A inteligência artificial está promovendo uma mudança que vai além da tecnologia: ela altera estruturas, rotinas e a forma como o trabalho acontece.
Vivemos o início da chamada “era da vibe”, um momento em que pessoas adotam a IA mais rápido do que as organizações conseguem acompanhar. Processos se adaptam de maneira improvisada, fluxos de trabalho se dobram e, para profissionais de marketing, compreender essa tensão tornou-se essencial para tomar decisões mais inteligentes.
O impacto estrutural da IA se manifesta na convivência de verdades paralelas. Ao mesmo tempo em que indivíduos usam ferramentas de IA de forma cotidiana, marcas enfrentam pressão para revisar, justificar ou até remover conteúdos claramente gerados por inteligência artificial, especialmente diante de reações negativas nas redes sociais. Nesse novo cenário, julgamento passa a ser mais valioso do que habilidade técnica; controlar qualidade custa mais do que produzir; e a aparência de autoridade frequentemente supera sua legitimidade real.
Para os profissionais de marketing, isso levanta questões estratégicas centrais: onde investir em mídia, como reorganizar práticas de trabalho e de que forma distribuir riscos em um mercado em constante transformação. A tendência é clara: a adoção da IA ocorre mais de baixo para cima do que por planejamento institucional. Processos precisam priorizar controle e validação, não apenas velocidade. E conteúdos gerados por IA devem ser vistos como potenciais fontes de “dívida” futura, exigindo revisão e correção. As “vibes”, sinais informais e intuitivos, funcionam como alertas precoces de instabilidade estrutural.
O chamado “problema da vibe” surge do distanciamento entre como a IA é realmente utilizada e como as organizações acreditam que ela funciona. Pesquisas mostram que muitos profissionais levam suas próprias ferramentas de IA para o trabalho, sem respaldo formal das empresas. Estudos da EY indicam que entre 23% e 58% dos funcionários já usam IA por conta própria, enquanto levantamento da BCG revela que mais da metade faria isso mesmo sem autorização institucional. A IA, portanto, já está presente, mas de forma pessoal, fragmentada e pouco integrada.
No cotidiano profissional, a IA tem ampliado produtividade e reduzido o tempo de execução, ainda que a delegação total de tarefas permaneça limitada. Pesquisas apontam que desenvolvedores conseguem transferir apenas uma pequena parte do trabalho para sistemas de IA, mas se tornaram mais eficientes ao identificar tarefas simples que podem ser automatizadas. Outro efeito relevante é a redução da procrastinação: estudos do Google mostram que 88% de gestores das gerações Z e millennial usam IA para superar bloqueios criativos e paralisia diante de tarefas complexas.
No topo das organizações, o clima é de otimismo. A maioria dos CEOs americanos acredita que a IA representa uma fase saudável de crescimento e ganhos reais de eficiência. Entre os jovens, no entanto, o cenário é mais desigual: o uso da IA varia conforme renda, gênero e contexto social, e ainda não é uma tecnologia universal. Embora 64% dos adolescentes nos EUA já tenham usado chatbots, mais de um terço nunca teve contato com esse tipo de ferramenta.
O desafio central da era da vibe está na ilusão de proximidade com o trabalho especializado. Conteúdos que “parecem prontos” chegam às mãos de especialistas sem o devido entendimento técnico por trás, gerando retrabalho, correções e acúmulo de dívida operacional. A distância entre “parece certo” e “está certo” se torna, assim, um novo custo invisível da inteligência artificial.

Foto: Freepik
Fonte: WARC
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