A publicidade aqui anda tão chinfrim e a crise econômica vai tão bem que, em meus últimos artigos, quase por inércia, acabo escrevendo mais sobre o segundo tema do que sobre o primeiro. É natural. Além do mais, acho que pode ser de interesse do público brasileiro saber alguns causos mais particulares sobre a crise espanhola. São detalhes que a mídia daí provavelmente não aborda.
Antes de começar, quero ressaltar que a Espanha continua me parecendo um país espetacularmente rico e belo. Outra coisa: podem ter certeza de que uma Espanha em crise ainda funciona melhor do que um Brasil em evolução econômica. Os serviços sociais aqui estão sendo desmantelados pouco a pouco, enquanto os nossos nunca sequer chegaram a funcionar. Resumindo, nisso de crise e de má qualidade política e econômica nós ainda estamos à frente. Digo isso pra que nenhum brasileiro mais empolgadinho venha botando banca pra cima dos espanhóis, utilizando, por exemplo, esse papinho-meio-furado de sexta economia mundial e outros argumentos difíceis de engolir. Feita a ressalva, sigamos.
As greves aqui estão pipocando em tamanha profusão que os telejornais não dão conta de noticiar todas elas. Semana passada foram os lixeiros que pararam em Madri. Três dias de greve foram suficientes pra deixar a rua do meu prédio – e muitas outras por toda a cidade – tomada por sacos de lixo, impedindo inclusive a passagem dos carros e gerando uma confusão que o leitor pode imaginar. Em outras cidades espanholas foi pior. Em Jeréz, por exemplo, a greve dos lixeiros durou mais de vinte dias e a população, indignada com o mau cheiro e com o surgimento de ratos e outros bichinhos nada simpáticos, começou a queimar não apenas as montanhas de sacos de lixo, mas também carros, orelhões e outros aparelhos públicos. Caos.

Nesta segunda-feira senti na pele uma vez mais os efeitos da crise. Eu e uma de minhas filhas tínhamos hora marcada com sua pediatra às 9h. Chegando ao posto de saúde, vejo cartazes convocando greve dos serviços médicos. Então me informam que dos cerca de dez pediatras do Centro havia apenas uma doutora atendendo. Passamos toda a manhã esperando até que a médica pudesse ver minha pequena. Na sala de espera, pais e mães indignados começavam a armar o alvoroço. O clima anda pesado por aqui. Detalhe: a pediatra que por fim nos atendeu estava também a favor da greve, mas havia sido escolhida para cumprir os serviços mínimos do posto. No dia seguinte, nem ela iria trabalhar. Outro detalhe: a indignação dos pais não era com o posto de saúde nem com os médicos. Era, obviamente, com o governo.
Governo que, aliás, vem atuando de forma retrógrada não somente na área econômica, mas também na social. Já ouvi da boca de espanhóis que às vezes dá a sensação de que Franco ressurgiu das cinzas. Acaba de entrar em vigor em Madri norma que proíbe o consumo de bebidas alcoólicas na rua. Eu que muitas vezes comprava uma latinha de cerva e vinha bebendo pela calçada enquanto caminhava de volta a casa, principalmente no verão, terei que mudar meus hábitos. O filho de uma amiga, maior de dezoito anos, recebeu multa de 600 Euros (uns 1.500 Reais) por estar na rua com seus amigos segurando um copo de plástico contendo bebida alcoólica, isso porque era sábado à noite e ele estava em um bairro tradicional da boemia madrilenha, cheio de bares e casas noturnas. Agora, não pode. Madri e toda a Espanha se tornam mais tristes a cada dia.

Pra não dizer que não falei de publicidade, termino este artigo com um anúncio de tevê engraçadinho, embora não seja lá a fina flor. Diz que “Os anos 80 eram legais, mas somente na música”, dando a entender que carro antigo não tá com nada e que bom negócio mesmo é comprar um Citroën. Vale pela musiquinha divertida e pela cara do figura que dirige a lata velha, que até me lembrou o camarada Jean Mafra, músico, articulista e cabeça pensante de Florianópolis. Vejamos a peça, porque sorrir é preciso.
