- Da varanda do casarão, coronel Joaquim Miguel olhava a paisagem devastada. A falta de chuva há alguns meses deixara tudo seco: matara totalmente a vegetação, o gado, os porcos, até as galinhas.
Do lado dele, sentada em uma de balanço, Zefa, a esposa, tricotava. Entregava-se totalmente naquela tarefa, provavelmente para se esquecer da tragédia.
Mas coronel Joaquim Miguel era um otimista, e foi com otimismo que falou:
“Ô Zefa, nós já passemo por cada uma..”
“Lembra aquela vez que teve uma seca qui nem essa?”
“Você tava lá, do meu lado, sofrendo junto.”
“E quando apareceram os gafanhoto? Os desgraçado comeram toda a plantação.”
“E você lá, firme comigo, não é, Zeca?”
“Aí eu fiquei doente. Peguei tifo. Um febrão que meou careca.”
“Você ficou ali, na beira da cama, rezando pra eu sarar logo. Lembra. Zeca?”
“E aquela vez que deu uma doença no gado e matou tudo?Você me ajudou e cuidar dos animais que sobrou.”
“Agora isso aí. E você do meu lado.”
“Zeca, pensando bem, você me dá um azar desgraçado!”
(Contado por Rolando Boltrin no Senhor Brasil da TV Cultura e recontado aqui do meu jeito)
- Em um país onde o futebol ainda é a grande paixão. Onde no passado, o surgimento de craques acontecia todo dia. Onde os clubes enfrentam enormes dificuldades. Onde os melhores jogadores estão no exterior. Alguns foram tirados daqui ainda garotos.
Onde os clubes não têm, sequer, a posse do que deveria ser seu maior patrimônio, o passe dos jogadores.
Por que isso está acontecendo?
- Tudo começou lá atrás, com o surgimento dos empresários, que rapidamente foram ganhando a simpatia dos jogadores e quebrando a resistências dos clubes. O último a dobrar as espinha foi o S. Paulo F. C. Hoje são fortes, com capacidade, inclusive, de interferir em negociações.
- Aí, surgiram as empresas. Começaram lá atrás, com o J. Awila, à época um jornalista esportivo medíocre.
Medíocre como jornalista, mas que se descobriu um hábil negociador. Rapidinho a Trafic, que ele fundou, ganhou força. E atrás dela vieram várias.
Com o tempo as empresas foram se infiltrando nos clubes, não raro administrando os negócios do próprio futebol profissional. Aí, deu no que está dando.
Os clubes, em sua maioria, fazem o papel de incubadoras. Os jogadores são colocados ali e ficam sob observação. Se mostram alguma qualidade, são transferidos para um clube maior. Se não dão no couro, são deixados por ali, como frutas podres. Aquelas empresas fazem, assim, o papel de autênticas atravessadoras.
- Um dia, os clubes que a elas se submetem – e hoje são quase todos –
Sentem-se depenados, olham para o passado, vêem que são podem mais voltar sozinhos aos dias de glória e no máximo podem fazer como o coronel Joaquim Miguel: olhar para aquelas empresas atravessadoras e gritar
“Pensando bem, vocês dão um azar danado!”
