Imagem criada pelo colunista com apoio do Chat GPT
Desde 2004, a Oxford University Press iniciou um projeto que é verdadeiro ouro para quem gosta de análises sociais e de comunicação. O “Oxford word of the year”, como o nome sugere, é uma seleção feita por especialistas que, a convite da universidade, escolhem uma expressão ou palavra que melhor sintetize o espírito, os debates públicos e as transformações culturais de determinado ano (no final do texto compartilho a lista completa).
Em 2025, a expressão escolhida a partir do voto de mais de 30.000 pessoas foi “rage bait”. Na tradução literal, isca de raiva. O termo define o “conteúdo online deliberadamente criado para provocar raiva ou indignação, sendo frustrante, provocativo ou ofensivo, geralmente publicado com o objetivo de aumentar o tráfego ou o engajamento com uma página da web ou conteúdo de mídia social específico”
Por trás do nome bacaninha selecionado pela Oxford há um grave problema civilizacional que não pode ser ignorado: estamos vivendo a era do ódio e tem muita gente tirando proveito disso.
Não é de hoje que a raiva é mobilizadora. A ciência mesmo já identificou inúmeros vieses cognitivos que nos conduzem a comportamentos irracionais. O viés de negatividade mostra que tendemos a dar mais atenção, peso e memória a estímulos negativos do que positivos. O viés de atribuição indica nossa tendência a julgar os outros esquecendo de variáveis contextuais. O viés de urgência emocional deixa claro que pensamos menos criticamente quando estamos emocionalmente ativados.
A grande questão não é somente a tendência humana a esses comportamentos, mas a manipulação dessas emoções para gerar engajamento, autopromoção e ganhos dos mais variados tipos: financeiros, políticos e digitais.
A pergunta central é simples e incômoda: o que gera mais atenção…
➔ Um político que “destrói” a reputação do adversário ou aquele que faz uma crítica racional e fundamentada?
➔ Uma postagem expondo jovens e afirmando que eles mataram um cachorro inocente ou uma reflexão ponderada sobre a ausência de provas que apontem autoria?
As iscas estão por todas as partes e nós, por vezes, nos deixamos fisgar sem perceber o que isso representa. No geral, quando isso ocorre, a verdade perde para a narrativa, o julgamento antecede os fatos e a reputação vira algo descartável.
Em ano eleitoral, esse ambiente tende a se agravar. A disputa por atenção se intensifica, os incentivos se distorcem ainda mais e a tentação de provocar passa a valer mais do que a responsabilidade de informar. Resta torcer para que, em 2026, a palavra do ano não seja novamente um sintoma do que há de pior no nosso tempo, mas, quem sabe, um indício, ainda que tímido, de que estamos reaprendendo a debater sem precisar odiar.
As palavras do ano de Oxford:
2025 — Rage bait 2024 — Brain rot 2023 — Rizz
2022 — Goblin mode
2021 — Vax
2020 — Não houve uma única palavra (como pandemic, lockdown, etc.)
2019 — Climate emergency
2018 — Toxic
2017 — Youthquake
2016 — Post-truth
2015 — 😂 (Face with Tears of Joy emoji)
2014 — Vape
2013 — Selfie
2012 — GIF
2011 — Squeezed middle
2010 — Big society
2009 — Unfriend
2008 — Credit crunch
2007 — Carbon footprint
2006 — Bovvered
2005 — Sudoku
2004 — Chav

