A maioria das pessoas defende a liberdade sem nunca ter conhecido seu significado prático. Muitas das pessoas que no mês de janeiro se sensibilizaram com o atentado na França que massacrou doze pessoas e deixou outras cinco gravemente feridas no jornal satírico Charlie Hebdo, foram as mesmas que apoiaram o atentado de duas mulheres a uma campanha da Skol no carnaval que tinha como mote “esqueça o não em casa”, convidando as pessoas a aproveitarem a vida. É fácil defender a liberdade de expressão na França, desde que ela não atravesse o Atlântico. É fácil condenar os tiros dados pelo Estado Islâmico como resposta ao suposto insulto aos muçulmanos, enquanto se censura com fita isolante uma peça publicitária em terras tupiniquins, cuja conotação nada tinha de pejorativo ou ofensivo.
Acaso o direito de brincar, de fazer um duplo sentido com as palavras, de deixar a interpretação à livre imaginação e ao bom senso e à inocência das pessoas têm mais valor na França do que no Brasil? Ou o fundamentalismo pode ser atribuído somente àqueles que dão tiros para demonstrar seu descontentamento com uma sátira e não vale para os que usam fita isolante? Ah, mas alguns não interpretariam a mensagem da mesma maneira que o publicitário e, como disse uma das ativistas autoras do atentado à campanha, na época do carnaval o índice de estupro “sobe pra caramba”. Quanto representa “pra caramba” estatisticamente? Alguém foi conferir antes de aplaudir a iniciativa? Estes estupros não aconteciam antes da campanha ou deixaram de acontecer depois da ação das ativistas? A propaganda é causa dos estupros ou vamos debitar nela toda a responsabilidade?
Por mais que eu não concorde com aquilo que você diga, você tem total liberdade de dizer, como dizia Voltaire. Portanto, não sejamos demagógicos com a liberdade de pensamento e expressão e nem sejamos intolerantes apenas porque não admitimos aquilo que nos desagrada. Particularmente, considero menos ofensiva a campanha da cervejaria do que a as charges do Charlie Hebdo, mas isso não me dá o direito de entrar na redação daquele pasquim e tirar a vida de quem quer seja em nome dos meus ideais. Por mais que você não admita, utilize o preceito da liberdade de assumir a responsabilidade pela própria vida, acreditando na racionalidade e na consciência. Dessa forma, se eu você não autoriza, busque amparo nas leis. Maior pena do que uma decisão judicial, no entanto, será o desprezo do consumidor. Se você discorda, não compre, não leia, não assista, não comente e não consuma.
Se a liberdade de pensamento e expressão não incluem o direito a gritar fogo em um teatro lotado, também não autorizam a abertura das mangueiras de combate às chamas antes que elas iniciem. O maior perigo à liberdade e à livre manifestação de pensamento não está no que se diz, mas naquilo que poucos bem-intencionados impedem de dizer sob o argumento de proteger minorias. Da mesma forma, você pode não concordar com o meu posicionamento e tem todo o direito de fazê-lo e dizê-lo. Isso é liberdade de expressão e abrange o próprio conceito de liberdade, que garante o direito de fazer a sua escolha e arcar com as suas consequências. Ser estúpido foi a decisão dos assassinos na França para matar a liberdade de terceiros, mas eu prefiro ser Je Suis Charlie na França, aqui ou na Coréia do Norte do que silenciar qualquer coisa, mesmo que seja uma tolice.
