ENTREVISTA: Eduardo Smith, vice presidente do Grupo RBS em Santa Catarina
26 de Maio de 2011

ENTREVISTA: Eduardo Smith, vice presidente do Grupo RBS em Santa Catarina

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por Jailson de Sá

Acontecendo Aqui – O DC celebra 25 anos de história e dá inicio a uma série de ações comemorativas. Isso começou há duas semanas com o grande evento dos 25 anos. Você pode comentar quais serão e em quais regiões vocês vão fazer esses eventos?

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Eduardo Smith - Haverá uma série de atividades para a comemoração dos 25 anos do Diário Catarinense, que começou no dia 05, data do aniversário, com a celebração no Parque Gráfico. No mesmo dia, fizemos uma celebração interna com os funcionários. Também lançamos um caderno comemorativo que foi distribuído aos nossos leitores, retratando o que aconteceu ao longo desses 25 anos, fazendo um paralelo entre a história do DC e a história de Santa Catarina. Na área de produtos, lançamos novos cadernos semanais, um na área de tecnologia, o BIT, e outro na área de saúde, o Vida e Saúde.

Temos ainda outro caderno saindo do forno na próxima semana. Na área de plataformas, o DC já está no papel, na internet, no celular e no Kindle. Em alguns dias, lançaremos a versão para o iPad, que é a plataforma mais quente para jornais no momento. Teremos ainda outros eventos ao longo do ano. Um deles está ligado ao nosso papel de estar próximo da comunidade. Serão painéis com personalidades para debater temas importantes para o estado de Santa Catarina, que serão realizados nas regiões de atuação mais importantes do estado.

AAqui – Quem são os convidados desses painéis?

Smith – Personalidades nacionais que têm impacto local, como ministros e economistas, pessoas-chave para realmente ajudar a comunidade e o Estado em seu desenvolvimento.

AAqui – O governador, no dia 05, fez seu pronunciamento elogiando as ações do DC como a BR-101 e outras tantas. Para os próximos 25 anos, vocês vão continuar nessa linha de brigar pelas causas que beneficiam o povo? Como é que vocês estão pensando no conteúdo desse novo jornal?

Smith - Penso que, editorialmente, o jornal tem a obrigação de trazer à tona os temas mais importantes da sociedade, questionando, como a campanha do Diário sugere, “Questionar sempre”. Pode ser o questionar “por que a BR-101 não terminou?”, “por que a obra do aeroporto de Florianópolis não começa?”, “por que a gente tem um determinado gasto no governo?”.
O outro papel, que transcende o editorial, é o institucional. É quando a RBS entende que um tema é tão relevante que é preciso colocar sua força institucional a serviço da comunidade para ajudar no desenvolvimento do Estado. O exemplo mais conhecido é o da BR-101, quando o DC fez a campanha pela duplicação da estrada, colheu mais de um milhão de assinaturas e foi o catalisador para o início das obras. Os veículos de comunicação têm cada vez mais a responsabilidade de promover este tipo de ação, de ouvir a comunidade e tratar os temas mais importantes – seja editorialmente com uma nota, uma série de matérias ou uma campanha institucional.

AAqui - A BR-101 foi uma campanha promovida pelo Diário Catarinense quando o Grupo ainda não tinha jornais em outras praças. Hoje há jornais fortes em Blumenau e Joinville, essas bandeiras continuam só com o Diário por estar na capital ou há planos para outros jornais?

Smith - Assim como tivemos a BR-101 anos atrás capitaneada pelo DC, mas que foi abraçada pelos outros veículos, tivemos campanhas recentes de combate às drogas, como o ‘Crack Nem Pensar’, que eram institucionais do grupo, mas que todos os veículos abraçam. Também temos campanhas locais, pela BR-470 e pela BR-280, conduzidas por veículos mais próximos dessas estradas, e que continuaremos fazendo. Temos uma tradição de os veículos terem bandeiras locais para tratar de seus temas.

AAqui - No dia 5, o Nelson falou sobre o número de funcionários da RBS. Quantos seriam por veículo e por meio?

Smith - O Grupo RBS tem hoje 6,7 mil colaboradores. Em Santa Catarina, são cerca de 1,6 mil, dos quais 700 no DC.

AAqui - Diariamente, 800 mil catarinenses lêem o DC. Como é a logística para distribuir isso no estado, qual é a estrutura, como funciona?

