1. O caipira estava sentado na calçada, pitando distraidamente o cigarro de palha quando a CRV parou bem na frente dele. O granfino abriu a janela do carro e disparou:
“Estou vendo este baita descampado aí na frente,abandonado, de queria saber: não dá pra plantar café aí?”
O caipira, entre uma baforada e outra, não se abalou:
“Não, num dá.”
“E algodão?”
“Algodão? Não, num dá.”
“Nem milho?”
“Tumbém num dá.”
“E arroz?”
“Arroz num dá, não.”
“E feijão?”
“Feijão tumbém num dá.”
“Então aqui não dá pra plantar nada?”
O caipira tirou o chapéu, coçou, desconfiado a cabeça, deu uma cusparada, e respondeu:
“Prantano?Bão, prantano dá.”(Contado por Rolando Boldrin, no Senhor Brsail da TV Cultura, e recontado por mim do meu jeito)
2. Não tive a sorte de nascer aqui. Sou paulista de Cachoeira Paulista e vivo em Floripa há pouco mais de 20 anos. Tempo de sobra para aprender a amar esta ilha.
Nesse tempo todo, perdi o número de vezes em que fui ao Castelmar para buscar meus amigos e apresentá-la para eles. Por incrível que pareça, cometi o grave pecado de não me dar conta do Parque da Luz, bem em frente.
Chego, desço de carro, vou até o Hotel, pego meus amigos e saio com eles por aí.
3. Outro dia Deborah, milha mulher, me puxou pelo braço, e convidou, do jeito de quem está mandando:
“Vamos até o Parque da Luz comigo?”
Nem perguntei por que ou pra que. Fui.
Deborah é estudante do Curso de Arquitetura e Urbanismo da Unisul e está desenvolvendo um projeto para o lugar. Até então, eu não conseguia compreender porque se preocupar com uma coisa tão insignificante.
4. Não é
Caminhando pelo lugar, fiquei duplamente surpreso. Primeiro, pela beleza e riqueza do lugar. Segundo, pelo abandono, sobretudo porque a Floram está instalada lá. Naquele dia, por exemplo, um domingo, topamos com gente fazendo livremente o tráfego (ou consumo?) de tóxicos.
Daí em diante, comecei a prestar a atenção nos pronunciamentos dos candidatos à prefeitura e à Câmara Municipal. Não ouvi uma só referência ao Parque da Luz.
Fico com a impressão de que são o caipira cuja história contei lá em cima. E, dando de ombros, dizem:
“Se o Parque da Luz pode ficar um lugar aprazível, bem no centro da cidade, ideal para quem quer dar um belo passeio? Bem, cuidando, fica.”
