Tenho participado, na maioria das vezes como espectador, de debates que exploram as tendências em comunicação. Para quem está tentando compreender o cenário atual, ouvir quem tem o que dizer é uma maneira simples de intuir horizontes.
por Luciano Bitencourt*

Anotei três questões que corroboram caminhos apontados em pesquisas:
1) o Jornalismo generalista não parece mais uma opção viável. Além de posicionamento, a especialidade em algo fortalece os produtos e ajuda a atrair públicos cada vez menos interessados em informação genérica;
2) entender o que a audiência dos “concorrentes” prefere, e não só a própria audiência, é também uma necessidade, visto que as formas de relação com os públicos hoje exigem proximidade e pertencimento a comunidades;
3) mesmo grandes veículos jornalísticos, sustentados por grandes empresas, já entenderam que é preciso diversificar produtos para alcançar mais pessoas, o que muda a compreensão do que entregamos.
Em síntese, Patrick Cruz desenhou mais ou menos o seguinte: a especialidade do agronegócio unificou na mesma organização (a Globo, no caso) a produção de informações jornalísticas que anteriormente alimentavam dois veículos distintos (Valor Econômico e Globo Rural). E agora esse híbrido de marcas entrega conteúdo de inúmeras formas, cada uma delas com linguagem própria e dirigida a tipos de público específicos.
Tem uma questão, entretanto, que está escapando a esses debates no meu ponto de vista, talvez ainda um tanto ingênuo.
Vivemos um momento em que, pela primeira vez na trajetória da mídia e do Jornalismo, as empresas de tecnologia cooptaram integralmente a indústria da Comunicação. É bem verdade que as tecnologias sempre influenciaram as decisões nesse campo de modo mais ou menos determinantes.
Só que agora o negócio é outro: são as empresas de tecnologia que controlam a indústria da mídia. O próprio Patrick sinalizou que a disputa por atenção é difícil de digerir, mas disse isso de forma um tanto resignada.
Com as inteligências artificiais generativas, a coisa ficou ainda mais nebulosa.
Talvez estejamos dando atenção demais para questões que só reforçam a presença dessas ferramentas como “progresso inexorável”, para usar a expressão do professor alemão Siegfried Zielinski.
O problema das inteligências artificiais e das “novas” tecnologias não é a substituição dos humanos em postos de trabalho. É a potencial eliminação da relevância da engenhosidade humana em tudo o que se faz.
Em bom português, não se trata de uma IA substituir, por exemplo, um jornalista na produção de textos, mas de a IA eliminar o interesse humano pela relevância do que o bom Jornalismo entrega à sociedade.
E isso já é presente.
*Luciano Bitencourt, Jornalista, Educador e Analista. Sòcio da E-Comtextos
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