por Felipe Didoné*
Frequentador de festivais de cinema e escrevendo este artigo no avião, de volta do Festival de Cannes, fico imaginando a dificuldade enfrentada por um júri para chegar a um consenso e escolher os premiados.
Durante a semana em que estive em Cannes, participando do “Marché du Film”, o maior mercado de cinema do mundo, tive a oportunidade de assistir a menos da metade dos filmes que competiam pela Palma de Ouro. Até porque boa parte do meu tempo foi dedicada a negociar títulos para o mercado brasileiro.
Entre os filmes que consegui assistir, alguns saíram com prêmios importantes, como o espanhol Sirat e o alemão Sounds of Falling. Confesso que teria dificuldade em decidir a quem daria meus votos nas diferentes categorias. O que mais me tocou foi o francês Dossier 137, que aborda os protestos dos coletes amarelos em Paris no ano de 2018. Para minha surpresa, ele não recebeu nenhuma premiação.
A verdade é que cada filme tem sua peculiaridade. Cada diretor encontra uma forma própria de transmitir sua mensagem e expressar sua arte. Premiar um em detrimento dos demais certamente não deve ser uma tarefa fácil.
Os júris dos festivais mais prestigiados do mundo, como Cannes, Berlim e Veneza, são compostos por pessoas absolutamente ecléticas, diversas e profundamente conhecedoras do cinema, cada uma com seu olhar e ponto de vista. Não gostaria de estar na pele dos presidentes desses júris, que precisam ouvir todas as opiniões, buscar um consenso e, eventualmente, tomar sozinho a decisão final.
Juliette Binoche, renomada atriz francesa e presidente do júri de Cannes 2025, já vem sendo criticada por alguns setores do mercado por ter concedido a Palma de Ouro ao iraniano Jafar Panahi, por seu filme It Was Just an Accident, sob a alegação de que são amigos de longa data.
A verdade é que não se pode agradar a todos. Algum filme precisa ser escolhido. De qualquer forma, volto entusiasmado com as importantes conquistas de O Agente Secreto, único representante brasileiro na competição. Desde 1969, quando Glauber Rocha venceu o prêmio de Melhor Direção por O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro, o Brasil não recebia honraria semelhante. Já o prêmio de Melhor Ator para Wagner Moura é inédito. O país já havia conquistado o prêmio de Melhor Atriz em 1986 e 2008, com Fernanda Torres e Sandra Corveloni, respectivamente.
As premiações recebidas pelo cinema brasileiro somente neste ano de 2025, como o Globo de Ouro, Berlim, Oscar e agora Cannes, mostram que vivemos um momento realmente especial. E torço para que ele seja duradouro.
Independentemente de prêmios, viva a arte, viva o cinema!
* Felipe Didoné – Empresário, cinéfilo, exibidor e distribuidor de filmes. É diretor do Paradigma Cine Arte, sala que completa 15 anos de exibições neste ano, e da Autoral Filmes, distribuidora que lança neste mês no Brasil o documentário sobre o Andy Warhol. Agitador cultural, apoia diversos projetos sociais e culturais na cidade e é membro da Associação dos Amigos do MIS – Museu da Imagem e do Som de Santa Catarina.
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