O AcontecendoAqui cobre presencialmente o Festival Cannes Lions desde 2013. Nas semanas que antecedem o evento, realizamos entrevistas com alguns jurados brasileiros que estarão lá no Festival julgando presencialmente os trabalhos que concorrem em suas respectivas categorias.
Chamamos essa série de “Jurados Brasileiros em Cannes”, que o AcontecendoAqui realiza com os criativos brasileiros selecionados para julgarem o Cannes Lions Festival neste ano. Hoje apresentamos nossa conversa com Will Bone que julgará a Categoria Audio & Radio.
Latin Grammy winner, Will Bone é diretor musical e sócio da Pingado Áudio, produtora de som premiada com Ouro em Cannes na categoria Rádio & Áudio. Já colaborou com artistas como Sofi Tukker, Seu Jorge, Lady Gaga, Caetano Veloso, Milton Nascimento, Anitta, Jão, Emicida, Liniker e outros. Foi maestro do Domingão na TV Globo entre 2017 e 2021. Em 2025, integra o júri do Cannes Lions e já atuou como jurado no Young Lions, Effie Awards e Clube de Criação. Sua trajetória mostra que a música não lhe deu apenas uma carreira — ela lhe deu uma saída, um caminho e um propósito.
Qual é a sensação em fazer parte da equipe de jurados brasileiros do Cannes Lions 2025?
Primeiramente, eu gostaria de agradecer o convite para falar sobre Áudio e Radio para a página “Acontecendo aqui”, estou muito honrado por isso.
É uma emoção gigante. Representar o Brasil no festival mais importante da criatividade mundial é um marco na minha trajetória. Cresci na periferia de São Paulo e comecei com um trombone na mão, pouquíssimos recursos e uma paixão pela música. Estar hoje nessa posição, julgando uma categoria tão sensível quanto Áudio & Rádio, é também um símbolo de representatividade, que inclusive culmina com o propósito da Pingado Áudio. É a prova de que dá para sair da quebrada e ocupar espaços de destaque com sensibilidade, escuta e excelência técnica.
Qual é o aprendizado ou troca de experiências que você imagina ter lá com criativos de diversos cantos do mundo?
A troca com outros jurados é uma das partes mais valiosas do processo. Quero escutar com atenção o que profissionais de diferentes culturas e realidades têm a dizer, entender como enxergam o som e a criatividade em seus contextos. Ao mesmo tempo, quero levar o olhar brasileiro — e, mais ainda, o olhar de quem veio da periferia — pra mostrar que é possível contar grandes histórias, mesmo em situações com poucos recursos, mas com muita verdade.
O Festival passou por grandes reformulações em tempos recentes, assim como todo o ecossistema da Comunicação. Na sua opinião, qual a relevância do Cannes Lions — como festival — e como articulador maior da comunidade criativa global?
O Cannes Lions se tornou mais do que uma vitrine de cases premiados; hoje ele é um espaço de reflexão, de encontro e de reinvenção da indústria criativa. Em um mundo que muda tão rápido, o festival tem o papel fundamental de provocar discussões, apontar caminhos e reconhecer ideias que realmente geram impacto. Ele articula um ecossistema global e coloca em pauta temas urgentes; desde a inclusão até o uso consciente da tecnologia.
Em 2024 um dos “recados” do Festival foi: “Criatividade sem dados não funciona. Dados sem criatividade não funciona”. O que você acha que será o ponto central desta edição?
Acredito que nesta edição o ponto central será a humanidade na criação. Com a chegada da IA e outras tecnologias, o desafio agora é manter a alma do que fazemos. Vamos ver um foco ainda maior na sensibilidade, na intenção, na escuta; especialmente em categorias como Áudio & Rádio. A criatividade que toca, emociona e permanece será ainda mais valorizada e isso que priorizamos todos os dias na Pingado Áudio, que é onde exerço esse papel diariamente.
O que você espera ver em termos de campanhas inscritas em todo o Festival e, especialmente em Áudio & Rádio, categoria que você vai julgar?
Espero ver campanhas que surpreendam pelo uso sensível e estratégico do som. Que tragam novas narrativas, novas texturas, e que não usem o áudio apenas como complemento, mas como essência criativa. Quero encontrar ideias que tenham coragem, que provoquem o ouvinte, que criem paisagens sonoras memoráveis. Em todo o festival, espero ver trabalhos mais humanos, que saiam dos formatos fáceis e tragam autenticidade.
Como o Brasil deve se posicionar como hub criativo? Na sua opinião, o que é feito aqui tem relevância mundial?
O Brasil tem uma das criatividades mais potentes do mundo. Nosso jeito de contar histórias é único, mistura emoção, alegria, improviso, estratégia e estética. A gente acredita de verdade no que produz, e Cannes é um ótimo lugar pra mostrar isso: nossa criatividade e singularidade.
O que é mais importante em Cannes? Ganhar um Leão, palestras, conhecer pessoas?
Tudo isso importa, claro, mas o mais importante é sair de lá transformado. Foi emocionante vivenciar isso quando ganhamos um Leão de Ouro em Áudio e Rádio em 2023, mas conhecer pessoas, trocar ideias, se emocionar com trabalhos de outros países, se questionar sobre o que está fazendo no seu dia a dia também é uma grande vitória, porque ali, eu estarei perto dos melhores profissionais de todo o mundo. Ganhar um Leão é incrível, mas Cannes é muito mais sobre se inspirar para voltar para o Brasil com novas perguntas, novas referências e mais vontade de continuar dando o meu melhor e fazer meu país avançar como influência mundial.
O que não falta na sua bagagem para Cannes?
Escuta. Levo minha escuta ativa e sensível, que desenvolvi como maestro, engenheiro de som e diretor musical. Levo também a história de onde eu vim, porque ela me ajuda a enxergar valor em criações que nem sempre seguem fórmulas. E, claro, levo minha vontade de aprender com o mundo e devolver isso em forma de som. Fiz direção em festivais gigantescos, colaborei com trabalhos ouvidos por milhões de pessoas no mundo inteiro e tive a oportunidade de poder ganhar prêmios que confirmam que estamos no caminho certo, mas o mais importante é saber que posso usar o som, que é a paixão da minha vida e minha bagagem profissional na arte como meio de transformação para a sociedade e levar meu propósito de vida aos 4 cantos da Terra.
