Pesquisa aponta que 68% das pessoas acreditam que o voto influencia as decisões governamentais.
No entanto, apenas 31% sentem que o sistema político permite que pessoas como elas tenham voz.
por Lúcia Helena Vieira*
A confiança sempre esteve no centro da relação entre instituições e sociedade. O que o relatório mais recente da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico, a OCDE, ajuda a demonstrar, com dados, é que ela também é uma dimensão concreta da qualidade da gestão pública.
Publicado em 29 de junho de 2026, o OECD Survey on Drivers of Trust in Public Institutions 2026 Results apresenta a terceira rodada da pesquisa internacional sobre os fatores que influenciam a confiança nas instituições públicas. O levantamento reúne dados de 38 países.
O dado central é expressivo: nos países pesquisados, 40% das pessoas declaram confiar no governo nacional. Ao mesmo tempo, 43% dizem ter baixa ou nenhuma confiança. Ou seja, a confiança institucional não aparece como um patrimônio consolidado, mas como um campo em disputa permanente.
Essa constatação importa porque instituições desacreditadas têm mais dificuldade para implementar políticas, explicar decisões, mobilizar apoio e sustentar medidas difíceis. Quando a confiança é baixa, até ações corretas podem ser recebidas com suspeita. Quando a credibilidade é frágil, a informação oficial perde força. Quando a sociedade não se sente ouvida, a gestão passa a operar sob desconfiança.
Um dos pontos mais relevantes do relatório está justamente na relação entre confiança e participação. Segundo a OCDE, 68% das pessoas acreditam que o voto influencia as decisões governamentais. No entanto, apenas 31% sentem que o sistema político permite que pessoas como elas tenham voz.
A distância entre esses dois números é reveladora.
Ela mostra que votar continua sendo percebido como importante, mas já não basta para que o cidadão se sinta efetivamente ouvido. Não se trata apenas de abrir canais formais, mas de fazer com que a escuta tenha algum efeito sobre decisões, prioridades e políticas públicas.
O Government at a Glance 2025, também da OCDE, ajuda a ampliar essa leitura. O relatório mostra que a confiança nas instituições públicas é influenciada por vários fatores combinados. Entre eles estão a expectativa de que as instituições sejam confiáveis e responsivas na formulação e implementação de políticas e serviços, além da percepção de que atuam com justiça, integridade e abertura.
A confiança, portanto, não depende de uma única entrega, de uma boa notícia, de uma campanha ou de uma explicação posterior. Ela se forma na soma de experiências que as pessoas têm com as instituições: no atendimento que recebem, na clareza das informações, na coerência das decisões, no tratamento justo, na proteção de dados, na qualidade dos serviços e na possibilidade real de serem ouvidas.
É nesse ponto que gestão e comunicação institucional se encontram.
Não porque comunicação substitua gestão. Não substitui. Não corrige falta de entrega, não encobre incoerência e não fabrica confiança onde não há responsabilidade. Mas gestão também não se sustenta sem capacidade de explicar, prestar contas e tornar suas decisões compreensíveis.
A gestão define o que a instituição faz. A comunicação ajuda a explicar por que faz, como faz, para quem faz, com quais limites, resultados e responsabilidades.
Quando trabalham juntas, a comunicação deixa de ser apenas etapa final de divulgação e passa a integrar a própria estratégia institucional. Ajuda a antecipar dúvidas, identificar públicos, organizar informações, traduzir dados, reconhecer limites e prestar contas de forma mais clara.
No fim, instituições são julgadas não apenas pelo que fazem, nem apenas pelo que dizem. São julgadas pela distância — ou pela proximidade — entre o que prometem, entregam, explicam e sustentam diante da sociedade.
Imagem em destaque: Criada pela autora do artigo com apoio da Chat GPT
*Lúcia Helena Vieira – Jornalista e Consultora em Comunicação. Vice-presidente da Associação Catarinense de Imprensa-ACI

