“Guga e a gratuidade” – por Laudelino José Sardá
21 de Maio de 2012

“Guga e a gratuidade” – por Laudelino José Sardá

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Por Laudelino José Sardá*

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Ao ler no Acontecendo Aqui o apoio de Guga Kuerten à gratuidade do pré-vestibular na UFSC, não me contive em rabiscar uma opinião. Retornei de Barcelona nesta sexta-feira e constatei que a Espanha, a exemplo do restante da Europa, acabou com o ensino superior gratuito, passando somente a privilegiar as famílias carentes com bolsas integrais, até com direito a ajuda para o transporte e alimentação.

 No Brasil, as universidades públicas estatais mantidas pelos governos estaduais e o federal, são as melhores em qualidade, mas cerca de 65% dos seus alunos pertencem à classe média alta, cujas famílias podem custear escolas  particulares de ensino médio para lhes assegurar boas notas no vestibular. Enquanto isso, jovens de classes médias C, D e E são obrigados a recorrer a financiamentos ou espremer orçamentos para alcançar diploma em faculdades particulares a um custo alto.

Em Santa Catarina, por força de uma lei constitucional, jovens carentes ganham bolsas para estudar em universidades do sistema Acafe, mas no restante do Brasil o que se denota é uma verdadeira injustiça social. Os ricos são privilegiados, porque colocam seus filhos nos melhores colégios de ensino médio para ter direito à gratuidade nas melhores universidades do país.

O Brasil é um dos países mais avançados na fiscalização e controle das receitas dos contribuintes e a eficiência do Ministério da Fazenda permite saber quem realmente precisa de ensino gratuito no Brasil. Seria uma forma de acelerar o combate à discriminação social. Quando se criam cotas para negros e índios é porque realmente o ensino superior é discriminatório por natureza. Pelo visto, a nação prefere instituir cotas a democratizar verdadeiramente o acesso às universidades públicas.

Você, leitor, pare para refletir sobre a situação da saúde pública no Brasil, por exemplo. Raramente você vê um médico negro ou descendente de família pobre. E é por isso que o médico, fazendo parte de um modelo corporativista, precisa ser o profissional bem mais remunerado, justamente porque ele faz parte de uma casta social privilegiada. O jovem que freqüenta um colégio público, com raras exceções, não consegue atingir a nota exigida para o ingresso em uma faculdade de medicina pública e, mesmo que conseguisse, teria de dispor de muitos recursos para a sua permanência no ambiente em que materiais e roupas são caríssimos.

A falsa ideologia de esquerda no Brasil não enxerga o verdadeiro papel do Estado e promove manifestações sem analisar as causas. O ensino superior gratuito é uma farsa social. Uma universidade federal consome, em média, R$ 1,2 bilhão ao ano e calcula-se que as instituições federais e estaduais de ensino superior absorvam mais de 280 bilhões por ano no Brasil. Para se estabelecer uma comparação de eficiência do ensino, a pesquisa acadêmica e aplicada não recebe por ano mais que R$ 5 bilhões e então se pergunta: afinal o que fazem os milhares de doutores das universidades públicas federais e estaduais para equacionar problemas da sociedade brasileira? Hoje, empresas privadas dispõem de laboratórios para desenvolver suas próprias pesquisas e as soluções no campo da saúde, por exemplo, têm sido importadas. Isto é sinal de que as universidades públicas estatais precisam passar por uma urgente e profunda reforma, considerando que a grande maioria dos professores leciona, em média, 14 horas por semana, sem apresentar eficiência comprobatória nas atividades de pesquisa e de extensão, até porque as avaliações são pífias.

Por isso, Guga Kuerten precisa refletir o seu apoio, quem sabe apoiar a pobreza a ter acesso às universidades, porque se o rico começar a pagar, haverá recursos para a construção e manutenção de mais universidades. Nos Estados Unidos, universidades como o MIT e Harvard, por exemplo, são fundações pagas, mas o governo fornece bolsas integrais de ensino aos estudantes carentes. Logo, é preciso instituir esse modelo no Brasil, para que a discriminação também seja analisada sob a ótica da educação como um todo. Não há dúvida sobre a necessidade de se melhorar o ensino desde o berçário, remunerando melhor os docentes. Mas, infelizmente, gastam-se cinco vezes mais no ensino superior para privilegiar uma casta que tem dinheiro.

 

*Laudelino José Sardá – Jornalista e professor.

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