Festival El Sol e os ?Comprimidos para a dor dos outros?
03 de Junho de 2011

Festival El Sol e os ?Comprimidos para a dor dos outros?

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O festival ibero-americano de publicidade El Sol deste ano, realizado na cidade espanhola de San Sebastián no final do mês de maio, inovou ao permitir a inscrição de trabalhos publicitários criados para ONGs, concorrendo juntamente com trabalhos de objetivo comercial. O resultado gerou comentário por aqui e pode servir de ponto de partida para discussão.

A grande ganhadora do El Sol foi justamente uma campanha de uma ONG, a Médicos Sem Fronteiras, que encomendou à pequena agência espanhola Germinal Comunicación da cidade de Múrcia, uma campanha com o objetivo de arrecadar fundos. E o que se premiou aqui foi a campanha, a estratégia geral criada pela Germinal, a idéia guarda-chuva que levou à criação de todas as peças, que, a rigor, não primam pela criatividade, nem pela beleza, nem pela produção impecável, nem pela qualidade dos textos, nem nada disso. Elas primam por estar perfeitamente de acordo com o objetivo proposto pelo brief, são irretocáveis neste sentido, alcançaram e superaram as expectativas do cliente e por isso mereceram ser premiadas. Não que texto, imagem e produção sejam ruins, não é isso, muito pelo contrário. Tudo está muito bem feito. Mas, antes de mais nada, tudo está muito bem pensado e amarrado. O jurado foi unânime na eleição do premiado.

A campanha se chama “Pastillas contra el dolor ajeno”, algo assim como “Comprimidos para a dor alheia”. Os comprimidos são de mentirinha. Na verdade são balinhas de menta. Cada caixinha com seis balas custa um euro e está à venda no comércio para quem quiser adquirir. Quase 90% da arrecadação vai para a ONG, que, supomos, investirá o dinheiro para dar continuidade ao seu já conhecido trabalho de levar serviços médicos a países e regiões necessitadas. Ou seja, você compra comprimidinhos falsos mas contribui verdadeiramente para curar a doença de outras pessoas. Jorge Martínez, diretor de criação da Germinal, resume: “A idéia era criar um conceito, a dor alheia, e criar uns comprimidos para a dor dos que não têm comprimidos para tomar”.

Os comprimidos para a dor dos outros estão entre os dez medicamentos mais vendidos na Espanha. Em menos de um ano, 3.300.000 caixas foram compradas. Mais do que criar uma campanha, a agência neste caso criou o próprio produto a ser anunciado. As peças lançam mão do aparentemente batido método de utilizar artistas, esportistas e outras personalidades dando o seu depoimento e apoio à causa. O método do testemunhal pode ser batido, sim, mas há formas e formas de se utilizá-lo. A Germinal acertou em cheio. Muitos jogadores da seleção espanhola de futebol estão nessa, e também cantores como Alejandro Sanz. Os anúncios de tevê se desdobraram em jornal, revista e mídia exterior. Algumas das peças, além de mais informações sobre a campanha, podem ser vistas aqui.

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El Sol premiou também muitos brasileiros. A seção TV e Cinema, por exemplo, quem levou foi a AlmapBBDO (Brasil) para o Tiguan da Volkswagen. O prêmio de Marketing Direto também ficou com o Brasil (agência Leo Burnett Brasil para o cliente Jeep). O Brasil foi o segundo país mais premiado, atrás apenas da Espanha, dona da casa. Na seqüência vieram Argentina, México, Colômbia, Porto Rico, Peru e Portugal.

 

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Pepino
A história dos pepinos espanhóis correu o mundo e sei que foi bem divulgada aí no Brasil também. Alguma agência alemã que eu nem me dei ao trabalho de procurar qual foi quis aproveitar a oportunidade para anunciar seu cliente Durex, de preservativos, dizendo às consumidoras algo no estilo “Meninas, não dêem chance ao vírus do pepino” (se algum leitor souber alemão e quiser me corrigir, eu agradeço). Olha, até confesso que quando bati o olho nessa imagem não pude conter um sorrisinho, mas depois o anúncio me pareceu de gosto muito duvidoso (até porque essa história do pepino foi muito mais trágica do que cômica – centenas de famílias espanholas que dependem dessa hortaliça para sobreviver, já afetadas pela crise econômica que se instalou na Espanha em 2008 e teima em ficar, acabarão na penúria pelo boato espalhado pelos alemães). A agência responsável quis lançar um anúncio de oportunidade e acabou mesmo foi perdendo uma bela oportunidade de ficar calada.

 

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