propósito tal como a causa da preservação da vida de qualidade para as futuras gerações – que é a causa da sustentabilidade – são capazes de fazer a diferença, no sentido mais positivo do termo.
