O cinema hollywoodiano anda mal das pernas, ou melhor, das idéias. Prova disso são os filmes vencedores do Oscar, um dos mais cobiçados prêmios do cinema mundial. Filmes como “A Dama de Ferro”, de Phyllida Lloyd; “Cavalo de Guerra”, de Steven Spielberg; “A invenção de Hugho Cabret”, de Martin Scorsese; “O Artista”, de Michel Hazanavicius estão longe de filmes geniais como “O Poderoso Chefão”, “A grande Ilusão”, “Apoclipse Now”, isso só para não ir tão longe. Hoje os filmes hollywodianos estão tão preocupados com a técnica e com efeitos especiais que os realizadores esquecem dos elementos principais de um filme: história, narrativa, elenco, emoção…. No filme de Spielberg, por exemplo, a preocupação com a fotografia é tanta que os sentimentos e a emoção dos atores impressos no filme são iguais a de um congelador. O melhor de “A Dama de Ferro” são as cenas documentais, ali o filme cresce. E “O Artista” perdeu uma grande oportunidade de homenagear os grandes clássicos do cinema mudo. Por outro lado, filmes como o turco “Os Três Macacos”, de Nuri Bilge Ceylan e “O Último Dançarino de Mao”, do australiano Bruce Beresford ( do premiado Conduzindo Miss Daisy) servem de exemplos de que boas idéias e talentos não se esgotam, só merecem mais reconhecimento.
Os três macacos filme turco de grande sensibilidade.
Claquete
– UNISUL. O curso de cinema da UNISUL, coordenado por Mara Salla, contratou dois reforços para o corpo docente: são os experientes e competentes profissionais Márcia Paraíso e Tambke.
–Bigode. Os cineastas Luiz Carlos Lacerda, o Bigode, e Alisson Prodlik estão na Ilha de SC gravando em Santo Antonio de Lisboa para o programa Notícias de lá, exibido pelo Canal Brasil. O programa documenta a vida comum nas cidades brasileiras, o quotidiano de seus moradores, o ritmo de vida, as peculiaridades de cada lugar, seus habitantes e sua cultura – apenas com a utilização de imagens/som ambiente e música, em pequenos filmes de 5 a 7 minutos.
– Moçambique. A premiada cineasta moçambicana Heloísa Helena Noronha marcou presença na UFSC, de 14 a 16 de abril, com seus filmes, talento e depoimentos.
– Novembrada. O curta-metragem mais premiado realizado em Santa Catarina é de longe o Novembrada, de Eduardo Paredes, o qual arrebatou mais de 30 prêmios. Trata-se de uma excelente produção. Eu prefiro o “Desterro”. The Wall (Paredes) está preparando seu primeiro longa. Aguardem!
– FAM de todos. O primeiro longa do mestre Nelson Pereira dos Santos sobre Tom Jobim filmado em Florianópolis deve estrear no Festival Audiovisual do Mercosul. O Fam é gratuito e acontece, na UFSC, de 15 a 22 de junho.
– 26 anos. A diretoria da Cinemateca Catarinense está empenhada numa grande programação para comemorar os 26 anos da Associação. O evento vai ocorrer na primeira semana de junho e promete!
– UFSC. O Curso de Cinema, coordenado pela interessante e interessada professora Aglair Bernardo, está preparando uma ampla programação para a tradicional emana de Cinema da UFSC. A semana ocorre de 21 a 25 de maio.
– Contestado. A Imagem Filmes, distribuidora de “O Contestado, restos mortais”, dirigido por Sylvio Back, marcou para setembro o lançamento do esperado documentário. Outubro é o marco dos 100 anos do início de um dos maiores conflitos bélicos do Brasil.
– Incontestável. A lei 12.485 é um avanço crucial para o audiovisual brasileiro. Para quem ainda não se antenou no assunto, transcrevo um artigo assinado pelo Cacá Diegues e publicado no jornal O Globo em 10 de março. Cacá, além de um dos mais importantes cineastas brasileiro é um dos principais e mais lúcidos pensadores do audiovisual no país.
A construção de uma imagem
Cacá Diegues
A população do país precisa se dar conta da importância da Lei 12.485 para todos nós brasileiros. Essa lei, recentemente aprovada pelo Congresso, trata de conteúdo nacional nas televisões por assinatura. Mas não se trata de reivindicação corporativa, benefício exclusivo para a atividade que fabrica esse tipo de produto. Trata-se de exibir, nas telinhas brasileiras, sons e imagens do Brasil, num diálogo com o público que esteja à altura de nossas criatividade e diversidade, que seja um espelho de nossos costumes e, ao mesmo tempo, capaz de propor novos comportamentos para novos tempos.
