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Faz uma musiquinha pra mim, Chico?
14 de Agosto de 2014

Faz uma musiquinha pra mim, Chico?

O recente episódio de deturpação de biografias de jornalistas em enciclopédias livres e colaborativas, envolvendo pessoas ligadas ao governo federal, revela o duplo padrão moral a que estamos sujeitos na atualidade. Ao mesmo tempo em que a presidenta e o governo brasileiro exigiram, no ano passado, um comportamento ético do governo americano com o fim da espionagem e privacidade de dados na internet, estas mesmas pessoas se julgam no direito de alterar a seu bel prazer e em benefício próprio a biografia de jornalistas e figuras públicas que não comungam da ideologia partidária instalada no Planalto Central.

O mais curioso ainda, nesse relativismo ético e indecoroso, está na declaração da presidenta Dilma Rousseff, ao dizer que “quem individualmente quiser que o faça, mas não coloque o governo no meio”. Em outras palavras, não se trata da imoralidade de deturpar a vida alheia, mas o problema é colocar o governo no meio. Em vez de cobrar uma conduta ética, a exemplo do que fez com o Tio Sam na reunião da ONU, a presidenta flexibiliza valores morais para amenizar o comportamento de seus companheiros flagrados no uso de bens públicos com fins eleitorais evidentes.

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Mas o que me preocupa não é o grito dos maus, e sim o silêncio dos bons, como dizia Martin Luther King. Sou fã e fiel admirador da capacidade de composição do cantor, compositor e escritor Chico Buarque, o mesmo Chico Buarque que no ano passado condenou publicamente a editoração de biografias de artistas sob o argumento de “direito dos artistas de preservarem sua vida pessoal”. Creio que na visão de Chico Buarque e dos humanistas ideológicos de plantão defensores das minorias, este direito cabe não só aos artistas e se estende a todos os cidadãos. O que diria então da deturpação intencional das biografias?

Será que Dilma teria uma reação diferente e exigiria um comportamento ético se fossem seus adversários políticos a terem praticado tal ato? Será que Chico Buarque teria composto uma bela canção, embutindo nas entrelinhas da letra e da música uma crítica à atitude dos donos do poder como o fez em tantas canções feitas durante o regime militar? É esse duplo padrão moral, esse relativismo ético o que me incomoda. Já que Chico não se manifestou, recorro a uma de suas canções para alegrar o episódio: Será, que será? O que não tem decência nem nunca terá. O que não tem censura nem nunca terá. O que não faz sentido…

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