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SÉRIE “Os desafios e o legado da pandemia”, por Ligia Fascioni, engenheira e palestrante baseada em Berlim
17 de Novembro de 2020

SÉRIE “Os desafios e o legado da pandemia”, por Ligia Fascioni, engenheira e palestrante baseada em Berlim

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Aqui em Berlim a coisa está um pouco tensa; com a segunda onda da pandemia, um lockdown light foi determinado pelo governo a partir de segunda-feira com reavaliação daqui a um mês.

 

Em março, quando foi deflagrada a primeira versão do confinamento, no início da pandemia, todos os estabelecimentos comerciais fecharam. As exceções foram as farmácias e supermercados; as pessoas foram orientadas a não sair de casa, exceto quando extremamente necessário.

 

Foi uma das primaveras mais tristes que passei aqui. As cerejeiras florindo, a natureza revivendo depois de um longo inverno, e as pessoas trancadas em casa, tensas e preocupadas, sem poder desfrutar desse momento esperado por tanto tempo. Mas o remédio amargo funcionou. Após três meses de confinamento, os índices de contaminação diminuíram.

 

E essa foi a perdição, pois todo mundo relaxou como se tudo já estivesse mais ou menos resolvido. Foram festas, reuniões, comemorações (mesmo com limitação do número de pessoas) e as tão ansiadas férias de verão. E alemão anseia, precisa, carece de viajar nas férias; é quase um rito nessa cultura, uma necessidade básica e essencial. Dentro ou fora do país, é preciso sair para ver o mundo com os próprios olhos. Pois o povo se jogou na estrada de mala e cuia como se não houvesse amanhã e o resultado é essa segunda onda que ameaça não somente vidas, mas também as feiras de natal (outra instituição quase sagrada).

 

O governo aqui está muito preocupado com os números: desde o início da pandemia, cerca de 10 mil pessoas morreram em todo o território alemão (lembrando que a Alemanha tem quase metade da população do Brasil). Em Berlim, quase 13% das vagas de UTI estão ocupadas com pacientes portadores de Covid e isso é motivo de grande apreensão. A taxa de novas infecções por 100 mil habitantes na última semana chegou a 155,6; mais alta que na primeira fase da pandemia.

 

Como esperado, as medidas de contenção do contágio estão sendo criticadas; a principal questão é o fechamento de restaurantes, cinemas e teatros, em detrimento da manutenção das aulas para crianças e adolescentes, já que essas últimas estão sendo consideradas prioridade máxima (também não entendo muito bem o motivo). É uma equação bem complexa de se resolver; como em todos lugar, há interesses em jogo.

 

Mas uma coisa que me deixa feliz é a seriedade com que o governo trata a ciência; nos portais do governo há todas as informações sobre o atual estágio da  vacina, seus vários tipos e linhas de pesquisa, perguntas e respostas mais comuns, o método de desenvolvimento e as várias etapas bem explicadas, os tipos de testes que já foram e ainda serão feitos. Eles desmontam todas as teorias conspiratórias e fake news com respostas simples e diretas dadas por infectologistas respeitados (link aqui). É claro que isso não impede a proliferação alarmante de negacionistas, pois lógica e informação não são referências para eles; histórias fantasiosas são sempre mais interessantes para esse povo que acredita na terra plana, mas usa GPS.

 

Enfim; a ciência e o governo trabalhando de maneira transparente para o benefício e a segurança dos cidadãos (tem sempre um representante do Instituto presente nas falas públicas e entrevistas coletivas da Chanceler Angela Merkel), o que dá uma certa tranquilidade que pelos menos as decisões estão sendo tomadas com alguma base científica.

 

Também há uma comissão oficial formada por cientistas que orienta as ações do governo; eles já desenharam, inclusive, um plano estratégico de distribuição para aplicar quando a vacina estiver disponível. Grupos de risco e pessoas mais expostas ao vírus, como trabalhadores da saúde, terão prioridade. Todas as informações sobre a comissão podem ser acessadas por qualquer cidadão aqui.

 

Sobre a economia, o PIB aumentou 8,2% no terceiro trimestre (entre julho e setembro) em relação ao anterior (abril a junho). Mesmo com a recuperação governo estima que a queda total do PIB será 5,5% em 2020 em relação a 2019. Há vários projetos de ajuda para pequenos empreendedores e para a população em geral, mas é claro que o baque será grande. Por mais que se faça, é difícil evitar a crise. De qualquer maneira, espero que o superávit obtido nos anos anteriores consiga dar conta desses meses difíceis que ainda virão.

 

Estou aqui na torcida para a vacina chegar logo. Improvável que chegue antes do natal, mas sonhar não custa, né?

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