Quando dizemos “sons e imagens”, estamos nos referindo a toda uma família do audiovisual da qual o cinema é apenas um avozinho que gerou descendência luminosa, da televisão aberta à internet, do DVD à televisão por assinatura. Além dos múltiplos novos formatos que ainda vêm por aí.
Poucos sabem que o cinema brasileiro é um dos mais antigos do mundo. A primeira sessão de cinema se deu no dia 28 de dezembro de 1895, num café de Paris. Em junho do ano seguinte, já se realizavam projeções, aqui mesmo no Rio de Janeiro, na rua do Ouvidor, as primeiras sessões de cinema na América Latina. Cerca de apenas um ano depois, um fotógrafo ítalo-brasileiro já estava filmando a entrada da Baia da Guanabara, realizando assim o primeiro filme sul-americano.
Mas o cinema brasileiro nunca teve uma história fluente, sempre viveu de ciclos que se abriam com grande euforia e, depois de muito pouco tempo, se fechavam melancolicamente, vítimas de circunstâncias políticas, econômicas ou institucionais. Foi assim com a vasta produção de filmes brasileiros na primeira década do século 20, com os ciclos regionais dos anos 1920 e 30, com a chanchada, a Vera Cruz, o Cinema Novo, a Embrafilme.
Desde a promulgação da Lei do Audiovisual, ainda durante o governo Itamar Franco, o cinema brasileiro vive um novo período que, passados 20 anos, já podemos desconfiar de que não se trata de mais um ciclo, mas da inauguração do cinema como atividade permanente no Brasil.
Isso significa que podemos enfim contar com a fabricação regular de uma imagem para o país através de seu cinema. Uma imagem que deve ser espelho e estímulo, descoberta e reflexão, capaz de colaborar com a construção de nossa identidade. Sendo que a identidade de um povo não se determina pela data imutável de seu nascimento no passado, mas pelo futuro do que ele for capaz de construir.
A Lei 12.485, pela qual tantos lutaram, inclusive os responsáveis pelo sucesso de nossa televisão aberta, representa a consolidação desse movimento coletivo, abrindo nossas telinhas àqueles novos sons e imagens, representantes de nossa diversidade geográfica, étnica, cultural. Essa lei reserva, para a exibição do audiovisual nacional independente, três horas e meia semanais (cerca de dois por cento de toda a duração da semana) da programação de cada canal, além de 1/3 de canais nacionais (tipo Canal Brasil) nos pacotes de cada operadora.
Contra isso, se insurgem alguns poucos insatisfeitos, como a Sky, recorrendo à Justiça para impedir essa redenção do nosso audiovisual. Ora, a lei não estupra ninguém, não impede que cada canal faça sua programação como bem entender, contrate o produto nacional que lhe for mais conveniente, estabeleça preços de mercado para essas operações. Ninguém se mete na vida deles, apenas pedimos licença para ocupar um espaçozinho modesto em nossa própria casa.
Não basta que a Ancine e os cineastas brasileiros se unam na defesa dessa lei. É preciso que a população compreenda que ela é uma necessidade do país como um todo, uma necessidade que não atende apenas à corporação do cinema mas ao interesse de todos. Não estou exagerando: temos que lutar pela regulamentação e execução da Lei 12.485 como fizemos há quase dois séculos pela independência do país. Ou como nos empenhamos, mais recentemente, para livrar o país da ditadura que nos oprimia.
Em contrapartida, é preciso que a Ancine ouça a todos e que todos colaborem com a Ancine para evitar a burocracia que estrangula as leis e as torna ineficazes. É preciso produzir uma regulamentação que não sufoque nem exclua o produtor independente mais modesto, que não imponha nem cerceie a liberdade das operadoras e programadoras.
Essa semana, em entrevista na televisão, um político respeitável como Aldo Rebelo, liderança proeminente do mesmo partido do presidente da Ancine, alguém que já passou pelos cargos mais importantes do Legislativo e é hoje Ministro dos Esportes, reclamava do que chamou de “excesso de burocracia no país”. Se um ministro da confiança do governo tem esse cuidado, imagine nós que não temos o seu poder.
O Globo, 10 de março de 2012


