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ARTIGO | A escassez de pessoas negras em campanhas e eventos publicitários
12 de Junho de 2023

ARTIGO | A escassez de pessoas negras em campanhas e eventos publicitários

Quando vamos ter mais protagonistas negros em campanhas de grandes marcas?

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Depois de 3 dias fazendo a cobertura do Festival Mundial de Publicidade de Gramado – evento este que me trouxe alguns insights acerca do mercado publicitário e também skills necessárias para suprir as necessidades dos clientes – é hora de ir além e mostrar a importância do serviço social da publicidade para a sociedade.

Afinal, quantos influenciadores negros marcam presença em eventos relevantes para a publicidade, marketing ou para o empreendedorismo, por exemplo? Quantos palestrantes negros sobem aos palcos e compartilham seus conhecimentos e/ou histórias de vida com os espectadores?

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Aqui neste artigo serão expostos alguns assuntos que foram abordados durante uma entrevista com Kamila Camilo, influenciadora, fundadora do projeto Creators Academy e ativista ambiental; e também Julio Beltrão, considerado em 2021, pela Forbes, como um jovem de até 30 anos que se destacou em 15 setores, dentro e fora do país. Além disso, Beltrão também é diretor artístico da Mynd, maior agência de entretenimento e marketing de influência da América Latina e embaixador da Budweiser Brasil.

Diversos palestrantes mencionaram que a criatividade se faz necessária no ambiente publicitário, entretanto, poucos falaram que para ser criativo é necessário não se preocupar com dívidas ativas e com outros problemas socioeconômicos, por exemplo. Devemos pensar em criatividade, mas também ter em mente um viés mais social.

Como uma pessoa negra periférica que nunca teve a oportunidade de trabalhar com publicidade vai ganhar notoriedade por alguma empresa ou um recrutador? Como essa mesma pessoa, sem experiência, vai conseguir uma vaga de emprego a qual um dos requisitos obrigatórios seja a criatividade e a tal experiência profissional? Como ela irá desenvolver habilidade em ser criativa se o foco principal de milhares de negros no Brasil é se preocupar com a falta de saneamento básico, de alimento em casa, com a escassez de projetos sociais que viabilizem o seu crescimento como ser humano e com o racismo sofrido diariamente?

Segundo Kamila Camilo, “devemos garantir aquilo que nos dá paz. As suas contas precisam estar pagas, porque se a gente está preocupada em pagar dívida, a gente não consegue ser criativo, a gente não consegue desenvolver um negócio melhor, a gente não consegue entregar soluções que façam sentido para os nossos clientes. Também devemos aprender a aprender. Ou seja, para ser um negócio ou uma pessoa a prova de futuro, a gente precisa estar muito conectada, não só com o que o mundo está precisando, mas sobretudo com que as pessoas que a gente quer falar estão precisando. A lógica da comunicação hoje é a lógica de criar demanda em cima da escassez. O convite que eu faço para as pessoas é, vamos resolver problema mesmo, vamos olhar para as necessidades reais das pessoas, resolver essas necessidades e quando esse problema sumir ela vai ter outro problema para você vender um novo produto e se superar. E aí eu acho que nesse caso o serviço social da publicidade para esses negócios é um ajudar a estruturar a mensagem e contar a história real que a gente quer contar. Ela tem um papel fundamental de não nos deixar cair naquela sedução de mentir e enganar o nosso cliente”, ressalta.

Segundo o diretor artístico da Mynd, Julio Beltrão, o papel da publicidade é sim moldar a sociedade. Porém, todos nós devemos começar a usá-la a favor de mudanças que façam uma verdadeira mudança no dia a dia das pessoas.