Smith - Temos um desafio enorme, com regiões distantes de Florianópolis de onde fica nosso parque gráfico. A estrutura para distribuir jornal virou inclusive um negócio, a Vialog, que também faz logística para outras empresas. Centros de distribuição em todo o Estado recebem volumes grandes de jornal que distribuem para as pontas e, assim, chegar a 262 cidades de SC, praticamente todo o território catarinense. Nossa circulação é bastante distribuída pelo Estado. Para se ter uma idéia, 47% da circulação está concentrada na Região Metropolitana de Florianópolis, 14% no Sul, 5% na Serra, 20% no Oeste, 5% no Norte e 9% no Vale do Itajaí.

AAqui - Quer dizer, 45% na grande Florianópolis significa quase 400 mil leitores numa população de 1 milhão…

Smith - O número de exemplares não significa o número de leitores, pois várias pessoas lêem o mesmo exemplar. Atualmente temos cerca de 270 mil leitores habituais somente na região de Florianópolis, segundo o Ibope.

AAqui - Com o crescimento da internet, tem havido perda de leitores e assinantes no Diário Catarinense?

Smith - O DC tem mantido a circulação estável nos últimos cinco anos e o DC online tem crescido muito. O que há é um aumento de consumo de mídia em todas as pesquisas. E percebemos mais este aumento de consumo de mídia do que a queda de veículos. Nos países em desenvolvimento, o meio impresso continua crescendo, pois ao mesmo tempo em que há esse aumento do consumo de mídia e de pessoas migrando para novas plataformas, existe um grande contingente da população que não tinha acesso a nenhum meio de comunicação, ou só aos veículos gratuitos. Isso permite que os jornais continuem crescendo no Brasil e nos países em desenvolvimento. Acreditamos que este crescimento continuará acontecendo nos próximos anos com o desenvolvimento da economia brasileira.

AAqui - Há algum termômetro para dizer que esse índice de audiência digital do DC é de novo consumidor, do novo público ou do habitual leitor do Diário?

Smith – O volume de leitura que registramos no dc.com.br mostra que devemos buscar muitos leitores que não são freqüentes do on-line e do DC impresso. Hoje temos três milhões de visitas e 9 milhões de páginas vistas por mês, sendo 900 mil visitantes únicos. Há muita gente nova e acreditamos que este público, ao ter contato com a marca, irá ler o impresso, pois passa a gostar das notícias que consome.

AAqui - E os produtos on-line, como Pense Imóveis e Pense Carros, diminuíram o número de anunciantes dos classificados do jornal impresso?

Smith - De nenhuma maneira. Talvez os classificados sejam o negócio mais afetado nos jornais do mundo inteiro, porém ainda se mantêm estáveis devido ao grande público que usa o impresso para a tomada de decisão na compra de carros e apartamentos. Como os consumidores ainda usam ambas as ferramentas, então temos o mesmo patamar de receita dos últimos anos e a mesma centimetragem no meio impresso. O que acreditamos é na união das duas ferramentas, sendo que o on-line irá oferecer mais detalhamento e flexibilidade para o usuário do impresso.

AAqui - Sabe-se que os meios têm perdido share. Isso deve continuar acontecendo?

Smith - O volume não tem caído, mas o consumo de mídia vem aumentando, especialmente nas novas plataformas. Então, o share dos veículos tradicionais, no número de horas que o público consome mídia, diminui. Isto deve continuar acontecendo, sendo difícil estimar até que ponto. Lembro da palestra do vice-presidente de marketing da Coca-Cola, uma empresa muito inovadora no seu budget de marketing, que disse que a mídia tradicional e as novas mídias sempre irão coexistir. Então, o consumo de mídia aumenta a alocação de verba de publicidade para esses outros veículos, mas as mídias tradicionais irão manter uma posição de relevância, pelo menos neste horizonte que enxergamos.

AAqui - A Folha de S.Paulo, maior jornal do Brasil, anunciou há duas semanas que está pensando seriamente nas tiragens,  com tendência a não mais imprimir jornal. E que estaria lançando uma oferta aos assinantes para assinarem com senha gratuita, assinarem já o on-line para ir educando esse novo público consumidor. Vocês também pensam nisso como tendência?

Smith - Eu não acredito que a Folha irá terminar, em curto prazo, com sua edição impressa, até porque se trata de um jornal impresso muito bem-sucedido. Então, certamente, é uma visão de muito longo prazo. O grande desafio para os jornais hoje é de como cobrar pelo conteúdo on-line e isto é um debate mundial. Existe uma cultura on-line de não pagar por conteúdo. Acompanhamos várias iniciativas, principalmente agora com o iPad, de cobrança de conteúdo, e é ainda muito cedo para dizer o quão bem-sucedido isso será. Acredito que o consumidor valoriza o conteúdo de qualidade e está disposto a pagar por ele. Mais cedo ou mais tarde os jornais irão encontrar a equação para essa receita, descobrir até onde o custo de distribuição deixa de existir ou é muito mais baixo do que no meio impresso. Em longo prazo, consigo ver um preço bom sendo praticado para a venda de conteúdo em plataformas digitais e o consumidor pagando e valorizando estas informações.

