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A lição de Mara Salas e o mineirim
19 de Setembro de 2011

A lição de Mara Salas e o mineirim

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1. O mineirim, com nome Arcides, foi fazer um exame de "prósta". 

Quando o médico colocou o dedo de uma só vez, ele disse: 
 
– Num tô güentanu não , dotô ; vô gritá ! 
 
O médico, também mineiro, alertou: 
– Eu acho mió não . 
Caus diquê a recepção tá lotada di pacienti aguardanu e vai ficá feio procê. 
 
E o médico continuou o exame. 
 
E o Arcides continua falando: 
 
– Dotô , eu vô gritá ! 
 
E o médico diz: 
– Guenta sô , tô caiscabando . 
 
E o Arcides diz mais uma vez: 
– Num tô guentanu , vô tê qui gritá ! 
 
O médico, impaciente, apelou: 
– Grita intão !!! 
 
E o minerim: 
– ÔÔÔ, TREM BÃO , SÔÔÔÔÔÔÔ !!! 
 
 2. Mara Salas, coordenadora do Curso de Cinema da Unisul, chegou de mansinho como sempre chega, sentou-se à minha mesa e começou a falar:
 
“Assisti, em s. Paulo, a um Curso do Robert Mckee, e estou maravilhada. Aprendi uma grande lição. O cara é demais. É o professor dos professores de cinema.”
 
Sem me dar tempo de dizer qualquer coisa, tamanha era sua necessidade de desabafar, falou sobre o Curso. Descreveu-o em detalhes e as lições que tirou dali.
 
Mara, que neste momento se prepara para filmar seu primeiro longa metragem, concluiria, se mineiro fosse,  gritando:
 
 - ÔÔÔ, TREM BÃO , SÔÔÔÔÔÔÔ !!!
 
Não fez assim, mas confessou que aplicará a grande lição que aprendeu: “quero fazer um filme para o povo ver. Ver e sentir. Despido de qualquer pretensão de agradar os intelectuais, as elites. É com estes olhos que passarei a ver o roteiro dele.”
 
3. Conheço Mara desde que ela era estudantes, há não sei quantos anos. E sempre admirei sua dedicação, sua simplicidade, sua vontade de aprender. Taí uma pessoa que tem muito a nos ensinar.
 
4. Com efeito, nós, publicitários, somos uma profissão de pretensiosos. Pretendemos saber tudo, sermos os donos da verdade. Somos incapazes de reconhecer que podemos aprender todo dia, de receber uma crítica com humildade.
 
“Quem nos critica é nosso inimigo. Quer nos destruir”, é o pensamento vigente.
 
O pessoal de cinema não fica atrás.
 
Não por acaso, a publicidade empacou, do ponto de vista criativo.
 
Não por acaso, somos capazes de ir a Cannes, inscrever peças fantasmas e voltar de lá orgulhosos, porque elas nos permitiram ganhar alguns leões.
 
Não por acaso, ainda não conseguimos ganhar um Oscar.
 
5. “Vou olhar novamente argumento e roteiro do meu filme”, disse Mara com a humildade que Deus e um enorme talento lhe deram. 
 
Tomara que ela faça mais: que passe a lição para seus alunos, para os professores e para os colegas de cinema. E que respingue no povo da publicidade.
 
Para que ninguém  se contente com o solitário sucesso de crítica.Que veja o povo, este que paga a entrada e que consome,  vivendo  e sentindo seus filmes e suas mensagens publicitárias, também grite, como o
mineirim:
ÔÔÔ, TREM BÃO , SÔÔÔÔÔÔÔ !!! 
 

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