Os olhos, as árvores e o mar
29 de Outubro de 2012

Os olhos, as árvores e o mar

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  1. Aci Prado era um conceituadíssimo farmacêutico da minha cidade, Cachoeira Paulista. Dividia com o primo, dr. Darvin, o atendimento aos cidadãos e cidadãs.

Doenças leves, como dores de cabeça, resfriados, diarréias torre comprida, sarampo etc, era com ele. Doenças mais graves, com o dr. Darvin.

Um dia, Ryo apareceu na farmácia.

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Era a época do pós guerra, e o povo ainda guardava muita desconfiança dos japoneses.

(“Cuidado com os japoneses”, dizia minha mãe, retratando um sentimento que reinava na época. “São traiçoeiros. Se você chegar muito perto, e se distrair, eles enfiam a faca na sua barriga.,” certo influenciada pelas notícias sobre hara kiri)

Certamente Ryo tinha consciência disso, e por essa razão vivia afastado, em um sitiozinho com sua Ayumi.

Justifica-se, portanto, a surpresa do Aci quando ele entrou.

“Ryo, você por aqui? Deve ser grave.”

“Muito glave, com meu cavaro. “Faz tempo que ele não caga. Ele anda muito tliste.”

Aci, com a calma que Deus lhe deu e a simpatia de sempre, procurou acalmá-lo:

“Isso não é problema. Pegue esse pozinho aqui, mande dona Ayumi levantar o rabo do cavalo e sopre. Pronto: dali a pouco ele vai botar tudo pra fora.”

“Quanto custa?”

“Nada, Ryo. Esse é por conta da casa.”

“Bligado, bligdo.”

Ryo saiu feliz da vida. Mas voltou na semana seguinte, com os olhos muito inchados.

Quando botou o pé na farmácia, Aci percebeu.

“O que houve com seus olhos, Ryo.”

“O pó.”

“Como, o pó?”

“O pó e o cavaro.”

“Eu fiz como o senhoro mandou, né. Farei pra Ayumi levantar o rabo do cavaro, ela levantou. Cheguei pertinho pra soplar o pó, mas, o cavaro suplou primero, né.” (Contado por Rolando Boltrim no programa Senhor Brasil da TV Cultura e adaptado e recontado aqui do meu jeito) 

  1. Resolveram arborizar a Beira Mar Norte. Plantaram, ali, dezenas de árvores, todas entre a calçada e o mar.

 

Maravilha, você deve estar pensando.

 

Mas pense bem.

 

  1. Quando essas árvores crescerem, criarão uma barreira entre o transeunte e o mar. Aí, essa paisagem que hoje você adora, vai pro beleléu.

 

  1. Outra coisa: as árvores, plantadas assim uma ao lado da outra, formarão uma barreira para o som. Isto é: vai aumentar o barulho produzido por carros e pedestres na Beira-Mar.

 

  1. O plantio exagerado na Beira-Mar produzirá, assim, o mesmo efeito do pó que o Aci deu para o Ryo: quem planejou o plantio, certamente pensou em melhorar o visual do lugar, mas quando as árvores crescerem o mar terá sumido, ofuscando os olhos de quem passar por lá.

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