AAqui - E com relação à publicidade, há uma tendência de diminuir preço de publicidade na mídia impressa em função do que você acabou de dizer?

Smith - A mídia impressa continua crescendo, então continua com valor agregado para atingir aqueles consumidores. E cada mídia tem um papel diferente, então os anunciantes procuram a TV para uma determinada finalidade, o jornal para outra, o rádio e a internet para  outra. Se pegarmos os dados do InterMeios (N.R. pesquisa mais importante de alocação de verba de mídia do bolo publicitário do Brasil) nos últimos 5 anos, os jornais em termos absolutos cresceram 25%. Cresceram basicamente o mesmo que a inflação, então o meio não perdeu nada em termos reais. O share diminuiu porque outros meios ocuparam algum espaço, mas o jornal manteve sua presença. Nesse mesmo período, o DC cresceu 45% da sua receita comercial. Cresceu bastante acima da inflação, o que mostra um crescimento real, e é uma mídia que continua tendo muito apelo para os publicitários.

AAqui - Então as novas mídias estão arrumando dinheiro novo ou anunciante novo.

Smith – O que vemos com o crescimento da economia no Brasil é um aumento significativo do bolo publicitário, bem acima do crescimento da inflação, o que acaba fazendo com que as novas mídias tenham crescimento. No Brasil, a participação de novas mídias no bolo é reduzida e os meios tradicionais mantêm seu valor absoluto, ou até crescem mais do que o bolo, como é o caso da TV aberta.

AAqui - Na sua opinião, quais são as tendências para o mercado de mídia no Brasil, por meio?

Smith - Continuo acreditando no crescimento do jornal, com esse papel cada vez mais questionador, de contribuição social, é o meio mais indicado para isso. O jornal tem ainda o fenômeno recente dos jornais populares, que atendem a uma classe social em ascensão, que passa a ter poder de consumo e a consumir mídia. Temos o exemplo do Hora de SC, que hoje circula com 30 mil exemplares na Região Metropolitana de Florianópolis. É um mercado novo, que não existia anos atrás. 

AAqui - Você acredita que o jornal tenha essa longevidade porque ele inspira credibilidade? O jornalista está dentro das três categorias mais confiáveis no Brasil…

Smith - Seu comentário é perfeito. O jornal é, talvez pela perenidade, o meio em que a pessoa para, reflete e pensa sobre aquilo, e está ali a opinião de quem nós confiamos. Essa percepção é muito forte no impresso e deve continuar. O carro chefe do jornalismo é o jornal. Grande parte das principais histórias de jornalismo, as grandes descobertas, as principais investigações são do meio impresso.

AAqui - O pessoal de TV e rádio, do ponto de vista do consumidor, são apresentadores. O William Bonner não é um jornalista, ele está lendo o teleprompter. Por mais que ele seja o editor ou o mentor, não é a mesma coisa que pegar um colunista ou um editorialista…

Smith - A televisão tem o mesmo senso de responsabilidade, mas o meio não dá o mesmo grau de profundidade que o jornal permite. Então a informação é mais curta. A reflexão mais profunda acaba sendo realizada no meio impresso.

AAqui - Qual sua opinião sobre o papel da TV no Brasil e como a RBS já atua na esfera digital?

Smith – O Brasil tem uma situação muito ímpar, que é o fenômeno da televisão sob o ponto de vista de penetração e qualidade. A Rede Globo hoje é a maior rede de TV do mundo em termos de faturamento, por essa característica do mercado e pela qualidade que oferece. Entre os meios tradicionais, a TV é o mais bem-sucedido, com melhores perspectivas no longo prazo. Continua crescendo o número de horas que o consumidor passa na frente da TV aberta. A participação da TV no bolo publicitário vem crescendo nos últimos anos, e acreditamos na evolução do meio televisão e no fortalecimento da qualidade do seu conteúdo.
Estamos passando pela entrada da televisão digital no Brasil. Em Santa Catarina, já temos a RBS TV em Florianópolis e em Joinville com tecnologia HD, e esse processo deve continuar ao longo do ano. Depois vêm as novidades da interatividade. Hoje você vai numa feira de TV nos Estados Unidos e vê muita televisão 3D. Há cada vez mais novidades tecnológicas que fazem o consumo de televisão ficar melhor e dão vida a esse produto.

