1. “Coronelzão do Norte, dos cabelos já brancos, de quase seus oitenta está visitando, de braços dados com a esposa, uma feira de touros reprodução de várias raças.”
Quando olhava o primeiro touro exposto ali na feira, o representante desse belo reprodutor, elogia o bicho.”
– Olha aqui, coroné. Este é um zebu legítimo. Esse touro cobre uma vaca todo dia sem falhar.
A mulher do coronel dá um beliscão no marido e lasca a crítica no pé de ouvido dele.”
– Tás vendo?
“Ele pigarreia disfarçando e segue pra diante pra ver o outro touro de outra raça.”
“O outro representante lá vem falar das qualidades do outro touro.”
– Vamos chegar, coroné. Veja só este nelore reprodutor. É dos bão. Esse touro cobre duas vacas por dia.
“A esposa belisca de novo e tasca e crítica:”
– Tás vendo?
Pigarro de novo e seguem para outro touro exposto”
– Este aqui, coroné, é um touro da raça Jersey, cobre três vacas por dia.
“Antes que a mulher criticasse de novo, o coronel pergunta ao vendedor:”
– Me diga uma coisa, moço. É sempre com a mesma vaca que o seu touro comparece três vezes por dia, é?
– Não coroné… com vacas diferentes… bonitas.
“O coronel pra mulher:”
– Tas vendo? (do livro Histórias de Contar o Brasil – um Carroção de causos de Rolando Boldrin).
2. Já tinha se acostumado a ver os mais diferentes tipos de gente entrando e saindo de Varginha. Quando o povo da cidade o transformou em estátua ficou incomodado, mas depois começou a gostar. Viu que era divertido apreciar aquilo.
Aquele cara, porém, impressionou-o. O sujeito encostou o carro, caminhou até ele, sentou-se nos seus pés e desatou um choro sentido.
Teve vontade de ajudá-lo.
“O que há você, companheiro?”
O cara tomou um susto.
“Uma estátua que fala?” perguntou-se.
“Calma, companheiro”, disse o ET, à medida em que se livrava do cimento que o imobilizava.
“Puseram-se aqui, aqui fiquei porque é divertido e por preguiça, mas vendo seu estado, resolvi tentar ajudá-lo.”
“Não tem jeito, tentei de tudo, não teve jeito. Você, um simples ET, com essa cara esquisita é que não vai conseguir mesmo.”
“Mas eu quero tentar, você não perderá nada com isso. Como se diz lá no meu planeta, perdido por perdido, truco.”
O cara concordou e começou a se explicar.
3.“Sou um publicitário fracassado. Estudo, estudo, pesquiso, mas quando falo com as pessoas, elas riem, não me dão a menor pelota.”
“Vai ver, você não é suficientemente claro.”
“Vamos fazer um teste?”
O ET nem respondeu. Fez um gesto e como em um passe de mágica lá estavam eles diante de um anunciante, o cara explicando o novo momento da comunicação e indicando novos caminhos. O ET, invisível naquele momento, assistindo a cena.
O cara terminou a explicação para o anunciante que, pateta, limitou-se a dizer:
“Não entendi nada. Esta reunião é pura perda de tempo”.
E deu as costas.
Desanimado, o cara olhou para o ET que só ele via, e lascou:
“Tás vendo?”
4. Mas o ET não desanimou:
“Tem mais alguém com quem você possa conversar¿”
“Tem, com meus colegas publicitários.”
Outro gesto do ET e lá estavam eles em uma roda de publicitários. A conversa, como sempre acontece quando mais de um publicitário se junta, era sobre publicidade.
Assim, não foi difícil para o cara se enfiar no papo. O assunto, claro, era o novo momento que a comunicação está vivendo.
Ele falou, falou, falou, até que percebeu: estava sozinho. Desinteressados, os publicitários foram se afastando. Um a um. Então, ele se virou para o ET, e disse:
“Tás vendo?”
5. Outro gesto do ET e no mesmo instante estavam de volt na entrada de Varginha, o ET se tornando estátua novamente. O cara, aflito, perguntou
“Ué, você não vai me ajudar?”
“Não tem jeito, tas vendo?”
