Saúde e Psicopatologia no Trabalho: 2ª parte da entrevista com Maria do Rosário Stotz
01 de Junho de 2012

Saúde e Psicopatologia no Trabalho: 2ª parte da entrevista com Maria do Rosário Stotz

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Dando continuidade ao tema "Saúde e Psicopatologias no Trabalho", segue a segunda parte da entrevista com a Dra. Maria do Rosário Stotz, psicóloga, Diretora da Editora da Unisul (Universidade do Sul de Santa Catarina), instituição em que leciona as disciplinas de Teoria Psicanalítica e Psicopatologia. Caso você queira estabelecer um contato direto com ela, envie um email para [email protected].

 
Marcucci: Sobre os problemas que nos afligem nos dias de hoje a respeito do trabalho, precisamos entender um dos conceitos apontados como o mais importante na obra de Dejours: o de sofrimento.
 
Maria do Rosário: Este é um conceito chave. O sofrimento começa quando não é mais possível o rearranjo entre a relação do trabalhador com a organização do trabalho, há um acúmulo de energia pulsional que não acha descarga no trabalho e se acumula no aparelho psíquico, gerando desprazer e tensão. Após um tempo esta energia acumulada recua para o corpo, expressando-se aparentemente como angústia e agressividade.
 
Neste sentido, para Dejours, o sofrimento implica em um estado de luta do sujeito contra as forças ligadas à organização do trabalho que o empurram em direção à doença mental, e que inicialmente era concebido como evolução natural para a doença.
 
Marcucci: Percebo que é cada vez mais importante pesquisar a relação entre trabalho e saúde mental, se levarmos em consideração o estado caótico e de extremo sofrimento que surge nos trabalhadores. Estou enganado ou minha percepção aponta para a busca emergencial de soluções no quesito saúde?
 
Rosário: Sem dúvida. É necessário cada vez mais investigar no trabalho a dimensão organizacional, as divisões das tarefas, as relações de produção e também levar em conta a relação social, deste modo, analisando sempre o singular e o coletivo. A psicodinâmica do trabalho investiga a relação do sujeito com a organização do trabalho, sendo que a organização do trabalho é entendida como uma relação socialmente construída, portanto, o sujeito é estudado em suas relações com a coletividade.
 
Marcucci: Não há muita expectativa do sujeito em relação ao trabalho, o que pode causar certa frustração quando não correspondida?
 
Rosário: Sim. O sujeito em sua relação com o trabalho pensa e interpreta a organização do trabalho, suas condições e características dividem suas percepções com seus pares e é capaz de reagir e realizar o trabalho. Estas experiências, o vivenciado e as condutas são fundamentalmente organizados pelo sentido que os sujeitos atribuem à sua relação no trabalho. É assim que o sentido encontrado no trabalho tem a ver com a sua história anterior, com a possibilidade de fazer ou não ressonância com suas experiências passadas, é justamente essa história que viabiliza sua relação atual com o trabalho.
 
Trata-se de um sujeito marcado por suas relações passadas com seus pais, mas que vai se transformando em decorrência da confrontação com a situação real e em particular com o trabalho. O sujeito frente à organização interpreta suas possibilidades de atuação.
 
Marcucci: Podemos então dizer que cada pessoa vai dar um significado para o trabalho e que isso é importante inclusive para que ela mesma escolha, quais os novos desafios profissionais que virão pela frente;
 
Rosário: Assinala-se assim a importância de um sentido do trabalho na vida mental do trabalhador. A partir do trabalho, o sofrimento pode adquirir um sentido, assim como a sublimação exercida no trabalho também possibilita o reconhecimento, a identidade e o sentido. Desta forma, o sentido afasta o sofrimento porque em contrapartida à repetição (ressurgimento do sofrimento) ele dá acesso a uma nova história (a experiência vivida): cada inovação é diferente das outras.
 
Dessa forma, o sofrimento transformado em criatividade contribui para a manutenção da identidade, aumenta a resistência do sujeito ao risco de desestabilização psíquica e somática, sendo o trabalho um facilitador e um mediador para a saúde.
 
Enfim, o trabalho é favorável ao equilíbrio mental e à saúde do corpo quando as exigências intelectuais, motoras ou psicossensoriais da tarefa estão, especificamente, de tal maneira que o simples exercício da tarefa dê origem a uma descarga e a um prazer de funcionar.
 
 
Assista o depoimento em vídeo da Dra. Maria do Rosário Stotz:
 

 

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