AAqui - Você falou de convergência, de interatividade, de tecnologia. A televisão é bem-sucedida porque é um momento de união, a família está junta chorando, rindo ou dando gargalhadas, brincando, falando, interagindo. A internet é a solidão. Essa convergência dos meios vai se dar na TV ou na internet?

Smith - Essa pergunta me lembra de discussões estratégicas na RBS há 15 anos. Na verdade, não é nem um nem o outro e sim uma forte convergência entre os meios. Na época, a pergunta era mais focada no device: a televisão será o computador ou o computador será a televisão? Vemos que tomou os dois rumos. Então já temos cases, claro que ainda sem muita penetração, de consumo da internet e da televisão, de mesclar com conteúdo sobrepostos de internet e vice-versa. Vou dar um exemplo: eu assisto a televisão da minha casa no computador, remotamente. Eu ligo e mudo o controle remoto, remotamente, em qualquer lugar do mundo. Por isso, digo que a internet irá para a televisão e para a sala de casa, sendo que a experiência muda até o convívio social em torno da televisão. E a televisão irá para o computador. É uma convergência nos dois devices.

AAqui - E o rádio?

Smith - O rádio talvez seja o meio mais bem distribuído e pulverizado dos tradicionais, permitindo cada vez mais segmentação e a abrangência de diferentes públicos. Cada uma das rádios irá passar pela melhoria da qualidade do sinal e da melhoria do conteúdo. E, obviamente, os meios digitais são os que mais crescem. Cada vez temos mais opções e novidades que vêm mais rápido. Anos atrás falávamos, comercialmente no Brasil, da internet como um fenômeno. Depois, das plataformas que surgem e vão. O Yahoo era muito forte há 10 anos. Hoje temos o Google e estamos falando de Facebook. Nesse meio tempo teve coisas que surgiram e quase desapareceram. O MySpace era o boom da internet há alguns anos , já o Second Life praticamente desapareceu.

AAqui - E teve a coisa absurda do Skype ser comprado por US$ 8,5 bilhões pela Microsoft.

Smith - Exatamente. A taxa de adoção de usuários ao Twitter e ao Facebook é cada vez mais rápida. O número de meses que demora para chegar a 50 milhões de usuários é menor. Isso vale também para device. Vale para a curva de compra de iPod, iPhone e iPad. Haverá uma velocidade cada vez maior de mudança, de lançamento de novas plataformas.  E a empresa de mídia que tem o conteúdo como seu grande ativo tem de pensar em estar próximo ao seu consumidor por meio de outras plataformas. O que importa é o consumidor final e qual o conteúdo que lhe interessa. O consumidor vai buscar isso no celular, no computador, televisão, jornal, rádio, iPad ou outro meio,  mas a necessidade do conteúdo não muda ao longo do tempo.

AAqui - A pergunta final que eu queria te fazer é sobre o apoio que o Grupo RBS vem dando ao meio publicitário. No último evento em que eu estive, do Grupo de Mídia de Santa Catarina, você falou que o Grupo tem um compromisso com Santa Catarina, principalmente com o mercado anunciante e de agências de publicidade, com quem há grande interesse em colaborar com o crescimento. O que você destaca sobre essas ações?

Smith - Acreditamos na parceria com as agências, até pelo papel de liderança e vanguarda que a RBS tem no mercado catarinense. Temos a responsabilidade de ajudar as agências nesse desenvolvimento. É claro que não é nossa responsabilidade final, mas faz parte do nosso papel trazer casos, palestrantes e informações. Informações que temos acesso por meio de relatórios, de contatos e eventos específicos para debater este meio. Promovemos encontros como este do Grupo de Mídia, em que profissionais catarinenses se reuniram com pessoas de fora para falar sobre desenvolvimento de internet e mobilidade. Fazemos também seminários e eventos, com o Sinapro, por exemplo. Temos o papel de ajudar e fomentar o desenvolvimento das agências e vamos continuar praticando estas ações.

AAqui - Uma mensagem final para os publicitários e futuros publicitários, uma mensagem de 25 anos do Diário Catarinense.

Smith - É uma mensagem do Grupo. Mais do que os 25 anos do DC, temos uma história de 32 anos em Santa Catarina, 25 dos quais com o DC. E ela sempre esteve calcada em crenças empresariais e de valores do nosso negócio. Valores ligados à ética e a como deve ser feito jornalismo. Crença empresarial de que Santa Catarina apresenta um potencial de crescimento fantástico, com grandes empreendedores e grandes empresas. Vamos continuar investindo em negócios no Estado, mantendo e ampliando a posição de liderança da RBS, com a prestação de produtos e serviços cada vez melhores ao nosso público.

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