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Você também é jornalista?
12 de Abril de 2011

Você também é jornalista?

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Hoje, 7, dia do jornalismo.

por Laudelino José Sardá*
 
Um administrador recém-formado perguntou a um empresário, de 78 anos, por que ele não contratava um gestor profissional para dar sangue novo à sua organização. O experiente senhor, de calos nas mãos, foi incisivo: “o novo pode não entender o velho que eu soube construir com alma e destemor”.
 
O velho jornalista teme o novo tecnológico, enquanto o novo jornalista não quer saber do velho jornalismo, notório pela qualidade do texto e teimoso no questionamento dos fatos.
 
O jornalismo pré-tecnológico era avesso à pressa, em razão de se preocupar com o texto harmonioso, exemplar e atrativo. A preocupação em cobrir os últimos fatos do dia igualava-se à inquietação com o ineditismo da grande reportagem, que tanto focava um acontecimento importante como transformava um pequeno episódio – como, por exemplo, uma senhora de 90 anos pedindo esmola – em uma obra literária. Esse era o jornalismo paciente, que esperava mais de 10 minutos para uma notícia de agências nacionais e internacionais, de apenas 30 linhas, se completar nas longas fitas de papel do telex. Hoje, em 10 minutos, há centenas de notícias na internet.
 
Sim, ponderaria o leitor, mas hoje há milhares de informações que precisam ser divulgadas.
 
Será mesmo?
 
O jornalismo tem que estar na velocidade da informação? A instantaneidade é sinônimo de jornalismo moderno?
 
A avalanche de informações estimula a neurose jornalística e, assim, sites e jornais vivem preocupados em concorrer com o cidadão que dispara no twitter um acidente que acabara de presenciar. O jornalismo quer comandar a mídia social, esse oceano onde todo mundo tem direito a mergulhar, pescar e tornar prazerosa qualquer outra atividade. Twittar uma informação de primeira mão, como a surpresa de ver Paul McCartney no aeroporto de Londres, não é jornalismo e sim fazer valer a ansiedade de comunicar algo com a rapidez estimulada pela tecnologia. É a vontade de conversar, como antigamente se percorria a rua principal da cidade para fofocar ou alimentar discurso com amigos.
 
O bom jornalista, por sua vez, não se preocuparia em apenas assinalar a presença distante de McCartney, mas, quem sabe, correr para ouvir dele a confirmação do seu show no Rio de Janeiro ainda este ano. No bamboleio da informação e da interatividade, o cidadão cultiva o seu prazer e a ansiedade. E o jornalista? Também! Parece tornar a profissão um trampolim para estar dedilhando e se encontrar no mundo da cibernética. É esse o papel do jornalismo?
 
O jornalista não larga a telinha do computador, nem mesmo para olhar nos olhos do entrevistado, que ele prefere ouvir pelo messenger, facebook ou com perguntinhas banais por e-mail. Não há mais questionamento. A fonte de informação é um emissor passivo, livre de admoestações do jornalista.
 
A esquizofrenia da velocidade está levando o jornalista a competir com a ansiedade do cidadão tecnológico. E nisso predomina o alto risco de tornar comum a pergunta: “você também se acha um jornalista?”
 
Ora, nessa vala comum do cenário de neurastenia virtual, o jornalista precisa se desacelerar, imunizar-se contra a febre da instantaneidade, que torna hilário o comportamento do ser humano no carro, metrô, ônibus, nas ruas, cinema, restaurantes, onde o ser humano fixa olhos na pequena maquininha e não enxerga mais ninguém, nem mesmo o amigo que corta a sua frente. E nesse tic-tac entre o flash do pensamento descartável e o dedilhar do teclado, o jornalista vê o tempo disparar sem perceber que a sua profissão se dissipa no deserto da informação, trazida e levada pelo vento aleatório.
 
O jornalismo precisa alimentar e enriquecer o diferencial da notícia em relação às informações que circulam aos milhares na mídia social. E esse diferencial é a fundamentação da informação, a atratividade de um bom texto e, sobretudo, a boa pauta capaz de transformar fatos cotidianos, episódios, cenas políticas em reportagens interessantes. Ou seja, o jornalista precisa despreocupar-se com o fato instantâneo e descartável e trabalhar uma boa pauta.
 
E as novas gerações cibernéticas querem saber de texto jornalístico elegante? O jornalista deveria ser o último a duvidar disso, sob pena de armar-se com esse falso argumento para banalizar o seu próprio texto.
 
O Dia do Jornalismo, hoje, 7, não deixa de ser um ótimo momento para uma profunda reflexão. A propósito, você jornalista se considera um cidadão tecnológico ou ainda um jornalista? Qual a nota que você dá para o seu texto?
 
COMENTÁRIOS
 
Carolina Castro 4 dias atrás
Genial!
 
———————–
 
Ana Cristina Lavratti
Eterno mestre Sardá… Sábias palavras…
 
———————–
 
suellen campos
Ótimo texto, mas acredite nos jornalistas jovens nos formamos pensando nesse jornalismo hoje "antigo".
Triste situação.
Parabéns pela reflexão
 
———————–
 
Vanessa Pinho
Qual a nota que você dá para o seu texto?
Acho que todos os “jornalistas” deveriam parar de twittar nesse momento e se fazer a mesma pergunta.
Sobre seu texto, minha nota é 10.
 
Abraço.

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