Publicidade
ARTIGO | O futuro será mesmo as a service?
26 de Junho de 2023

ARTIGO | O futuro será mesmo as a service?

Produzimos um volume gigantesco de informações, que requer máquinas poderosas para processar tantos dados

Com os avanços da tecnologia, especialmente na computação na nuvem, vamos evoluindo para um cenário em que “tudo será serviço”, no qual transicionamos da posse de bens para termos apenas seu uso. Isso foi mais latente no consumo de entretenimento, com plataformas como Spotify e Netflix, mas vai muito além.

Hoje, se seu escritório não tiver acesso ao Google Drive ou outra plataforma cloud, ele para de funcionar. Inúmeras startups com o modelo SaaS (Software as a Service) surgiram, como Uber, iFood, Triider, entre outros, conectando os consumidores diretamente a serviços e profissionais.

Publicidade

Apesar da facilidade que isso pode trazer no dia a dia — e de parecer uma transição inevitável —, há desafios significativos para haver um mundo cada vez mais as a service. Produzimos um volume gigantesco de informações, que requer máquinas poderosas para processar todos esses dados. Em situações críticas, a rapidez na obtenção dos resultados é crucial.

O processamento local ou servidores de borda (a chamada edge computing) são utilizados para evitar a dependência da conexão com a internet. Será necessária uma robusta infraestrutura de telecomunicações e hardware para algumas aplicações mais avançadas se tornarem realidade ou seguras o suficiente, o que pode levar anos (ou décadas) para se concretizar. É o caso, por exemplo, de veículos autônomos.

A economia real como serviço?

Falamos de dados, mas quando o assunto é economia real e bens, há outros desafios na mesa. Tomando o exemplo dos automóveis: podemos supor que as grandes locadoras de veículos passem a ser as próprias montadoras e você poderá alugar sem um intermediário. Apesar de parecer uma transição natural, é uma completa alteração do modelo de negócio das empresas.

Atualmente, há uma estrutura robusta de crédito para financiamento de automóveis para empresas ou pessoas físicas, o que permite às montadoras receberem esse capital à vista para produzir novos veículos. Mudando para o modelo de locação, teremos um novo problema: como será financiada a produção pela montadora? Hoje, isso não é empecilho: ela utiliza seu capital de giro e recebe por isso à vista na venda do carro, sendo ele financiado pelo cliente ou pago de forma integral. É um ciclo financeiro curto: a venda é finalizada, e o pagamento é recebido na totalidade na maioria das vezes.

Há inúmeras vantagens ao usuário no modelo de locação, mas um dos pontos importantes é não ter risco de crédito envolvido: ele não precisa financiar o veículo em 36 ou 48 vezes em seu próprio nome, pois a montadora assume o risco e cobra um valor mensal. Isso quebra a estrutura de crédito existente e a fabricante passa a não mais receber o pagamento à vista para produzir novos carros, mas, sim, nessas mesmas 36 ou 48 vezes.

Ou seja: o ciclo financeiro fica muito mais longo, e o volume de capital de giro necessário para transicionar entre um modelo e outro é muitas vezes maior — ficando também o risco de crédito concentrado quase que exclusivamente na montadora.

Falamos de veículos, mas quando o exemplo vai para outros bens com garantias menos robustas, como celulares, notebooks, televisores ou outros eletrodomésticos, tudo fica mais complexo. Automóveis possuem longa vida útil, mas os demais não têm tanta longevidade. Não podem ser revendidos com facilidade, não possuem a mesma liquidez e são tratados quase como descartáveis em vários casos.

Assim, um grande desafio para a economia as a service para bens tangíveis esbarra em soluções de crédito disponíveis no mercado. Remover o risco do financiamento do cliente para concentrar na empresa fornecedora (ou seus credores) exige um imenso esforço, complexas cadeias de crédito e formas de obter o working capital necessário ao fornecimento desses itens a preços acessíveis por mês.

E para o consumidor?

Você já sentiu que seu salário fica cada dia mais curto? Não é somente inflação. Há um aspecto cultural importante: a transição para modelos as a service agrega custos fixos cada vez maiores a todos. Melhoramos nosso padrão de vida, mas isso traz custos que 30 anos antes não existiam: internet de alta velocidade, planos de dados móveis, smartphones, computadores, devices (como smartwatches, Alexa, etc), streaming, softwares por assinatura (Creative Cloud, Office, GSuite etc) e também o desafio de custos “eternos”, com educação em um mundo que valoriza cada vez mais o lifelong learning.

Um mundo as a service com cada vez mais custos fixos parece reduzir nossa capacidade de acumular patrimônio. Ao mesmo tempo em que modelos por assinatura tornam custos mais acessíveis ao usuário e um menor comprometimento no curto prazo, ficamos reféns: não acumulamos bens por termos muitos custos e temos muitos custos porque não conseguimos acumular, dificultando acesso a crédito, etc.

Sem contar o risco de perda de bens que estão na nuvem em caso de indisponibilidade, disrupção, vazamento ou mesmo quebra do fornecedor. Quando o WhatsApp fica fora do ar, milhares de pessoas não conseguem trabalhar direito e se comunicar com clientes e colegas. Se uma conta corporativa do Drive for apagada, inúmeras operações serão prejudicadas.

O modelo as a service está em cheque?

Tratando-se de bens intangíveis como software ou plataformas e aplicativos, o modelo de assinatura parece um caminho sem volta. Já quando falamos de bens intangíveis, há inúmeros desafios tanto às empresas como aos usuários.

Não é um sistema condenado, mas há um longo caminho para que esse sistema alcance outros tipos de produtos. Há necessidade de evolução na infraestrutura, qualificação da segurança de redes, privacidade, modelos de financiamento e remuneração e mesmo ajustes legais, para que essa transição se dê de forma adequada. Até lá, um futuro “tudo as a service” seguirá distante de nosso dia a dia.

André Luiz Reichert é COO e partner da Razor Computadores

Foto: Freepik

WhatsApp
Junte-se a nós no WhatsApp para ficar por dentro das últimas novidades! Entre no grupo

Ao entrar neste grupo do WhatsApp, você concorda com os termos e política de privacidade aplicáveis.

    Newsletter


    Publicidade