A virada tecnológica das últimas décadas foi de tal modo influente em nossas vidas que ainda não demos conta de compreender a extensão e o alcance de suas implicações.
Uma das constatações mais evidentes e teorizadas é a característica da descontinuidade. O fato é que a cultura do instantâneo e a urgência de superar a emoção de ontem, pois o tempo não para e é sempre dia em algum lugar, já fazem sentir suas conseqüências.
Voltando um pouquinho no tempo, até o início da revolução informática, a memória existente era a humana, registrada em livros, caros, restritos, mas que traduziam num relato a elaboração de ideias. Na era da tecnologia, a novidade de agora concorre com a de ainda há pouco, e a memória que organiza o conhecimento é digital.
A trajetória do pensamento humano foi baseada numa memória humana, resultante de um processo contínuo de repetição, experiência e reflexão. O homem contemporâneo, ao contrário, tem à sua disposição uma gama de informações, das mais diversas fontes e níveis de confiabilidade, e aos poucos vai dispensando do uso a sua própria memória.
Mas, o que implica a memória e a História com a sustentabilidade, que é o tema desta coluna? Tudo!
A sustentabilidade ecológica é dependente de uma teia complexa de comportamentos interconectados e da compreensão, portanto reflexão, a respeito dessas relações. Ao mesmo tempo, requer um comportamento preventivo e precaucional, pois a sustentabilidade precisa que os agentes que interferem no meio conheçam os efeitos de suas ações.
Quando se trata de sustentabilidade social, a cultura do presente peca pela ausência de compromisso. O homem contemporâneo participa daquilo que Beck[1]chama de “irresponsabilidade organizada”: diante das incertezas e da impotência em solucionar individualmente os problemas globais e complexos que surgem a cada instante, o indivíduo se esquiva e se descompromete, já que não tem motivação para memorizar, elaborar e refletir que caracterizava as gerações passadas.
Embora essa “descontinuidade” seja um produto do próprio conhecimento desenvolvido pela humanidade, que questiona a objetividade do saber científico, o sistema de “verdades”, a proposta de um “desígnio” para a humanidade, e mesmo os propósitos das ideologias; foi também esse conhecimento que nos apresentou à importância das diversidades e do pensamento complexo[2].
Se precisamos conviver com as incertezas e a complexidade, por outro lado, temos oportunidade de desenvolver as relações em rede, de estender nossa comunicação “sem fronteiras”, de democratizar o conhecimento, e de reconhecer a importância de nos abrirmos às diferentes formas de pensar, às outras culturas. A sociedade global irmana os homens na sua diversidade, ao mesmo tempo em que a expõe a riscos jamais imaginados.
A esta altura, a compreensão tradicional da História, perdeu seus fundamentos. Inaugura-se uma outra era, em que o “sentido”, a orientação da humanidade, pode não estar pré-ordenado como na concepção desenvolvimentista, mas descobrimos que há mais de um “sentido”, e que é essa riqueza de compreensões e sentimentos sobre o mundo que faz a graça de viver e a emoção de fazer parte dessa teia.
[1] BECK, Ulrich. A sociedade de risco.
[2] MORIN, Edgar. Terra-Pátria.
