O Conselho Europeu de Editores formalizou, nesta última segunda-feira (9/2), uma denúncia contra o Google por suposta infração às normas antitruste da União Europeia.
De acordo com a entidade, as funcionalidades AI Overviews e AI Mode, incorporadas ao sistema de busca da companhia, estariam utilizando conteúdo jornalístico sem consentimento ou remuneração, o que impactaria diretamente a audiência dos veículos de imprensa.
O AI Overviews apresenta resumos de notícias produzidos por inteligência artificial no topo da página de resultados, antecedendo os links tradicionais. Já o AI Mode funciona em formato conversacional, similar a ferramentas como o ChatGPT, oferecendo respostas diretas às perguntas dos usuários.
De acordo com os editores, o Google estaria incorporando conteúdo jornalístico em seus resumos sem consentimento ou remuneração, desviando tráfego que antes era direcionado aos sites de notícias. A consequência seria a queda de audiência e, por extensão, das receitas das empresas de mídia.
Ao denunciar o Google por violar práticas antitruste, o Conselho Europeu de Editores sustenta que a gigante de tecnologia utiliza conteúdo de qualidade produzido por jornais para treinar seus sistemas de IA, ao mesmo tempo em que reduz os cliques nas páginas originais. O Google, por sua vez, afirma que a iniciativa dos editores busca impedir que novos rec ursos sejam disponibilizados aos usuários.
Conselho nega que ato seja “resistência” à IA
O grupo afirma que a iniciativa não representa oposição ao avanço tecnológico. Segundo o conselho, “nenhuma quantia em dinheiro poderá recuperar o público perdido” com o novo formato de busca. A declaração foi assinada pelo presidente da entidade, Christian Van Thillo.
“As funcionalidades do AI Overviews e AI Mode minam fundamentalmente o pacto econômico que sustentou a internet aberta.”
Os editores classificam a prática do Google não apenas como apropriação de conteúdo sem consentimento, mas também como um fator de erosão da confiança dos leitores. Na avaliação de Van Thillo, veículos independentes, regionais e especializados tendem a ser os primeiros afetados.
Eles defendem ainda que o conteúdo produzido por jornais tradicionais tem alto valor estratégico para o treinamento de modelos de inteligência artificial. “Eles são precisos, atuais, bem estruturados e exigem limpeza mínima”, diz nota.
Queixa complementa investigação já aberta pela União Europeia
A denúncia reforça uma investigação antitruste iniciada pela União Europeia em dezembro de 2025. O objetivo é apurar se o Google impôs condições desleais a editores e criadores de conteúdo enquanto se beneficiava do acesso privilegiado a dados.
As autoridades também analisam se a empresa dificultou a possibilidade de criadores recusarem o uso de seus conteúdos sem perder acesso a serviços essenciais. A hipótese de que o Google possa “boicotar” comunicadores que não autorizem o uso de seus dados é considerada preocupante, sobretudo porque muitos sites dependem significativamente do tráfego gerado pelo Google Search.
Alegações são “imprecisas”, afirma Google
Em resposta, um porta-voz do Google afirmou que a ação movida pelos editores tem como objetivo “impedir novos recursos úteis de IA que os europeus desejam”.
“Projetamos nossos recursos de inteligência artificial para entregar conteúdo de alta qualidade na web e fornecemos controles fáceis de usar para que os usuários gerenciem o conteúdo.”
Tensões com a imprensa
A relação entre empresas de mídia e o Google não é recente e o debate já chegou a instâncias governamentais anteriormente.
Em janeiro, a Autoridade de Competição e Mercados do Reino Unido propôs um conjunto de medidas para buscar um “meio termo” na exibição de notícias resumidas por IA. Entre as propostas estava a possibilidade de os editores optarem por permitir ou não que seus conteúdos fossem utilizados no treinamento dos sistemas de IA do Google.
Ainda no Reino Unido, em dezembro de 2024, o governo apresentou um projeto de lei que permitiria a empresas de tecnologia utilizar conteúdos jornalísticos e artísticos para treinar modelos de IA sem necessidade de pagamento de direitos autorais.
A proposta gerou forte reação de empresas de mídia e também de artistas. Paul McCartney e Elton John manifestaram críticas públicas à iniciativa.

Foto: Canva
Fonte: Mediatalks
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