Daqui a pouquinho, em maio, completo 40 anos de profissão.
Que coisa, ainda ontem, em Salvador, trabalhando no Othon, na praia da Ondina, recebo uma ligação (ou terá sido uma carta?) do meu primo, Paulo Tiarajú Vieira Aquino, me convidando para ser redator na Promox, em Porto Alegre.
Era 1975 e o Paulo me contava “como é difícil arrumar um redator”.
Ganhar para escrever? Aceitei no ato. Afinal, eu escrevia compulsivamente todas as noites, contos, artigos, crônicas, poesias, romances completos, sem nenhuma perspectiva ou expectativa de ganhar algum dinheiro. E agora, não mais que de repente, alguém me convidava para fazer, ganhando, o que eu fazia apenas por gosto.
Assim, em 10 de maio daquele ano, conquistei mesa, cadeira e Olivetti numa agência de publicidade.
Eu não cabia em mim de felicidade.
Ficava na mesma sala do meu primo, cabeludo, de bolsa de couro e sandália. Eu, também, tratei logo de ficar cabeludo, comprei uma bolsa de couro e sandália.
O salário era de mil cruzeiros (não lembro se velhos ou novos), talvez um terço do que eu ganhava na minha carreira de hoteleiro, iniciada no Intercontinental, no Rio.
Voltei a morar com meu pai. Velho comunista de carteirinha, não entendeu muito bem, a princípio, aquilo de que eu me iria ocupar. Escrever anúncios? Escrever roteiros de propaganda na televisão e no rádio? Eu não falava, mas pensava, vibrante: ganhei na loteria meu pai! Estou recebendo salário para escrever anúncios, quando escrevo coisas tão mais complicadas, de graça!
Qual não seria, no entanto, a minha primeira grande frustração, ao constatar, um ano depois, que não conseguira emplacar sequer um reles rodapé de jornal? Sim, o meu diretor de criação, o cara que me ensinou os primeiros passos da profissão de redator publicitário, que apostou na qualidade da matéria-prima com que moldaria o profissional, este cara, meu primo, não aprovou nada do que escrevi durante um ano inteiro.
Nunca, porém, deixou de olhar cada proposta que eu apresentava com atenção, nunca deixou de explicar o que precisaria ser corrigido, o que tinha que ser melhorado e, principalmente, quando o prazo acabava, nunca deixou de fazer melhor, muito melhor, o que eu tentava fazer.
Não nego que muitas vezes o odiei por isso. Claro, ser criativo era ser um gênio, o que aumentava em milhões de vezes a libido das colegas.
Eu ficava puto e pensava: um dia essas meninas vão implorar para me dar.
Então, recebi minha primeira proposta para mudar de agência. Mas como, haverão de perguntar, sem nenhum anúncio veiculado, sequer aprovado? Era a força da grife.
A Promox, na época, e o Paulo Tiarajú, eram referências criativas no mercado. Ter trabalhado lá, ter estado sob a batuta do meu primo, era o suficiente para que eu recebesse um convite da concorrência.
Não foi fácil lidar com isso. Uma mistura de euforia, constrangimento, espírito de vingança e sentimento de ingratidão, me acometeu no dia em que criei coragem e contei a ele. Respondeu: “acho que devias ir”.
Era a resposta que eu estava louco para ouvir, mesmo que me custasse uma fieira de argumentos. E ela veio, assim, simples e fácil.
Para mim, sair da Promox, sair do lado do meu diretor de criação, representavam a minha libertação. Nunca imaginei que a recíproca fosse verdadeira. Mas o fato é que, eu, durante um ano, vinha custando dinheiro e o trabalho não se convertia em mercadoria vendável.
Fui. E no novo emprego, todos os dias, durante um ano, escrevi, aprovei e veiculei cada linha de cada anúncio e de cada roteiro criados. Alguns péssimos, ruins de verdade. Mas o patrão esfregava as mãos de satisfação.
Então, liguei para o Paulo e pedi para voltar. Quando avisei o patrão, ele dobrou o meu salário, mas fui assim mesmo.
A questão é que eu me dava conta de que não funciona ganhar mais, baixando o nível de exigência.
Isso valia na época e, pode ter certeza, vale hoje.
Voltei para a Promox. E fiz com o Paulo Tiarajú uma bela dupla até, anos depois, deixarmos juntos a agência. Ele foi montar um projeto próprio e eu aceitei um convite da Escala, a primeira grande agência em que trabalhei, o primeiro bom salário que recebi, ainda em Porto Alegre, em 1980.
Em 1981, migrei para a DPZ, em São Paulo. Mas aí já é uma outra história.
Um dia eu conto.