“Diversas agências falam sobre diversidade e, realmente, devemos continuar falando sobre produtos, sobre serviços, mas também devemos começar a pensar na diferenciação do dia a dia, como a gente pode mudar de verdade essa esfera e esse mundo que a gente vive hoje. Hoje a gente está deixando de vender produtos e serviços para que a gente possa vender uma missão. Antigamente a gente entrava na universidade, a gente aprendia a tal da missão, visão e valores, que era um papel que ficava preso numa parede na sala do diretor. Hoje, não mais. A Coca-Cola tem sua missão. Ela deixa de vender um refrigerante para vender uma ideologia. A Disney tem sua missão. Então, o que a gente passa a ter no mercado é a diferenciação de o que vai fazer com que o meu produto, por exemplo, um refrigerante, seja diferente do mesmo refrigerante que está do mesmo lado da minha prateleira. Devemos ter uma missão muito clara. Qual é a sua missão? Qual é a sua sinergia? Qual a sua sinergia com criadores? Qual que é a sua sinergia com o público final? Quais são as causas que você defende? Quais são as causas que você embasa com sua grande e gigantesca marca?”, pontua o embaixador da Budweiser.

Hoje quando ligamos a televisão para assistir jornal ou novela, por exemplo, sempre nos deparamos com propagandas e, em sua maioria, protagonizadas por pessoas brancas. Por que os negros ainda continuam sendo minorias em tais meios publicitários? Qual o motivo?

Beltrão afirma que, “A inclusão de pessoas negras no meio publicitário é de extrema importância por diversas razões. Em primeiro lugar, a publicidade desempenha um papel significativo na formação de opiniões, na construção de estereótipos e na definição do que é considerado ‘normal’ ou ‘aceitável’ pela sociedade. Portanto, é fundamental que a publicidade seja diversa e representativa, refletindo a realidade da população e promovendo a inclusão de todos os grupos étnicos. A presença de pessoas negras na mídia é importante para combater a sub-representação histórica e o estereótipo de que o sucesso, a beleza e a habilidade estão associados apenas a pessoas brancas. Quando as pessoas negras estão presentes na publicidade, elas se tornam modelos positivos para outras pessoas negras, promovendo a autoestima, a identificação e a inspiração”, conclui.

Camilo vê um aumento expressivo nas campanhas protagonizadas por pessoas negras, ao mesmo tempo que, “já ouço de pessoas do mercado dizendo ter clientes perguntando ‘se podem ter pessoas normais novamente’, então, minha resposta é que não temos o suficiente. Ter pessoas negras estrelando campanha é um passo, precisamos de mãos criativas, mais pessoas negras na direção de arte e na produção audiovisual. Diversidade é asset para todas as etapas da cadeia de valor dessa indústria”, finaliza.

Os temas diversidade e criatividade foram muito abordados no Festival Mundial de Publicidade de Gramado 2023, porém, ressalto ainda que, apenas cerca de 25% dos palestrantes eram negros, nesta edição.

Quando realmente vamos ter mais protagonistas negros em campanhas de grandes marcas brasileiras? Quando veremos mais pessoas negras e periféricas estampando capas de revistas ou divulgando seu produto/marca no intervalo do jornal de maior audiência do país?

Enquanto isso não ocorre, vamos continuar presenciando notícias de seguranças que espancam negros dentro de supermercados e com uma nota de repúdio da empresa dizendo que, “Metade dos nossos 150 mil colaboradores são negros”. Vamos continuar presenciando notícias acerca de vinícolas – com um faturamento de R$265 milhões no último ano (2022) – que fazem o uso de trabalho análogo à escravidão e divulgam uma simples nota para a imprensa dizendo que não sabiam do ocorrido.

Estamos em 2023 e tenho a certeza de que ainda vamos continuar presenciando pessoas brancas atravessando à rua ao se deparar com um negro e considerado “suspeito”. Vamos ver muitos negros serem agredidos e também muitas empresas deixando de contratá-los pelo fato de “você não se encaixa no perfil que estamos procurando”.

Por outro lado, veremos também muitos negros sendo protagonistas de campanhas publicitárias e marcando presença em grandes eventos relevantes para a sociedade. Veremos muitos deles sendo inspiração para as crianças da periferia e ensinando-os a terem um olhar transcendente a todos os problemas que englobam a nossa sociedade contemporânea.

Entretanto, mesmo diante de todas as adversidades, do preconceito e da exclusão dentro da sociedade, continuaremos a ser quem somos, com muito orgulho: negros…para sempre!

 

 

Artigo escrito por Zacarias John, jornalista do portal Acontecendo Aqui, especialista em Comunicação, Liderança e Gestão de Pessoas e também pós-graduado em Docência para o Ensino Superior.

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